20 de ago de 2019

A cara do Caveira



Andava no cemitério sem querer
Não tenho medo não!
É que não gostava mesmo

Gira no cemitério?
Arrumava mil desculpas sim
Eu sei que já estava de olho em mim

Um dia estava eu com minha lotação
Eu já era motorista a tempo
E não via a hora de largar

Um homem me deu sinal
Na porta do cemitério, cruzes!
Mas, era meu ganha-pão

O peguei e continuei o caminho
Outras pessoas subiram e foram descendo
E eu ia conversando, era rápido e popular

Já na Vila, faltavam três pessoas pra desembaracar
Parado no farol, olhei o retrovisor
E só tinham duas

- Eita, cadê o "homi"?

Os dois se olharam sem entender
ao mesmo tempo, perguntaram:
- Que homem?

Expliquei que era o homem de terno e gravata
Que peguei na cidade, na porta do cemitério
E o rapaz me disse:

- "Olha moço, eu achei bem estranho,
o senhor parou a van, abriu a porta e esperou
depois fechou a porta e seguimos"

Não era possível, eu tinha pego o homem
Ele tava de terno, gravata e chapéu
Eu não tava doido

Deixei os dois, e fui pra casa
Parei na porta da garagem e ia descer pra abrir
Pelo retrovisor vi o homem de novo

Ele pôs a mão no meu ombro
E minha espinha gelou
Mas, não tive medo não!

" - Filho, eu tô te esperando filho
Seja no terreiro, ou não;
Eu sempre esperarei!"

"E foi assim mesmo?"
Perguntou-me o pai de santo
E respondi que sim

Mandou-me tomar um banho de ervas
E voltei com roupa branca
Os médiuns fizeram uma roda

E no meio de seus cantos tontei, e mais nada
Só lembro da cara do Caveira
E do Pai cantando:

- "firma seu ponto na folha da bananeira"


Por: Alexandre Careca
Fonte: Ventania

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