10 de mai de 2018

Vertentes de Umbanda



“A Umbanda é a manifestação do Espírito para a prática da Caridade.”
Caboclo das 7 Encruzilhadas

Ao tratar de Umbanda, sempre devemos ter o cuidado de perguntar antes: Qual Umbanda você pratica?

Pode até parecer estranho para quem está começando a se familiarizar com a Umbanda agora – às vezes até para alguns mais antigos de terreiro – que existam diversas Umbandas. A Umbanda, não é uma religião centralizada, logo não tem um órgão centralizador, como o Catolicismo que possui o Vaticano. Por consequência, não possui um líder ou um representante máximo, apesar de certas vertentes quererem isso ou tentaram isso de alguma forma, criando uma “suposta” codificação Umbandista. Não, de fato a Umbanda é única e múltipla ao mesmo tempo.

Formada ou formatada no plano material pelo Caboclo das 7 Encruzilhadas, por meio da mediunidade de Zélio Fernandino de Morais, a Umbanda é um conjunto de práticas e manifestações de diversas culturas, tipicamente brasileiras ou que formaram o povo brasileiro. Logo, encontraremos práticas de cunho indígena, práticas de cunho africano, práticas de cunho afro-brasileiro e também caboclo e práticas católicas, práticas espíritas e até mesmo magia.

A Umbanda é um organismo vivo, que tem como figura principal o fundador de cada uma das casas, mas por uma questão de reconhecimento, lembramos sempre que a figura de Zélio e do Caboclo das 7 Encruzilhadas, foram fundamentais para a formatação de como hoje conhecemos a Umbanda – ou deveríamos conhecer.

Cada casa de Umbanda, traz em si, suas próprias doutrinas, formas de culto e até mesmo sua própria liturgia e teologia. Porém, nunca devemos nos esquecer dos pilares centrais que fazem da Umbanda o que é: Humildade, Simplicidade e Caridade. Se algum desses pilares não estiver presente não só no discurso, mas na atitude daquele local, não podemos dizer que é Umbanda.

Historicamente, aceitamos a fundação da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade como o início da Umbanda, porém a mesma é formada de diversas práticas que já eram encontradas em diversas outras culturas religiosas. Logo, não podemos falar que a Umbanda foi CRIADA, mas sim homologada, formatada ou fundamentada. Era comum, médiuns das mais distantes partes do Brasil, abrirem suas tendas, terreiros e casas e terem liturgias muito próximas.

Na casa em que trabalho, apesar do fundador nunca ter ouvido falar de Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade e tampouco de Zélio, muito do que ele praticava vinha ao encontro das práticas da Umbanda Branca, assim como é encontrado em diversas outras casas das ditas Umbandas Populares ou Tradicionais.

Aqui devemos abrir um parênteses para explicar o termo Tradicional. Se formos pensar na pureza da palavra, iremos definir que tradicional seria apenas a Umbanda trazida por Zélio e presente na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, porém, não é o caso.O melhor termo para isso seria Original, deixando o tradicional para casas que seguem determinada tradição ou que estão mais próximas das tradições originais, que alguns chamam de nações.

Lembrando novamente, que a Umbanda praticada no Brasil, não é Africana e não é uma derivação somente do Candomblé, então até mesmo o termo nação empregado no Candomblé é impreciso ou toma outra definição dentro da Umbanda.

O guia-chefe fundador de um terreiro, tenda ou casa, pode muito bem trazer sua própria liturgia, sua própria forma de cultuar a Umbanda e ainda assim manter o núcleo da Umbanda, por meio da prática da caridade, do emprego da simplicidade e da manifestação sempre humilde. As cores de velas podem mudar, pode haver ou não culto aos orixás, pode ser mais africanista ou mais indígena, porém ainda será Umbanda.

Contudo, não se pode parametrizar todas as outras umbandas por meio desta que é praticada. Não é porque praticamos de forma diferente, que podemos assumir que todas as outras formas estão incorretas, ou que nossa forma é uma evolução das formas antes praticadas.

Ouço muito por aí, pessoas julgando que as umbandas mais modernas (NeoUmbandas) são formas mais elevadas e aprimoradas de se cultuar a Umbanda. Também encontro por aí defensores de um resgate a uma suposta pureza da Umbanda advinda da África, no culto aos Orixás. Porém o próprio termo Umbanda não é da terra dos Orixás, sendo que é um termo derivado da língua kimbundo encontrada nas antigas regiões que hoje compreendem o Congo e Angola. Então, esse discurso é vencido e só demonstra que um dos pilares, o da humildade, está sendo conspurcado.

Devemos sempre buscar os 3 pilares da Umbanda em qualquer casa que visitemos, porém devemos compreender que existem diferenças de culto. A essas diferenças, a essas umbandas diferentes, damos o nome de vertentes. Vertente está para Umbanda, assim como denominação está para as muitas igrejas evangélicas. Podemos encontrar diversas vertentes, e se formos levar ao pé-da-letra, existe uma nova vertente sendo fundada a cada nova casa que se abre. Contudo, vamos nos fixar as mais conhecidas para compreensão:

Umbanda Branca: 

Tida como a Umbanda original, foi a vertente ou a Umbanda fundada pelo Caboclo das 7 Encruzilhadas por meio do médium Zélio Fernandino de Morais. Também é conhecida como Umbanda Branca e de Demanda, mas em seu princípio o primeiro nome que tomou foi de Alabanda ou Allabhanda. Alguns ainda usam o termo Umbanda Tradicional para se referir a essa Umbanda, mas acho um termo incompleto, pois todas vertentes que seguem uma tradição também levam esse nome. Cultua os Santos, sendo que os mesmos podem ser sincretizados com os Orixás, mas compreendem que Orixá é um termo empregado para designar um espírito elevado, como no caso do Orixá Mallet, falangeiro da linha de Demanda. Suas 7 Linhas são distribuídas como: Linha de Oxalá, Linha de Ogum, Linha de Euxosse, Linha de Xangô, Linha de Nhã Shan, Linha de Almanjar e Linha das Almas. As entidades que mais se manifestam são caboclos e pretos-velhos. Não usam atabaques, nem palmas e as velas sempre são de cor branca.

Aumbandã:

Conhecida também pelos nome de Umbanda Esotérica ou Umbanda Mirim, foi fundada pelo Caboclo Mirim, por meio do médium Benjamin Gonçalves Figueiredo. Contam-se histórias que o sr. Benjamin teria sido “feito” pelo próprio Caboclo das 7 Encruzilhadas. Que o Caboclo incorporado em seu cavalo Zélio, teria levado o sr. Benjamim para o mar e saído de lá com ele incorporado no Caboclo Mirim, já com a missão de montar sua Tenda, a Tenda Espírita Mirim e dar continuidade no trabalho. Aqui vemos a primeira divergência entre a estrutura do Zélio e a nova estrutura que surgia, sendo que o Caboclo Mirim, mudou diversas práticas dentro da liturgia e também trouxe uma nova forma de se compreender as 7 linhas de Umbanda, retirando os santos católicos e dando uma nova visão a compreensão das linhas e dos Orixás, distanciando os mesmos dos Orixás africanos e organizando-os assim em 7 linhas, como as que seguem: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Iofá, Ibejis e Iemanjá. Apesar disto acreditam na presença de outros orixás (reinterpretados) dentro da sua ritualística, sendo eles, além dos já citados: Obaluaiê, Oxum, Iansã e Nanã. O Caboclo Mirim ainda instituiu uma forma de hierarquização para os médiuns, dividindo-os em graus, que são: Cabeça de Bojá-Mirim (iniciantes), Cabeça de Bojá (médiuns de banco, passistas), Cabeça de Bojáguaçu (médiuns que incorporam, médiuns rodantes), Cabeça de Abaré-mirim (Sub-chefe de terreiro), Cabeça de Abaré (Chefes de terreiro), Cabeça de Abaréguaçu (Sub-comandante chefe de terreiro), Cabeça de Morubixaba (Comandante chefe de terreiro). Preferencialmente se manifestam Caboclos e Pretos-Velhos. Não se utilizam de guias, velas, bebidas, atabaques e imagens em suas sessões e cerimônias.

Aumbhandã: 

Apesar do termo ser similar com o anterior, essa é uma escola ou vertente fundada pelo médium Woodrow Wilson da Matta e Silva, conhecida também pelo termo (similar) de Umbanda Esotérica ou Umbanda de Pai Guiné ou até mesmo de Raiz de Pai Guiné. Alguns defendem que W.W. da Matta e Silva é o sucessor espiritual do Caboclo das 7 Encruzilhadas – o que não é defendido por este autor – porém, podemos encontrar diversas divergências entre ambas as tradições. A vertente esotérica de Guiné preza mais por um lado esotérico, indianista, com pontos riscados fluídos, lembrando o sânscrito (bem de longe, mas é o defendido pelos seus adeptos) e também traz uma estrutura diferenciada das 7 linhas de Umbanda, sendo a mesma formada por: Orixalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Yemanjá, Yori e Yorimá. Não há culto ou a presença de santos católicos ou de Orixás africanos, geralmente se representam as 7 linhas por meio dos pontos riscados de cada uma das linhas. Trabalham com Caboclos, Pretos-Velhos e Crianças, preferencialmente. Os Exus trabalham paralelamente considerados como entidade puramente de Quimbanda. Foi herdada por Rivas Neto, que fundou sua própria vertente, a Umbanda Iniciática, mas é disputada por Roger Feraudy, que também criou sua vertente a Aumpram. Em todas essas três vertentes encontramos algo em comum, que é a crença que a Umbanda é um conhecimento milenar disponível para toda humanidade e que foi reinterpretado com o passar das eras, sendo formado pelo povo da Raça Vermelha, originais dos continentes míticos de Atlântida, Lemúria e Mu.

Umbanda Popular: 

Também podendo ser conhecida como Umbanda Simples e Umbanda Tradicional. Algumas pessoas confundem com as práticas de Umbandomblé, Candombanda, Cruzada ou Umbanda Traçada/Trançada, porém não se trata da mesma. A Umbanda Popular são as muitas umbandas formadas em uma única casa sem que essa se torne difundida como na prática de franquias. Podemos considerar que a Umbanda Popular é a Umbanda do povo e dos guias que trazem aquela forma de cultuar, podendo variar completamente de casa para casa. Justamente por isso é difícil categorizar e acaba-se colocando todas as Umbandas que não fazem parte das vertentes com mais de uma casa disponível, nessa categoria. Cultuam-se tanto santos, quanto orixás, conforme as ordens de seus Guias-Chefes e também acreditam em diversos Orixás ou linhas de trabalho, assim como a formatação da linha é diferente. As entidades que trabalham nas Umbandas Populares são os Caboclos, Pretos-Velhos, Crianças, Exus, Pombagira, Baianos, Marinheiro, Mineiros, Boiadeiros, Malandros, etc. Encontramos a presença de atabaques, música, velas coloridas, alguns praticam oferendas e entregas, uso de bebidas, fumo, etc. Porém, depende mesmo de cada casa. Na casa (CCNSA) em que faço parte, podemos classificar como Umbanda Popular (tradicional da raiz de Pai Dito) e não usamos bebidas alcoólicas, não se usa velas pretas e nem sequer oferendas e entregas.

Umbanda Omolocô: 

Umbanda criada pelo Tatá Tancredo (Tancredo da Silva Pinto), também conhecida como Umbanda Traçada. Tem forte influência africana, sendo considerada a que mais se aproxima de um candomblé. Usa-se abertamente do sincretismo dos Orixás com os santos católicos, e encontramos diversas linhas de trabalho, também encontradas nas Umbandas Populares. Pratica do sacrifício ritualístico e tem inclinação para o Candomblé Nagô / Yorubá.

Umbanda de Almas e Angola:

Também derivada de um Candomblé, porém de nação Angolana, sendo que é a derivação do Candomblé de Caboclo, que por sua vez é derivada do Candomblé de Almas, este sendo derivado do Candomblé de Angola. Muito comum na região sul do Brasil, considera como trabalhadores os caboclos de diversos orixás, pretos-velhos e as crianças. Além, disso tem a forte presença do povo das águas e dos orixás, Iemanjá, Oxum, Nanã e Iansã (para alguns) ligados a água. Iemanjá o Mar, Oxum os Rios, Nanã as Lagas e Iansã a Tempestade.

Umbanda Sagrada: 

Vertente criada por Rubens Saraceni em conformidade com as regras ditadas, supostamente, por Pai Benedito de Aruanda e pelo seu Ogum pessoal, Ogum Megê Sete Espadas (Seiman Hamiser Yê). Reestruturou a ideia das 7 linhas, criando pares vibratórios e chamando-os de tronos, sendo que considera a seguinte formatação: Trono da Fé (Oxalá e Logunan/Oyá Tempo), Trono do Amor (Oxum e Oxumaré), Trono do Conhecimento (Oxóssi e Obá), Trono da Justiça (Xangô e Egunitá/Oro Iná), Trono da Lei (Ogum e Iansã), Trono da Evolução (Obaluayê/Nanã Burukê) e Trono da Geração (Iemanjá e Omulu). Tem seus próprios fundamentos, tem sua própria cosmogonia e cosmovisão, sendo uma visão bem diferente das demais Umbandas. Focam em estruturas deixadas por seu fundamentador Rubens Saraceni, baseados nos inúmeros cursos por ele ministrados, seja de teologia de Umbanda, seja de desenvolvimento mediúnico, seja de sacerdócio, como os milhares de graus de magia divina que ele instituiu. É, sem sombra de dúvidas, a vertente mais difundida, devido a facilidade de encontrar sua literatura e também pela facilidade como se formam “sacerdotes”, mesmo que isso não seja algo significativo ou sinônimo de que é melhor que as demais. Trabalham com todas as linhas de trabalho, não importando a vibração que cada Orixá emite, sendo considerado que há caboclo e pretos-velhos, assim como demais entidades, para todas as vibrações e pares energéticos, os chamados tronos.

Além dessas podemos encontrar a Umbanda Guaracyana, a Umbanda Batuque, a Umbanda dos 7 Reinos, Umbanda dos 7 Raios, Umbanda Astrológica, etc. São vertentes e mais vertentes e que nunca irão se findar, com a graça de Zambi, Tupã e Olodumaré.

O mais importante quando se diz sobre vertentes é identificar a sua condição e como ela se encaixa naquela sociedade, naquele agrupamento de médiuns e consulentes e de como suas práticas são feitas. A Umbanda não cobra por atendimentos, tampouco por desenvolvimento mediúnico ou ensinamentos de suas práticas ritualísticas básicas. Então desconfie, caso as coisas saiam desse eixo.

As literaturas consultadas para esse artigo foram as dos autores acima referenciados, procure pelo nome dos fundamentadores ou até mesmo de Leal de Souza, que escreveu sobre a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade.

Recomendo também a leitura do artigo História da Umbanda – Linha do tempo, no blog no Mundo das Umbandas.


Por: Douglas Rainho