22 de mar. de 2019

Médiuns invigilantes e os espíritos enganadores




A mediunidade é inerente ao ser humano. Uma questão orgânica que nada tem a ver com determinada “missão” dentro do espiritismo ou da Umbanda, por exemplo.

Muita gente pensa que por ser médium “é missionário e escolhido de Deus”... Mediunidade é mais uma característica das humanas criaturas, isso pode ocorrer com qualquer um de nós, espíritas, católicos, evangélicos, budistas, ateus, etc. Independe de religião ou da falta de uma. Tem a ver com a nossa necessidade de evolução.

Milhares de pessoas que são médiuns, em todo o planeta, sofrem com a desinformação e mais ainda com a falta de estudos que possam esclarecer de forma rica e simples as causas dos tormentos de ordem psíquica, geradoras (muito mais nos neófitos) das mais complicadas situações e sofrimentos.

O maior “vilão” das criaturas que são médiuns é a falta de informação e de estudos sérios e sistemáticos, nessa área.

Marcelina descobriu-se médium desde pequenina. Cresceu dentro de um templo umbandista, na década de 1950. A mediunidade aflorou e logo estava servindo e desenvolvendo-se.

O tempo passou ela cresceu, tornou-se uma linda moça e logo casou-se. Alguns anos depois vieram os filhos. Também como ela, cresceram dentro dos terreiros umbandistas aprendendo a cultura do povo escravizado que veio para o Brasil. Aos poucos cresciam e ia seguindo os mesmos caminhos dos mais velhos, dentro da temática Umbandista.

Certo dia ela parou e pensou na sua vida. Concluiu que tinha suas entidades dava passagem para todas, era uma médium muito procurada nas casas onde servia, mas alguma coisa ainda faltava...

Foi então quando resolveu atender em casa. Com a ajuda de dois dos filhos mais novos ela montou num quartinho nos fundos da residência, um gongá. Colocou lá umas imagens, acendia velas para os santos, incorporava e atendia aos clientes curiosos e afoitos por soluções rápidas para as furadas que davam na vida!

Em pouco tempo a casa de Marcelina ficou cheia de estranhos que aos poucos tornaram-se conhecidos e fieis clientes ou consulentes, como preferirem. Ela cobrava pelas sessões e dava consulta.

Nas sextas-feiras desde cedo havia uma fila com mais de cinquenta pessoas no seu portão. E cada dia mais o burburinho aumentava sobre suas entidades que resolviam mesmo as questões dos clientes e com isso, a médium incauta foi ganhando notoriedade.

Eles sempre voltavam para mais sessões mediúnicas com as tais entidades que se intitulavam exus, bombogiras, caboclos, pretos velhos, etc. para cada caso uma “entidade” específica, o preço combinado, os trabalhos surtido o efeito desejado e seus clientes satisfeitos.

Certa vez, uma consulente fora à sua casa num domingo pedir ajuda a entidade masculina que “trabalhava” com a médium. Era para que seu marido voltasse para casa. Ele havia saído brigado com ela, cansado que estava da vida difícil que levavam. Mas a entidade, mediante pagamento em dinheiro, importante para a manutenção da família e do pequenino quarto onde atendia a seus clientes para assuntos espirituais, atendeu prontamente, já tomando os centros de força de sua médium e prometendo levar o marido de volta para a casa dela em alguns dias, mediante pagamento específico (velas, despachos na rua, bebidas, comida...).

Marcelina tinha a ajuda dos filhos que serviam como cambonos e organizavam o entra e sai das pessoas, a fila interminável de consulentes sedentos de desejos, remendos e milagres para suas mazelas íntimas.

Assim os dias iam passando e nunca mais, Marcelina conseguiu parar. 
De vez em quando ia para as casas umbandistas matar saudade, receber um espírito zombeteiro e vivenciar profundamente o animismo e o misticismo, frutos da falta de estudos sérios e necessários a qualquer médium umbandista ou não.

A vida seguia em seu curso natural, até que num dia de sexta-feira à tarde, Marcelina atendia dentre os mais de quarenta clientes ansiosos, mal acomodados em tamboretes grosseiros de madeira, aguardando serem chamados. 
O dia estava quente e abafado, eles foram acomodados em um corredor estreito que levava ao quartinho, cochichavam e contavam casos para passar o tempo, até que Ermelita foi chamada.

Levantou-se ela e sua filha adolescente, foram levadas até a porta do abafado e fumacento quartinho. Ermelita entrou de mãos dadas com a filha, seguravam uma grande sacola plástica com velas, charutos, rosas, bebidas, alguidares de barro entre outros apetrechos. Foram saudadas imediatamente pela entidade que estava acoplada e assentada com sua médium num banco de madeira. Lá estava Marcelina sob a vibração de um desencarnado, ela vestia uma roupa negra, com uma enorme capa de cetim, um chapéu estranho na cabeça e fumando um charuto, enquanto na outra mão segurava uma taça com bebida alcoólica.

Saudaram-se e começaram o diálogo, Ermelita repetia o rosário de lamentações e pedia ajuda para conseguir ganhar uma causa na justiça a todo custo. Enquanto isso a entidade ouvia atentamente a consulente entre agitada e temerosa. Gargalhadas e palavrões se ouviam ao longe, impropérios ditos e promessas feitas. Enquanto isso a filha de Ermelita, Rosinha, assistia a tudo atenta e assustada, segurava forte a mão da mãe, orando baixinho pedindo a Deus para dali sair o mais rápido possível.

Terminada a conversa com a entidade que dizia ser um “exu”, as duas agradeceram e foram embora, Ermelita cheia de falsas esperanças e Rosinha apavorada!

_Mãe?!

_Fala, filha.

_Eu quero dizer uma coisa... não sei se devo.

_Fala, menina! Claro que pode, fala logo.

_Toda vez que a senhora me traz nesse lugar eu vejo coisas estranhas. Eu preciso mesmo voltar com a senhora da próxima vez?

_Se não quiser não precisa mais vir, filha. Mas o que é que tanto te assusta lá?

_Eu vejo uns seres estranhos... deixa prá lá, a senhora vai dizer de novo que eu estou inventando, esquece.

Ermelita parou e procurou um lugar tranquilo para ouvir a filha, avistou uma praça depois da rua e seguiram em direção a mesma. Sentaram-se e ela pediu à filha que explicasse com calma o que havia visto. Enquanto Rosinha lhe falava com atenção e minúcia de detalhes, Ermelita arregalava os olhos prestando máxima atenção na filha.

_Hoje novamente eu vi mais de dez homens e mulheres muito mal encarados que andavam e se arrastavam de um lado para o outro naquele quarto, onde dona Marcelina atende. Meu Deus, mãe! Tinha um homem horroroso com olhos arregalados e o corpo sujo, estava com os cabelos desgrenhados e parecia doente, não sei direito... Ele grudava nas costas dela e fazia umas coisas estranhas, parecia que falava no ouvido dela bem baixinho, ele tinha os dentes parecendo os de um vampiro, eram horríveis e as suas mãos... – parou para respirar fundo, tentando concatenar as ideias e acalmar-se um pouco – _as mãos tinham unhas enormes pontiagudas que mais pareciam unhas de uma bruxa! Dedos compridos e esqueléticos. Mae? Não seria melhor a gente nunca mais voltar naquele lugar?

_Filha, mas...

_Tinha umas mulheres também, elas gritavam e riam, rodopiavam e caíam no chão, os homens faziam “aquilo” com elas! Na nossa frente! Cada minuto entravam e saíam “mortos” naquele cômodo, um mais feio e doente que o outro!

_Rosinha! Isso é muito sério. Faziam “aquilo” o quê, menina? Você está me assustando, se eu descobrir que está mentindo vai ficar de castigo!

_Eu juro, mãe!

_Faziam “aquilo” o quê? Responda!

_S...Se-xo.

_Como? -Ermelita estava estupefata, os lábios secaram, a palidez invadiu sua face.

_Eu juro!

_Mas você é muito nova pra esse tipo de assunto! Como sabe que estavam fazendo sexo? Onde aprendeu isso? Não estou compreendendo você, quer apanhar? Está querendo arrumar confusão comigo, é isso, filha?

_Se a senhora quer me punir, faça! Mas naquele lugar eu não volto nunca mais!

Aquela mulher pensou aflita por alguns instantes, olhava para as pessoas que transitavam de um lado para outro, enquanto tentava organizar as ideias. Sentia vergonha e estranheza, medo e raiva. Pensava consigo mesma que a filha poderia estar falando a verdade já que desde muito pequenina a filhinha dizia ver espíritos. Por que ela mentiria sobre algo tão sério? Para quê?

Resolveu ter ali mesmo uma conversa com a adolescente que contou-lhe com mais riqueza de detalhes outros fatos ali presenciados pela sua mediunidade.

Mais tarde na casa de Marcelina...

A noite havia chegado, Marcelina já estava indo dormir. Seus filhos estavam igualmente exaustos e todos haviam se recolhido para seus quartos. O marido de Marcelina já dormia profundamente, ela deitou-se ali mesmo, agradeceu a Deus e as “entidades de luz” com as quais trabalhava e adormeceu profundamente.

Foi imediatamente levada por um grupo de espíritos desencarnados para o tal quartinho onde atendia aos seus clientes. Lá chegando viu-se cercada por entidades horrendas e agressivas que lhe faziam uma série de exigências e lhe davam ordens. Eram maus, irônicos e grosseiros.

_Do que está reclamando mulher? Deve-nos grandes favores! Somos nós quem a ajudamos a ter “ouro e prata”!

_Mas eu trabalho com entidades de luz! Não conheço vocês! - replicou ela perturbadíssima.

_Claro que somos da luz! – gargalhou o mais astuto. Fazemos o que mandas quando estás presa ao fardo de carne e aqui já temporariamente livre dele, fazes o que te mandamos! Jamais esqueças que quem veio em teu socorro fomos nós. Os outros te viraram as costas, mas estamos aqui para que não fiques sem seus clientes, tolos, crédulos, egoístas e infantis. – gargalhou debochadamente desferindo um olhar demoníaco em sua direção.

Nossa personagem fictícia arrepiou-se da cabeça aos pés, sentiu muito medo daqueles seres mais parecidos com os zumbis dos filmes hollywoodianos. E mais uma vez tentou argumentar...

_Eu só trabalho com os “amigos de luz”, realmente não conheço nenhum de vocês, isso só pode ser um ataque! As trevas querem me derrubar.

_Você é quem sabe! Quer continuar se iludindo o é problema seu! Apenas nos interessa que nos sirva sempre do lado de cá. Achas mesmo que os filhos do Cordeiroiriam te acompanhar nessa empreitada que só nos satisfaz? Eles são exigentes, cobram estudos, são disciplinadores, “chatos” porque o médium tem que ler aqueles livros do Kardec. Além do mais não pode haver escambo, quantas vezes você foi avisada pelos filhos do bem para ser disciplinada e estudar? Muitas, mas não quis, ficou preguiçosa e deixou que a vaidade nos aproximasse de você! Ha, ha, ha! Pouco a pouco te trouxemos para fora do templo umbandista porque lá os Exus de Lei, os policiais do Astral, não nos deixavam entrar. Mas você nos deixou entrar em sua mente, no seu coração, na sua alma, ha, ha, ha!... Continue se iludindo, para mim está tudo bem, o importante é que saiba que todas as noites, do lado de cá nos serve! Nós te ajudamos em tudo. Sabe aquele caso da mulher que pediu-te para trazer o marido dela de volta? Nos obsidiamos a nova namorada dele, até que ela tomasse nojo do cabra safado! Colocou ele em duas semanas para fora da sua vida. Fizemos ele voltar para a esposa má, injusta e exploradora, através da hipnose. O cabra ficou cheio de saudades da antiga patroa, até esqueceu-se que já não a amava mais! – pendeu a cabeça para trás para gargalhar debochadamente, cheio de vaidade e orgulho, dando-se grande importância _A tal mulher não veio aqui toda satisfeita hoje pra te agradecer e te pagar mais? Pois é! E quem te ajudou e ajuda nesses casos? Os filhos do Cordeiro? Não! Euzinho aqui... e os meus comparsas e as minhas meninas. Cale a boca agora! Comece a me servir, você sabe como! Você acaba gostando que eu sei...

A médium acordou no outro dia presa ao corpo físico, cheia de dores, com o corpo pesado. Parecia que carregava chumbo consigo. Levantou-se triste sem saber o motivo e foi cuidar de sua vida no plano terreno, cheia de perturbações e cismas.

O estudo é fundamental para os médiuns, o conhecimento abre nossa mente. A aplicação desse conhecimento em nós mesmos liberta-nos conscientemente da possibilidade de obsessão ou de abusos por parte dos espíritos zombeteiros. Na maioria das vezes somos nós quem os atraímos através da nossa incúria. Nossa boa postura moral nos preserva dos entraves no plano espiritual, nossa humildade aproxima-nos dos bons espíritos. Quando nos educamos moralmente e quando instruímo-nos da forma correta para sermos bons médiuns, seja dentro e fora de qualquer religião, nos aproximamos dos bons espíritos e distanciamo-nos dos maus.
Reflitamos!


Por: Letícia E. Gonçalves

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