15 de nov de 2017

Ele era feliz e não sabia


Dorival era frequentador de uma casa umbandista há mais de dez anos. Estava afastado há algum tempo, mas por causa das armadilhas que a má conduta humana proporciona àqueles que de si mesmos descuidam, resolveu pela dor retornar ao templo de caridade em busca de alento espiritual.


Desgastado, vampirizado espiritualmente, falido, doente e desequilibrado, tentava agarrar-se a um fio de esperanças.

Como ele já conhecia o ambiente da casa espiritual que frequentou por anos, sabia da rotina do lugar que mantinha-se por disciplina de atendimentos, foi imediatamente assentar-se no antigo banco de madeira, comprido e lustroso, num corredor bem iluminado e ventilado, mas que estava lotado de outros consulentes que já estavam à espera do atendimento fraterno. Depois de muito esperar quando chegou a sua vez, o trabalhador da casa fez um sinal e Dorival levantou-se apressadamente entre passos cambaleantes e indecisos na direção da sala. Entrou e cumprimentou o assistente com um sonoro “boa noite” e um sorriso amarelo, assentando-se em seguida enquanto tentava disfarçar o constrangimento. 

Antônio Carlos: _Boa noite, irmão! Chamo-me Antônio Carlos. Em que posso ajuda-lo? Fique tranquilo e fale tudo o que está lhe preocupando para que eu possa anotar e depois lhe encaminhar ao tratamento adequado. – Falou com um sorriso simpático no rosto o homem de aproximadamente cinquenta anos. 

Dorival: _Boa noite. Meu nome é Dorival. Estou aqui para me aconselhar, pois sou frequentador antigo dessa casa, mas tem um tempo que não venho... Afastei-me muito eu confesso. Agora estou a enfrentar uma depressão severa... Eu e minha esposa estamos separados e minha vida por causa disso está um inferno... Me sinto muito culpado. Sabe irmão Antônio Carlos, eu nunca pensei que fosse sofrer tanto, porque fui eu mesmo quem quis a separação! Preciso de sua ajuda para não enlouquecer! 

O assistente da casa umbandista era na verdade um trabalhador voluntário, formado em psicologia e que todas as quintas-feiras doava-se em prol do próximo, dando o melhor de si. Antônio, como gostava de ser chamado, percebeu que Dorival estava ansioso e realmente sua energia não era boa, procurou passar para o consulente, calma e segurança enquanto o ouvia... 

Antônio Carlos: _Meu irmão, lhe ouvirei atentamente, mas peço que fique calmo, pois temos tempo e você pode falar qual é o seu problema sem constrangimentos. Vou anotar algumas coisas, mas é somente para que a sua ficha pessoal possa ser lida posteriormente pelos membros dessa casa. É como uma ficha médica me entende? Fique à vontade, respire fundo e fale. 

Dorival: _Fui casado há doze anos, tenho uma filha de seis anos de idade que agora sofre minha falta. Tudo começou quando minha filha nasceu, pois o amigo se é casado e tem filhos sabe que as mulheres ficam mais frias para sexo depois da maternidade. Parece que não conseguem conciliar os deveres domésticos do lar e a maternidade, com relação sexual! Minha Consuelo não tinha mais tempo para mim, era só para a nossa pequenina filha, quando eu a procurava ela ficava brava e se esquivava dizendo sempre a mesma coisa, estava cansada e queria dormir! Fiquei carente e sempre pensava em sexo, me perturbava quase todas as noites sentindo falta da minha esposa que com todo o respeito ao senhor que me ouve, caro irmão, ela era fogosa antes da gravidez! Depois que a neném nasceu isso não só foi diminuindo como acabou! Foi aí que comecei a olhar para as moças na rua... Eu conheci uma mulher chamada Isabel e fui me envolvendo aos poucos, mesmo sabendo que não devia. – A essa altura nosso personagem olhou sem graça para o equilibrado e atencioso trabalhador daquele templo, tentando disfarçar sua baixa estima e descontento profundos, porém sem lograr êxito. Respirava apressadamente e tinha na face pálida a expressão angustiada e triste daqueles que reconhecem a própria falência a moral. 

Antônio Carlos: _Não se perturbe meu irmão, fique tranquilo, sou homem como você e mesmo sendo fiel a minha esposa entendo sua dor. Por favor, lhe peço mais uma vez fique em paz e fale o quanto necessitar, estou aqui para lhe ajudar. 

Ainda constrangido, mas sentido enorme necessidade de expor sua dor em busca de ajuda, Dorival continuou. 

Dorival: _Eu me envolvi sexualmente com essa mulher, a Isabel, e depois com outras mulheres! Acabei deixando minha esposa de lado e passei a mentir, a enganar, a usar minha profissão para dar desculpas em casa... Eu sou motorista de ônibus, uma profissão honrada que usei mal para trair... O senhor já irá entender. Usei minha profissão para encobrir minhas traições. Dizia que os horários na empresa haviam mudado e por isso eu chegava em casa mais tarde, mas era mentira! Acostumei-me com as “escapadas” e com as diferentes mulheres que levava para o Motel. No início quando não tinha experiência em ser infiel era discreto e saia pouco pra namorar, tinha receio de ser descoberto, mas depois fui percebendo que ela não me cobrava muitas explicações... Na verdade minha esposa confiava demais em mim! Depois com o tempo cada recusa dela em deitar-se comigo, eu me sentia rejeitado e passei até a sentir ciúmes da minha filha, imagine isso! Estava me afastando delas por falta de compreensão e de amor! Até que um dia Consuelo me percebendo cada vez mais afastado só na rua, chegando tarde, ficando endividado, pois eu não conseguia mais pagar minhas contas em dia. O senhor imagina que eu passei a comprar presentes caros para essa amante, logo eu que sou assalariado e pai de família. Depois veio a crise do Brasil e para o meu azar a minha esposa depois que a nossa filha cresceu e foi para a creche, não conseguiu mais emprego, a coisa lá em casa ficou mais séria e eu gastando com mulher na rua! Apaixonei-me pela amante e desprezava a esposa que era mulher correta, séria e fiel a mim. Deixei-a de lado, abandonei minha filha que ficou carente e com problemas psicológicos que até hoje eu não sei direito quais são. Consuelo sofreu tanto! Enquanto eu me deliciava com uma amante de corpo escultural, bonita, cheirosa, bem penteada, maquiada, sempre a minha espera e fogosa! Um dia minha esposa fez tanta pressão que eu confessei minha infidelidade e hoje estamos separados! A amante depois de um tempo me abandonou porque eu fiquei insuportável. Em consequência da minha ausência paternal minha filhinha linda está toda desajustada por causa da separação... Meu Deus! O que eu fiz? 

Nesse momento começou a chorar baixinho encolhendo-se como se quisesse desaparecer. Enxugou as lágrimas rapidamente e tentou recompor-se, enquanto ouvia as palavras amigas de Antônio Carlos... 

Antônio Carlos: _Dorival, o desespero não vai lhe ajudar agora, é preciso recompor-se emocionalmente e espiritualmente. Ainda há tempo para pedir perdão a sua esposa e voltar para sua filhinha que tanto precisa de ti. Tenha calma, nós vamos te ajudar na parte espiritual! Mas é preciso que você deseje se ajudar. Escute-me com atenção os casais têm problemas de toda ordem, são financeiros, são os dramas sexuais, as traições, o desemprego, a violência doméstica, a prole aumentada que compromete o orçamento do lar, etc.! Nada disso deve ser levado pelo caminho do desespero, mas sim pelo caminho da solução. Os problemas acontecem para que saibamos como resolve-los, ganhando com isso experiência de vida. O que não pode é permitir que os abusos tomem uma dimensão importante no matrimônio. A religião que reeduca e direciona para Deus é um caminho positivo e necessário dentro e fora do casamento. O respeito e o diálogo devem sempre acontecer, você me entende? 

Dorival: _Entendo sim. Mas mesmo se eu mudar radicalmente minha conduta acho que Consuelo não me quererá mais, está magoada, pois foram muitos anos de mentiras... Sabe amigo, eu deixei faltar conforto em casa para colocar na rua! Eu me envolvi com uma aventureira que de início me deu muito prazer... Aliás, todas elas! Mas destruí meu lar, minha família, acabei com a alegria da minha esposa, ofendi meus sogros, envergonhei meus pais, choquei meus amigos sinceros, fruto da minha união com Consuelo... Oh! Que desgraça eu fiz comigo mesmo! 

Antônio Carlos: _Calma mais uma vez, você deu um passo importante, veio procurar ajuda espiritual. Acredito que vai precisar ouvir palestras elucidativas, tomar o passe algumas vezes e, quem sabe, um tratamento desobsessivo! 

Dorival: _Desobsessivo? Eu? Mais por quê? 

Antônio Carlos: _Pois o irmão não sabe que procurando fora do casamento outras mulheres para o conluio sexual desregrado, acabou por atrair espíritos desencarnados e errantes para perto de si? Pode ser que o irmão tenha por companhia um infeliz que se identificou com sua conduta e pensamentos nesse mesmo padrão psíquico desequilibrado... não vou lhe dar certeza porque não sou médium e minha função aqui não é a de lhe afirmar o que lhe acontece, mas sim dar as primeiras orientações em nome de Jesus, mas pode ser que seja isso também. Por isso vou lhe encaminhar para entrevista com entidade espiritual amorosa em nosso templo, para que tudo seja visto e para que possamos melhor te ajudar, mas eu insisto! Se você, Dorival não quiser verdadeiramente se ajudar a mudança não ocorrerá, é preciso que você se mude por dentro me compreende? 

Dorival:_ Compreendo e agora que o irmão está falando estou me lembrando de uns pesadelos que andei tendo no passado. Umas mulheres horríveis me agarrando, correndo atrás de mim... Pareciam loucas. Eram corpos maravilhosos, mas elas tinham a face de monstros! Queriam me estuprar! Eu gritava e corria e assim acordava no meio da noite, ensopado de suor e com medo! Isso se repetiu por muitas noites. Isso pode ser obsessão espiritual? 

Antônio Carlos: _Os pesadelos são indício de que algo não vai bem com o nosso psiquismo. Mas disso eu entendo pouco. Vamos te encaminhar, ok? Tenha fé em Deus e comporte-se dentro do Evangelho de Jesus que aos poucos, de acordo com o seu esforço e merecimento, as coisas irão se ajeitar. Isso não é uma promessa, mas uma orientação, entendido, meu irmão? 

Dorival: _Sim! Eu tenho esperanças de voltar para minha esposa... Quem sabe ela me perdoe pelo que lhe fiz e me aceite no lar abençoado de volta? Sabe, eu tinha tudo para ser feliz, uma esposa amorosa, dedicada, boa mãe, uma filha que era saudável emocionalmente, sogros e amigos que me amavam e por causa do meu egoísmo e desajuste sexual pus tudo a perder! Não compensa mesmo esse tipo de aventura a gente vai descendo para o fundo do poço lentamente! Não percebia que o prazer sexual dessa forma é bom, mas tem um preço salgado e sabe o que mais? Não se paga! Depois que eu desgracei minha vida com álcool e mulheres, eu não sou o mesmo. Sinto que sou um fracassado e ninguém me empurrou para o buraco, eu fui sozinho!

Reflitamos!


Por: Letícia E. Gonçalves