13 de out de 2017

O Espiritismo e a Umbanda existem para desenvolver médiuns?


Buscador: Eu quero desenvolver minha mediunidade porque eu sei que tenho a capacidade de aprender mais e mais com as entidades e também porque Padilha e Tranca Ruas já me ajudaram muito e eu quero em troca ajudar as pessoas. Quero mostrar que a Umbanda é bonita e o terreiro é humilde. Quero colocar as pessoas no caminho certo! O que devo fazer?

Jefferson Viscardi: Há tanto que eu gostaria de falar a esse respeito, mas acredito que não é o momento. Nossos sentimentos ainda estão muito destreinados para olhar a realidade sem as cores, odores e sons fabulosos que nossa mente faz crer existirem ao ego. Se o fizesse, correria o risco de ativar gatilhos condicionados que em troca me valeriam mais indisposição de quem lê do que amizade. E essa deixaria de ser uma comunicação harmoniosa.

Nossa sociedade vive entoxicada de egoísmo, individualismo e hipocrisia. A hipnose é tão óbvia que, estando bem na nossa frente, não conseguimos ver o nosso nível de apego à personalidade. É o famoso elefante na sala! Eu disse “vive entoxicada” porque ser individualista e egoísta, agir com hipocrisia, faz parte do plano da vida em um planeta de provas e expiações, onde Deus nos impõe a encarnação nestes termos, sem dar qualquer chance, a qualquer um de nós, de agir diferentemente.

Você disse: “eu quero desenvolver minha mediunidade”. Pois bem, depois dessa caminhada de mais de 700 horas de diálogo com os espíritos, chegou à minha atenção, por meio dessas mesmas entidades tão amadas por todos nós, sólidas informações que podem desafiar nossa vaidade substancialmente. São divididas em duas partes. Primeira, mediunidade não se desenvolve. Segunda, Espiritismo e Umbanda não existem para desenvolver médiuns.

A mediunidade não se desenvolve porque é uma predisposição determinada para a sua encarnação.

Serve para que você cumpra o papel que lhe cabe nas obras da Criação. Quem é médium teve essa faculdade antecipada na sua programação de encarnação. O dogma da reencarnação é um pilar da doutrina espírita.

O médium, quando vai “desenvolver”, já sabe que existiu antes e que sua vida na carne está toda amparada pela espiritualidade. Quando chegar o seu momento, a pessoa sentirá, de alguma forma, a influência dos espíritos e será por eles próprios encaminhada a estar na hora certa, no lugar e com as pessoas e livros certos para compreender o que ocorre consigo.

O que acontece muito é que queremos pular o estágio de deixar o telefone tocar de lá parar cá! Queremos o que não temos e dispensamos o que temos, desvalorizando as dádivas do presente, desejando o que não temos.

Nós sequer nos preocupamos em agradecer o tempo e os recursos alocados em nosso favor parar curar urgentemente as nossas feridas abertas e ainda tão expostas. Como se em outro parque de diversões, aventuramo-nos a nos concentrar para incorporar quando não estamos sentindo nada.

No lugar de silenciar a mente e aguardar o comando da espiritualidade, lançamo-nos as mais incríveis bizarrices para o bendito espírito acoplar de uma vez. Não são raros os casos em que temos que ir fazendo o papel dos dois até ele decidir baixar, porque, afinal de contas, a personalidade tem sua agenda, não pode esperar o tempo de Deus e considerar que seu dom possa ser outro.

Agimos, assim, para satisfazer nossa vontade de ajudar, de retribuir e fazer o bem. Isso significa que nosso propósito é satisfazer uma agenda pessoal e ignoramos esse desejo convenientemente em favor do progresso em direção ao objeto de nosso querer: ser o médium desenvolvido que ajuda e faz o bem. Isso não é espiritismo ou Umbanda. Isso é o humano sendo humano ,vivendo suas provas e reprovando indiscriminadamente, repetidas vezes, com a maior indiferença!

O oposto disso é dizer: “Senti. Sei que sou médium. Estou aqui. Seja feita sua vontade! Se for levado a um terreiro, centro espírita, sanga, ilê, ótimo. Se não, ótimo igual! Deus é que sabe! Se incorporar, incorporou. Se não incorporar, não incorporou. Tanto faz.”

Qual o propósito da mediunidade? Tem o mesmo fim de que sua encarnação. É uma imposição com o fim de fazer o espírito chegar à perfeição. A alma quer conhecer a si própria, viver suas provas e expiações realizando, ao mesmo tempo, sua missão. Sua missão não é ajudar, gozar da companhia dos espíritos, nem salvar pessoas, retribuir favores, ser o messias, o mártir, a criança índigo ou cristal. É uma grande missão ser a prova e a expiação de quem quer que seja que vier a entrar em contato com sua existência, não concorda? É uma grande missão superar os ditames do apego à personalidade para com o que sua mente criar e seu ego acreditar ser favorável para seu benefício, não é?

Finalizando nossos estudos, vamos visitar estes dois pontos. Você disse: “Quero mostrar que a Umbanda é bonita e o terreiro é humilde. Quero colocar as pessoas no caminho certo!”. No fundo, não é isso que queremos. A vontade real é de nos servirmos das pessoas para satisfação egoísta, individualista e hipócrita. É exatamente isso que mais crucificamos nos sofredores que se manifestam: o vampirismo!

Não precisamos mostrar que o belo é belo; que nossa religião é bonita e humilde. Todo agrupamento espiritual emana o que representa a conduta real do conjunto de seus integrantes. No momento certo e se for o caminho daquele espírito de outro discernimento religioso, ele verá essa obra magnífica de Deus, que não passa de mais um caminho, e reconhecerá como belo, verdadeiro e útil. Se não for o caminho dele, não acontecerá! Nada poderemos fazer para mostrar, quando sequer vemos e vivemos aqueles princípios.

Essa resistência quanto a depender do outro existir em conformidade com nossas exigências, para estarmos em paz, é exatamente a prisão para cujo despertar nos convidam todas as religiões: o apego.

Quanto a colocar as pessoas no caminho certo, isso é impossível! Os próprios espíritos e os filósofos
já nos informaram que não existe caminho, e muito menos ‘caminho certo’. O mundo material é apenas fluido cósmico universal que nossa mente interpreta como verdadeiro e material, onde nada existe. 

O que existe é a prova para a reforma íntima, que consiste exatamente em ver a realidade como um espírito encarnado em viagem imaginária; o que existe é a expiação e a missão; a depuração na mudança de paradigma. Não existe um encarnado que vive onde a realidade acontece. Onde há consciência, há uma personalidade decodificando a ilusão com a qual seu espírito se encontra mentalmente hipnotizado, passando suas provas para a final desidentificação. Já ouviu falar de alguém que disse: “Eu venci o mundo”? Acredito que é por aí.

As nossas crescentes necessidades nos fizeram projetar no sagrado as paixões humanas. O tormento que isso causa é o inferno cujo fogo alimentamos diariamente com intencionalidades e apego. Vivemos de sistemas de crenças engatilhados perfeitamente para causarem as provas que por Deus nos foram confiadas para suportar e superar. Dói, mas, quanto antes aceitamos isso, antes deixamos de buscar ser o que nunca seremos: seres plenos, imortais e reais. Isso só nosso espírito liberto dos sete planos pode ser.

No lugar de treinar, cada dia, para reconhecer a ilusão das aparências e a efemeridade das paixões, circunscrevemos nossas investidas ao ambiente infantil do ser mimado e magoado que chora por atenção, rebelde que não quer amadurecer porque a verdade não tem graça e consiste em deixar morrer o que nunca existiu. No fundo, o que buscamos é mais festa, irresponsabilidade, satisfação. Entrega ou atenção plena correta são secundárias para nós, até quando o assunto é o sagrado, o eterno em nós.


Por: Jefferson Viscardi