17 de jun de 2017

Sou Exu - Poema de Jorge Amado


Não sou preto, branco ou vermelho.
Tenho as cores e formas que quiser.
Não sou diabo nem santo, sou exu!

Mando e desmando,
Traço e risco.
Faço e desfaço.
Estou e não vou.
Tiro e não dou.
Sou exu.

Passo e cruzo.
Trago, misturo e arrasto o pé.
Sou reboliço e alegria.
Rodo, tiro e boto.
Jogo e faço fé.
Sou nuvem, vento e poeira.

Quando quero, homem e mulher.
Sou das praias e da maré.
Ocupo todos os cantos.

Sou menino, avô, maluco até.
Sou das praias, e da maré.
Ocupo todos os cantos.

Sou menino, avô, maluco até.
Posso ser João, Maria ou José.
Sou o ponto do cruzamento.

Durmo acordado e ronco falando.
Corro, grito e pulo.
Faço filho assobiando.
Sou argamassa.

De sonho carne e areia.
Sou a gente sem bandeira,
O espeto, meu bastão.
O assento? O vento!..
Sou do mundo,nem do campo,
Nem da cidade.
Não tenho idade.

Recebo e respondo pelas pontas,
Pelos chifres da nação.
Sou exu.

Sou agito, vida, ação.
Sou os cornos da lua nova,
A barriga da rua cheia!…
Quer mais? Não dou,
Não tou mais aqui.