11 de jul de 2018

Oração e meditação




Oração e meditação são como duas estradas. A oração é sempre para o nosso próprio bem, para a nossa própria vida, para nossos amigos queridos no nosso mundo imediato. Se orarmos bem, Deus nos concederá duas asas para voarmos. Mas a meditação é para o mundo inteiro. Se meditarmos bem, sentiremos unicidade com a nossa própria realidade expandida. Se pudermos seguir o caminho da meditação, seremos heróis-guerreiros. Poderemos carregar em nossos ombros gigantes todo o fardo da humanidade. Ao satisfazermos a nossa vida de meditação, satisfazemos não somente a Deus, mas também a nós mesmos e ao mundo inteiro.

Para aqueles que querem ter a realização do Altíssimo, sempre digo que a meditação é de suma importância. No entanto, houve santos no ocidente que realizaram Deus somente por meio da oração. Eles não conheciam o conceito de meditação. Mas a intensidade da oração e da aspiração deles os levou até o mundo da meditação e além dele. As duas abordagens são eficientes. Quando oramos, vamos até Deus. Quando meditamos, Deus vem até nós. O mesmo resultado é possível no final.

Eu oro, eu medito

Eu oro. Por quê? Eu oro porque preciso de Deus. Eu medito. Por quê? Eu medito porque Deus precisa de mim.

Ao orar, penso que Deus está bem acima de mim, acima da minha cabeça. Ao meditar, sinto que Deus está no meu interior profundo, no meu coração.

A oração diz: “Sou indefeso, impuro, fraco. Preciso de Ti, ó Senhor Supremo, para me fortalecer, para me purificar, para me iluminar, para me aperfeiçoar, para me imortalizar. Preciso de Ti, ó Senhor Supremo”.

A meditação diz: “Senhor Supremo, por Tua infinita generosidade, Tu me escolhestes para ser Teu instrumento, a fim de manifestar-Te aqui na Terra, à Tua própria maneira. Tu poderias ter escolhido outra pessoa para fazer isso. No entanto, concedeste a mim a oportunidade dourada. Ofereço a Ti minha gratidão constante, o meu coração-gratidão”.

Oração é pureza. Ela purifica a mente, que está sempre sujeita à dúvida, ao medo, à preocupação e à ansiedade, e é sempre atacada por pensamentos e impulsos inadequados. Quando oramos, a purificação surge na nossa mente, e ela aumenta a nossa receptividade a Deus. Na verdade, a pureza nada mais é do que receptividade a Deus. A cada vez que oramos, o nosso recipiente interior aumenta, aumenta mais e mais. Assim, a pureza, a beleza, a luz e o deleite podem entrar nesse recipiente e brincar juntos nos recônditos mais profundos do nosso coração.

Meditação é luminosidade. Ela ilumina o nosso coração. Quando a iluminação surge no nosso coração, a insegurança e o sentimento de carência desaparecem. Nesse momento, cantamos a canção de unicidade inseparável com a Consciência Universal e a Consciência Transcendental. Quando o nosso coração é iluminado, o finito em nós entra no Infinito e transforma-se no próprio Infinito. As amarras milenares vão embora, e a liberdade da Verdade e Luz infinitas nos dá as boas-vindas.

A oração diz para Deus: “Amado Supremo, Tu és meu. Eu o reivindico como meu, como parte de mim. Conceda-me as Tuas qualidades divinas em medida ilimitada, para que eu possa ser Teu instrumento perfeito aqui na Terra”.

A meditação diz para Deus: “Ó Amado Supremo, eu sou teu. Tu podes me usar à vontade, a qualquer hora, durante toda a Eternidade. Satisfaça a ti mesmo por meu intermédio, tanto aqui na Terra como aí no Céu”.

A melhor forma de definir a oração é praticá-la diariamente. A melhor forma de definir a meditação é senti-la devotadamente. A melhor forma de definir o yoga é vivê-lo sinceramente. A melhor forma de definir Deus é amá-Lo, e a Ele apenas, incondicionalmente.

A oração é algo totalmente intenso e que sobe às alturas. Ao orarmos, sentimos que a nossa existência é uma chama unidirecionada, voltada para cima. Dos pés à cabeça, todo o nosso ser está suplicando e rogando pelas alturas. A própria natureza da oração é alcançar Deus ao se elevar.

A meditação é algo amplo e vasto que, no final, se expande num Infinito. Quando meditamos, nos atiramos na vastidão, num mar infinito de paz e felicidade, ou recebemos a Vastidão infinita dentro de nós. A oração se eleva. A meditação se espalha. A meditação está constantemente se expandindo e se transformando em paz, luz e deleite. Quando meditamos, gradualmente vemos, sentimos e nos tornamos o universo inteiro de luz e deleite.

No entanto, é preciso lembrar que, quando oramos, sentimos que, como indivíduos, estamos separados de Deus. Sentimos que Ele está em algum lugar, e que nós estamos em outro. Nesses momentos, não estamos na nossa consciência mais elevada, na qual sentimos que nós e Deus somos um. Se sentirmos que nós e Deus somos um, então não há por que orar porque, nesse caso, as nossas necessidades são as necessidades Dele.

Podemos dizer que a oração intensifica a nossa intimidade com Deus, enquanto a meditação aumenta a nossa unicidade com Ele. Primeiro, temos de sentir que nós e Deus somos amigos íntimos. Então poderemos perceber a nossa realidade-unicidade com Ele. Antes de meditarmos, se orarmos por alguns minutos, poderemos desenvolver uma ligação íntima com o Supremo. Em seguida, podemos meditar para nos tornarmos um com Ele.

Na vida espiritual mais sublime, não há comparação entre meditação e oração. A meditação é infinitamente mais profunda e mais vasta do que a oração. No ocidente, a oração é usada pelos buscadores com uma eficácia considerável. Mas um verdadeiro buscador que quer ir até o Além Derradeiro precisa sentir que a meditação é o degrau mais alto da escada para a realização-Deus. Ao meditarmos, vemos, sentimos e nos transformamos no universo inteiro de luz e deleite.

A oração mais elevada

A oração mais elevada é “Seja feita a Vossa Vontade”. Com certeza, essa é a altitude mais elevada para uma oração e também é o começo da meditação. Quando a oração termina a sua jornada, a meditação começa. Na meditação, não dizemos nada, não pensamos em nada, não queremos nada. No mundo-meditação, o Supremo está agindo em nós e por meio de nós para a Sua própria satisfação. E o mundo-oração está sempre pedindo alguma coisa. Mas o mundo da meditação afirma: “Deus não é surdo nem cego. Ele sabe o que fazer para satisfazer a Si mesmo em e através de mim. Portanto, em silêncio repleto de alma, apenas me tornarei o mais elevado”.

O que a minha oração precisa é de uma árvore-paciência. O que minha meditação precisa é de uma flor-gratidão.
Sri Chinmoy


Por: Sri Chinmoy