13 de jun de 2017

EXU na Umbanda o grande mistério. Um mistério? - PARTE II

Dando prosseguimento a esta nossa análise sobre a situação de EXU NA UMBANDA e desenvolvendo o raciocínio sobre os porquês de ESPÍRITOS (Eguns/Ntangis) terem sido apelidados de EXU, afianço que fica muito claro para quem estudou o passado dessas entidades aqui no Brasil e comparou ao que era o EXU DE VERDADE advindo dos cultos africanos.

Vejamos alguns detalhes:

Sobre o Exu africano.

Em princípio cada tribo ou grupamento tinha o seu, "plantado" em algum determinado local, cujos assentamentos (principalmente o material que era exposto aos olhos comuns), antes de mais nada serviam como totens(*) ou como carrancas(**) com a finalidade de
"aviso aos mal-intencionados" de que ali havia um guardião a ser respeitado e reverenciado e, portanto ... CUIDADO! Não se meta a besta que esse solo tem proteção.

Cada tribo criava então, fábulas sobre esses seus Exus dando-lhes qualificativos gerais e particulares de acordo com seus modos de entenderem e suas necessidades mais imediatas, ou seja, necessidades diretamente ligadas às suas vicissitudes (seqüência de fatos do dia a dia), o que fez entender, por interpretação posterior, que EXU seria uma espécie de semi-divindade qualificada para ser intermediária entre os homens e as verdadeiras divindades (Orixás) de cada tribo. Aquele que atendia às necessidades mais imediatas de cada ser, repetindo!

Como a MORAL(***) dos africanos de então era totalmente desligada da MORAL dos europeus que por lá aportaram e tanto divindades quanto "semi-divindades" respondiam de acordo com os comportamentos e crenças das diversas tribos (o que aliás era fato comum não só na África mas em todos as civilizações e culturas em que se criavam deuses, "todos sempre dispostos a atender e comandar os mortais de acordo com o que estes - OS CRIADORES E/OU SEUS INTERMEDIÁRIOS - achavam correto") e não de acordo com o que os europeus entendiam ser MORAL, entendeu-se então que não só Exu, mas principalmente este (ou estes) seria, antes de tudo um ser AMORAL, ou seja, o que os europeus compreendiam como SATÃ, que na verdade significa opositor, inimigo, até porque o próprio deus europeu seria então, "o venerável guardião da moral e dos bons costumes" segundo suas crenças, mas nem sempre atitudes.

Percebeu? Se o "MEU DEUS" preserva a moral (como a compreendo) e o "SEU DEUS" não (ou preserva outro tipo de moral), então o "SEU DEUS" é oposto ao meu e portanto é SATÃ. E por ser satã, automaticamente é diabo, título este que acabou se espalhando e até criando raízes oportunistas como já escrevi na primeira parte, entre os próprios africanos e seus descendentes já estabelecidos aqui.

Observe-se que para a cultura européia teoricamente "muito cristã" de então, qualquer divindade, de qualquer outro culto, automaticamente era compreendida como opositora de "SEU DEUS" e, portanto, não foram só Exus e Orixás africanos que foram assemelhados a Satã e ao Diabo por decorrência, mas sim todos os outros deuses de todas as outras culturas, só que nem sempre só pela oposição no quesito moral, mas também porque não eram admitidos outros deuses a não ser o, segundo eles, "único, onisciente, onipotente, criador de tudo e de todos" que inclusive, segundo a crença na ocasião em que os diversos livros foram compilados, pasme agora: "fazia o sol girar à volta da Terra"(sic). 

Vamos refletir? Será que "o único e verdadeiro DEUS" não sabia que isto não era verdade?

Mas voltando ao caso específico do Exu africano, ainda havia um qualificativo deste(s) que a hipocrisia de então não entenderia de forma alguma: era um ser ou divindade FÁLICA. Suas representações (totens) mostravam claramente o falo (membro sexual masculino), o que para os africanos simbolizava algo como um princípio de virilidade (também muito procurado nas culturas mais antigas porque a reprodução era fator imprescindível para a continuidade das espécies) e que para os europeus cristianizados ou pseudo-cristianizados era "significado claro de que satanás reinava entre eles".

E para não ser muito extenso, só pelo que foi destacado acima como "qualificativos do Exu africano" e mais as duas lendas (Itans) que foram destacadas na primeira parte desta matéria e mais o que se conhece sobre essas entidades "endiabradas" que começaram a aparecer ainda no meio dos cultos Bantus já aqui no Brasil, vamos às similaridades.

NOTA IMPORTANTE: Por enquanto, antes ainda de chamá-los de EXUS e para não confundir com o verdadeiro Exu, o africano, estarei tratando essas entidades/espíritos que começaram a baixar aqui no Brasil por EKURUNS, como aliás ainda são conhecidos por muitos.

  • Exu africano - toma lá dá cá (atua bem desde que receba suas oferendas a contento) - Ekuruns, IDEM;
  • Exu seria capaz de diversas artimanhas até contra aqueles que o cultuam se não fosse atendido em suas vontades - Ekuruns IDEM;
  • Exu seria convocado principalmente para resolver situações emergentes e ligadas ao dia a dia - Ekuruns, IDEM;
  • Exu seria convocado para resolver assuntos diversos ligados ao sexo - Ekuruns IDEM;
  • Exu seria um ser que não segue a moral européia basicamente oficializada no Brasil - Ekuruns IDEM;
  • Exu, por não seguir regras de conduta morais, segundo as oficializadas, é considerado AMORAL - Ekuruns, IDEM.
E quando se fala de conduta amoral, inclua-se aí o fato de Exu (e Ekuruns), bem ao estilo humano, ser capaz de entrar numa briga por alguém de quem goste (ou que lhe "alimente") a despeito dele estar certo ou errado em suas propostas - pura FIDELIDADE em princípio, mas condenada por todos os que julgam atos dos outros por suas crenças e enraizamentos morais particulares mas que nem sempre agem segundo elas.
E estranhamente criticada também por seres que usam "DEUS" especificamente no sentido de minorar seus problemas diários de todas as espécies, inclusive sociais e sexuais, visando enriquecimentos pessoais também.

Não estou defendendo a amoralidade dos Exus e nem dos Ekuruns, mas que é muito mais fácil se enxergar e se escandalizar com a amoralidade alheia do que com a própria, lá isto é, não é mesmo?

Pois é. Por tantas (estas citadas e muito mais) similaridades comportamentais, a maioria dos antes chamados Ekuruns (espíritos de diversas procedências) passaram a ser identificados como Exus e assim intitulados. E este título passou a ser tão usado que, pela "lei da repetição" os ESPÍRITOS Exus viraram, na atualidade, e para quem é mediador (intermediário) de ES-PÍ-RI-TOS e não de O-RI-XÁS, mensageiros para uns, divindades para outros e portanto, por extensão de entendimentos sobre DI-VIN-DA-DE, SERES DE LUZ(?).

E ainda mais: ignorando totalmente os qualificativos dos Exus de fato e direito - OS AFRICANOS - colocam viseiras e não querem entender que PARA SER INTITULADO EXU o Espírito tem que ter, pelo menos, TRAÇOS COMPORTAMENTAIS com o ORIGINAL.

Se não tiver, se for só "bonzinho", se não for amoral (às vistas do que se compreende como tal), se não mais "fizer das suas", se não atuar mais por trocas, se ao invés de ativar a sexualidade desvanecê-la, e, principalmente se tudo isto for verdade e não mais uma estratégia de Exu para criar seguidores crentes .... então, o Espírito NÃO É MAIS UM EXU e pode até aceitar que o chamemos assim, mas EXU mesmo ele não é mais.

Mas .... aconteceu também de no passado, muito antes da Umbanda existir no Brasil, junto com os Ekuruns Machos aparecerem Ekuruns Fêmeas baixando nas Macumbas que, por serem FÊMEAS, mesmo que em aspectos comportamentais se assemelhando aos Exus africanos, não puderam ser incluídas na titulação de EXU já que EXU sempre foi o ser criado para ser MACHO (lembra-se do falo representativo?). O que aconteceu então, em relação a esses Espíritos Fêmeas?

Observações:

* TOTEM - animal, planta ou objeto que serve como símbolo sagrado de um grupo social (clã, tribo) e é considerado como seu ancestral ou divindade protetora.
** CARRANCA - tipo de escultura com feições nem sempre humanas que se crê ter por finalidade "espantar maus espíritos".
*** MORAL - conjunto de valores, individuais ou coletivos, considerados como norteadores das relações sociais e da conduta dos homens.


Por: Cláudio Zeus