3 de mai de 2019

Um causo de Vovó Catarina



Era um homem culto, para quem não havia Deus senão a ciência. Sua arrogância era proporcional.

Igrejas? - ora, são templos de idiotas, costuma dizer.

Santos? - nada mais são que personagens da mitologia.

Benzedeiras, médiuns, orixás e guias espirituais, pior ainda. Eram nada mais que mistificações ou crendices próprias dos ignorantes. A estes não se contentava em menosprezar, mas fazia questão de achincalhar, dizendo que se tratava de religião de negros pobres e incultos.

A empregada da sua casa, uma negra de meia idade, ouvia esses absurdos e mantinha-se calada. Entendia que o patrão queria provocá-la, pois sabia que ela era frequentadora de um templo de Umbanda. Resignada, a serviçal ouvia aqueles impropérios e baixava a cabeça. Sabia que não adiantaria argumentar. Preferia deixar que Olorum e Xangô se encarregassem do assunto. Quem era ela para julgar?

Mas eis que um dia o filho mais novo do patrão, um menino de apenas seis anos, caiu doente, vítima de uma febre ardente.

Os melhores médicos da cidade foram acionados e foram unânimes em dizer que desconheciam a origem do problema, mas que dificilmente uma criança resistiria àqueles sintomas cada vez mais avassaladores.

Desesperado, o pai preferiu levar o filho para casa. Se tivesse que morrer, que fosse entre os seus, e não no leito frio de um hospital.

Todos, pais, avós, tios e irmãos estavam ao redor da cama rezando pela saúde do pequeno, ao que o pai reclamava, dizendo que se Deus realmente existisse, não permitiria que uma criança sofresse. Foi nesse momento que a empregada entrou para servir um café aos presentes. Ao olhar para o menino desacordado, não conseguiu se segurar: uma sensação de peso envergou suas costas, as pernas dobraram-se, ela deixou cair o bule de café no chão, enquanto todos a olhavam atônitos.

Com a voz diferenciada, carregada com um sotaque oriundo de tempos remotos, pediu licença e foi até o menino. Quase sussurrando, cantou baixinho:

No pé do morro, na mata virgem
dizem que mora um velho lá
Ele é curador, ele é rezador
Ele é Xapanã, ele vai te curar

Mesmo o pai, sempre tão endurecido, calou-se diante daquela canto. Ainda sussurrando a velha fez uma série de orações quase inaudíveis e, por fim, passou a mão pelo rosto do menino, que imediatamente abriu os olhos.

Olhando para o patrão, disse humildemente:

_Vovó Catarina pede desculpa por ter vindo à casa do sinhô sem pedir licença, mas nêga véia não consegue ver um curumim doente da alma e ficar sem fazer nada.

O homem tentou balbuciar alguma coisa, mas não conseguiu, então a velha continuou:

_Nêga véia conhece seu lugar e sabe que os hómi da ciência faz sua parte, mas quando a doença é da alma é nóis que cura.

_Por que meu filho ficou doente? - perguntou a mãe com a voz embargada.

_Quando falta fé numa casa - respondeu a negra - a alma de todos enfraquece e os pequenos são os que mais sofrem. É dever do pai e da mãe ensinar que existe um Pai Maior e que a prece é o remédio da alma. Nesse casuá jogaram o remédio no ralo e ainda riam dele. Com licença que nêga véia já falou demais e vai embora.

Nesse instante, o pomposo homem jogou-se aos pés da negra, pedindo perdão e prometendo mudar dali para a frente. A velha apenas fez uma cruz em sua testa, dizendo que não era preciso pedir perdão a ela.

A cada dia que passou o menino melhorou, até ficar completamente curado. O respeito e a prece tornaram-se um hábito naquela casa e patrão, antes tão pedante, agora vestia-se de branco uma vez por semana e ia ao templo de Umbanda da empregada ajudar a cambonear os pretos velhos, aos quais nunca esquecia de saudar dizendo: Adorei as Almas.

Por: Douglas Fersan

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