4 de out de 2018

Macumbeiro!




"Macumbeiro!"

Apontou o dedo e gritou:

 “Você não é coisa de Deus!”

Não quis resposta, atacou.

“Hoje você vai ver, eu vou tirar esse demônio do teu corpo.
Você é sujo.
Imundo.
Possuído.”

Chutes e pontapés, foram palavras malditas.

Doeu. 

Doeu na alma, e se calou. 

Apontou o dedo novamente.

E novamente gritou!

“Você não pode expor sua fé assim!
Se isso pode se chamar de fé, coitado.
Ainda não conhece o amor de Deus. 
As pessoas podem pensar errado sobre quem é você! 
Deus não te ama!
Você é uma vergonha para o mundo!
Você não pode ser de Deus!”

Chorou o macumbeiro. 

Sem forças para levantar. 

Mesmo assim, todos os dias ia ao terreiro, bater cabeça e pedir por aqueles que ama.

Com sua vó doente, a sua força era Nanã.

Pedia a senhora Buruquê a cura da dor física, o perdão.

Não fazia nada além de subir a ladeira. 

Não tinha trabalho.

Não tinha casa.

Vivia de favor.

Estava na angústia do tempo, da doença, da solidão.

A mesma fé que o sustentava, era o motivo de seus hematomas tão visíveis e tão naturais para o mundo. 

“Intolerância não existe”, falou aquele que não a sente. 

Os hematomas foram causados porque escorregou e caiu.

Melhor assim.

Ninguém precisa saber.

Macumba é ruim, macumba é a escória. 

Macumbeiro bom é macumbeiro que apanha, até se converter.

Macumbeiro podia morrer.

Macumbeiro é do Demônio.

Macumbeiro não sabe nada de Deus.

Macumbeiro só sabe fazer coisa ruim.

Macumbeiro, macumbeiro, macumbeiro.

Silêncio.

Melhor assim.

Ninguém precisa saber.

Mas o Macumbeiro não se cala. 

Fala do amor.

Da caridade.

Macumbeiro não vai esconder os seus santos, suas vestes, seu branco, suas ervas, sua macumba, sua magia, seu conhecimento. Não vamos fingir, não podemos, porque está tudo em nós, desde que acordamos, até quando deitamos. 

Oxum nos abraça e canta pra nós dormirmos. Ogum nos segue, nos acompanha, aponta o caminho. Oxóssi nos faz fortaleza de sentimentos bons, abundância de espírito. Iansã nos faz voar, com seu vento sagrado nos afasta de tudo que nos trava. Xangô nos faz rocha pra suportar as intempéries do tempo e nos dá sua divina misericórdia. Iemanjá, das pedras jogadas faz areia pra não machucar. Dos Pretos Velhos nós temos o colo de Vô, de Vó, mironga andar com fé, ela não costuma falhar. Do Povo Cigano a alegria. Do Povo do Oriente a cura das feridas da alma. Do Exú, tão difamado e pouco conhecido em sua essência, nós temos um amigo, fiel guardião. Das crianças, temos o ensinamento do amor incondicional, da sua pureza. Oxalá a visão, o manto de Pai, a fé em Zambi.

E quando apontam o dedo e falam que macumbeiro não anda só, não podemos discordar. Não andamos sós, não somos sós. Nossas guias, correntes em nossos pescoços, são infinitas, com o círculo sagrado para nos mostrar que somos a continuidade de algo maior, que suportaremos, que lutaremos. Que ensinaremos um a um a nossa verdadeira face. E seremos sempre macumbeiros, porque a macumba que existe em mim, saúda a macumba, oculta ou não, que existe em você; e um dia a ignorância por falta de conhecimento será apenas uma lembrança e o mundo poderá viver apenas uma religião, aquela que fala do amor.

E isso bastará...


Por: Autor desconhecido
Fonte: União da Luz