12 de jun de 2017

EXU na Umbanda o grande mistério. Um mistério? PARTE I

Vamos iniciar agora uma matéria sobre Exus na Umbanda que, desde o início já é bom avisar, que visa analisar esta Linha de Trabalho dentro de parâmetros racionais, sem as MITIFICAÇÕES bastante comuns em algumas literaturas o que, muito certamente, poderá parecer aos mais afoitos (principalmente aos exumaníacos) , por conceitos que serão expostos, que seria uma tentativa de menosprezar estes falangeiros em vista de tanto endeusamento que se alastra como "ensinamentos" nos dias de hoje e que são absorvidos como tal, principalmente pelos mais novos que chegam a entender (talvez até mesmo para "benefício próprio") que TODO EXU É UM ORIXÁ E PORTANTO QUASE UM DEUS.

É muito interessante como essa tal de tradição oral se torna tão benfazeja para muitos na medida em que permite "ajustes", "interpretações pessoais", "adequações interpretativas", moldagens de acordo com o que se entendeu ou pensou-se entender com decorrentes permissões para adaptações de "conceitos finais" que se tornam trampolins para novas teorias que logo se tornam "teses" e se alardeiam, de tão repetidas que são, como "sabedorias" e até "doutrinas teológicas" muitas vezes sem qualquer racionalidade.

Como se não bastasse a "tese(?)" do Exu-Orixá na Umbanda, mais recentemente tenho encontrado pessoas que falam até de "Orixá Exu-Mirim" e nem vou mais me assombrar, em vista dos fatos, se começar a escutar ou ler sobre "Orixá Pomba Gira", "Orixá Malandro" e possivelmente outros tantos que possam vir a aparecer em função da DIVINIZAÇÃO (que já batizei de EXUMANIA [clique no link] que ocorre em função da EXULATRIA*) de Espíritos que adentraram à Umbanda como AUXILIARES para que aprendessem com os mais evoluídos novos caminhos e formas de trabalho, desligados, desta feita, das barganhas e interesses pessoais indiscriminados (lembre-se de que estou escrevendo sobre UMBANDA DE FATO) conforme lhes era natural nos Canjerês, Quimbandas, etc.

Mas que mistério é este que está se criando em relação aos Espíritos Exus que vieram das Quimbandas e Canjerês pra trabalharem nas Umbandas?

Por que, de uns tempos pra cá, resolveram DIVINIZAR os Espíritos aos quais se dá a alcunha (APELIDO) de Exus (que já foram e ainda são simplesmente EKURUNS**), que desde há muito tempo foram migrando para a Umbanda como AUXILIARES/APRENDIZES de grande valor dos Pretos Velhos e Caboclos, e até Crianças que já estavam dentro da Lei?

Que novidade é esta de que os Exus de Umbanda são Orixás? E se fossem mesmo, Espíritos Humanos que são em maioria nas falanges, porque também não seriam ORIXÁS os Caboclos, Pretos Velhos, Crianças, Baianos, Boiadeiros, Mineiros...? Por que só aos APELIDADOS de Exus estão dando status de Orixá de uns tempos para cá, buscando confundí-los com os Exus dos cultos de Nação afro-brasileira?

E como já está se tornando comum chamarem-se as Crianças de Umbanda de ERÊS (sem qualquer conhecimento de causa, mas por simples VICÍO DE LINGUAGEM), também não será nada difícil que daqui pra frente comecem a instituir o ERÊ-ORIXÁ, não é mesmo? Por que não? E, possivelmente também, mais pra frente ouviremos até sobre os Xirês dos novos orixás criados pelas "umbandas". Por que não, também?

Mas vamos a uma afirmação de base aqui, para que, na seqüência, possamos nos nortear a partir de uma base sólida.

SÓ EXISTE EXU DE VERDADE (seja ele um intermediário, seja um "orixá") A SER REVERENCIADO, NOS CULTOS AFRICANOS DE ORIGEM YORUBÁ (Nagô), mais especificamente na Tradição Ketu. Em cultos de outras raízes a palavra EXU serve apenas para SINCRETIZAR seus intermediários (como também fazem com os voduns e Inkices em relação aos Orixás) com o Exu Ketu, numa forma claríssima de FACILITAR O RECONHECIMENTO DE PROPRIEDADES desses elementais para o público não iniciado ou os profanos, como poderíamos chamar, pelo fato da palavra EXU e seus qualificativos terem sido muito mais difundidos no meio "Candomblecista" e de uma forma geral para o público. Desta forma, entidades como Mavambos, Pambu Injilas, Aluvaiás, Elegbarás, de acordo com a raíz afro, acabaram, aqui no Brasil, sendo chamadas também de Exus.

Dentre os muitos tipos de umbandas (nem todas Umbandas DE FATO E DIREITO) que encontramos por aí, podemos observar que existe uma ala das Umbandas Africanizadas, popularmente chamadas de UMBANDOMBLÉS, que, julgando estarem apoiadas em raízes africanas para montarem seus conceitos sobre Orixás, seus fundamentos práticas e rituais, entendem também que a palavra EXU tem, na Umbanda (em seu todo), a mesma conotação da palavra Exu para os Cultos de Nação Ketu.

Vamos analisar os FATOS ainda antes dos escravos aportarem no Brasil (e até depois em alguns casos) para que possamos desvendar mais esse tal "Mistério Exu" ora tão propalado?

Pelo que consta, muito bem esplanado por Pierre Verger em seu livro "Os Orixás", sabemos, em linhas gerais, que lá na mãe África nunca houve o que aqui chamamos de Candomblé (palavra que na realidade significa apenas reunião e festa para as divindades, sendo de origem Bantu) e que cada aldeia, cada cidade, cada tribo tinha sua própria divindade a ser cultuada; sabemos também que numa determinada tribo, TODOS ERAM CONSIDERADOS protegidos, afilhados, seguidores e até eleguns (os que são tomados) DE UMA SÓ DIVINDADE - a que era cultuada por aquela aldeia específica - não havendo "filhos" de outras divindades numa mesma aldeia.

Não havendo "filhos" de outras divindades cognominadas "orixás", "inkices", "voduns" numa mesma aldeia, também não seria possível, na África, o que foi criado aqui no Brasil como o XIRÊ DE ORIXÁS, que é, nos "Candomblés", uma ordem de chamada e entrada dos orixás para que cada um dance e seja louvado.

Percebe? Se em Oyó, por exemplo, o "santo" era só Xangô, como poderiam fazer lá uma roda de Candomblé com a presença de Oxuns, Yemanjás, Oguns, etc, se até hoje, como se sabe e já foi exposto aqui neste Blog, Oxum, cultuada na região de Ijexá, é uma solene desconhecida na região de Egbá, local em que o culto se dirige a Yemanjá, acontecendo o mesmo para outras diversas tribos e suas divindades (orixás)?

Exu (a verdadeira entidade africana que recebia esta denominação) era considera-do como uma

entidade ou "divindade" intermediária entre os humanos e suas divindades (orixás) principais e era assentado (firmado) no chão e não nas cabeças de quaisquer eleguns, como até hoje também não é nos cultos de raiz Yorubá/Ketu ou Ketu/Nagô (exatamente os que usavam e usam o termo Exu para designar este intermediário) aqui mesmo no Brasil, até onde se sabe. Em outras palavras, NÃO SE INICIAM FILHOS PARA EXU exatamente nas tradições onde este nome - EXU - foi criado para esses mensageiros.

O Exu Yorubá, possuia (e possui), contado por seus próprios crentes, algumas qualidades comportamentais bem "interessantes", digamos assim, "divindade mensageira" que era e por isto mesmo, tão mais ligado à materialidade da vida dos humanos que a ele recorriam tentando agradá-lo para que seus pedidos à verdadeira divindade (orixá da tribo) pudessem ser levados sem os tropeços ou artimanhas que Exu sempre soube tão bem engendrar quando não se via satisfeito com qualquer coisa.

Para melhor explicar aos seguidores do culto sobre o temperamento do Exu africano existem diversas Lendas dentre as quais vou destacar algumas para que se veja o quanto de "humanidade", principalmente nas artimanhas, existia (e existe) nesta figura tão debatida e tão pouco compreendida.

PRIMEIRA LENDA.

"Exu sempre foi ranzinza e encrenqueiro, adorava provocar confusões e fazia brincadeiras que deixavam a todos confusos e irritados. Certa manhã acordou desalentado, afinal quem era ele? Não fazia nada, não tinha poder algum, perambulava pelo mundo sem ter qualquer motivação. Isso não estava correto. Todos os orixás trabalhavam muito e tinham seus campos de atuação bem definidos e para ele nada fora reservado. Essa injustiça ele não iria tolerar. Arrumou um pequeno alforje e colocou o pé no mundo. Iria até o Orun exigir explicações. Depois de muito andar, finalmente chegou ao palácio de Olorun. Tudo fechado. Dirigiu-se aos guardas do portão e exigiu uma audiência com o soberano. Eles riram muito.

Quem era aquele infeliz para vir ali e exigir qualquer coisa?

Exu ficou enfurecido nem os guardas daquela porcaria de palácio o respeitavam. Passou então a gritar impropérios contra o grande criador. Imediatamente foi preso e jogado em uma cela onde ficou imaginando como sair daquela situação. Já estava arrependido de ter vindo, mas não daria o braço a torcer. Iniciou novamente a gritaria e tanto barulho fez que Olorun decidiu falar com ele.

Exu explicou o que o trazia ali, falou da injustiça que se achava vitima e exigiu uma compensação. Pacientemente o pai da criação explicou que todos os orixás eram sérios e compenetrados, mas que ele, Exu, só queria saber de confusões e brincadeiras. Então como ousava tentar se igualar aos companheiros? Que fosse embora e não o aborrecesse mais.

Era assim? Não prestava para nada? Era guerra? Resolveu fazer o que mais sabia: Comer!

Todos sabiam de sua fome incontrolável desde o nascimento. Desceu do Orun e começou a atacar os reinos dos orixás.

Comeu as matas de Oxóssi. Bebeu os rios de Oxum. Palitou os dentes com os raios de Xangô. O mar de Iemanjá era muito grande e ele foi bebendo aos poucos. A terra tornou-se árida e prestes a acabar. Por conta disso todos os orixás correram ao palácio em completo desespero. Exu imediatamente foi preso e arrastado novamente até o Orun, desta vez, porém, sentia-se vitorioso. Exigiu ser tratado com respeito e assumir um lugar no panteão divino. Se assim não fosse, nada devolveria e comeria o restante do mundo.

Foi feita então uma reunião para se resolver o grande problema. Olorun não poderia julgar sozinho e todos que ali estavam tinham muito a perder.

Depois de muita discussão chegaram a um consenso. Exu seria o mensageiro de todos eles, o contato terreno entre os homens e os deuses. Ele gostou, mas ainda perguntou:

- E vou morrer de fome?

Nova discussão. Decidiram então que todos os orixás que recebessem oferendas entregariam uma parte a ele. Exu saiu satisfeito, agora sim tinha a importância que merecia, desceu cantarolando e devolvendo pelo caminho tudo que tinha comido e a paz voltou a terra, mas ficou o recado: Com Exu ninguém pode!"

Fonte: LENDA DE EXU (clique no link)

Como se pode perceber pela interação entre divindades citadas no texto, fica claro que esta lenda (Itan) foi criada aqui mesmo no Brasil, não sendo, portanto, uma real descrição do que era cultuado como Exu na África. No entanto, pode-se perceber o posto de Exu como MENSAGEIRO das outras divindades.

Vamos a uma outra.

"Certa vez, dois amigos de infância, que jamais discutiam, esqueceram-se, numa segunda-feira, de fazer-lhe as oferendas devidas.

Foram para o campo trabalhar, cada um na sua roça. As terras eram vizinhas, separadas apenas por um estreito canteiro. Exu, zangado pela negligência dos dois amigos, decidiu preparar-lhes um golpe à sua maneira.

Ele colocou sobre a cabeça um boné pontudo que era branco do lado direito e vermelho do lado esquerdo. Depois, seguiu o canteiro, chegando à altura dos dois trabalhadores amigos e, muito educadamente, cumprimentou-os:

- "Bom trabalho, meus amigos!"

Estes, gentilmente, responderam-lhe:

- "Bom passeio, nobre estrangeiro!"

Assim que Exu afastou-se, o homem que trabalhava no campo à direita, falou para o seu companheiro:

- "Quem pode ser este personagem de boné branco?"


- "Seu chapéu era vermelho", respondeu o homem do campo à esquerda.


- "Não, ele era branco, de um branco alabastro, o mais belo branco que existe!"

- "Ele era vermelho, um vermelho escarlate, de fulgor insustentável!"

- "Ele era branco, tratas-me de mentiroso?"

- "Ele era vermelho, ou pensas que sou cego?"

Cada um dos amigos tinha razão e estava furioso da desconfiança do outro.

Irritados, eles agarraram-se e começaram a bater-se até matarem-se a golpes de enxada.

Exu estava vingado!

Isto não teria acontecido se as oferendas a Exu não tivessem sido negligenciadas."


Fonte: Do livro Lendas Africanas dos Orixás) Pierre Fatumbi Verger/Caribé - Editora Corrupio

Esta é uma outra lenda que pretende ensinar aos seguidores do culto o quanto o Exu africano pode ser ranzinza e o quanto pode engendrar de artimanhas para se vingar daqueles que o contrariam e o quanto age segundo suas próprias "leis".

Em resumo, ambos os itans trazidos demonstram bem o quão AMORAL (não é IMORAL, vejam bem) o Exu africano pode ser, dependendo do que pretenda alcançar.

Por esta amoralidade natural deste ser "divinizado", além de suas outras claras ligações com a
sexualidade, sendo tanto o Ogó (aquele bastão de forma fálica que dizem trazer na mão) quanto os elementos também fálicos que são colocados em seus assentamentos, claras alusões a esta sexualidade, o Exu africano foi logo sincretizado com o tal demônio da ICAR desde muito cedo.

Fixando-nos agora aqui no Brasil desde o "princípio do fim da escravatura" e mais precisamente aqui no Estado do Rio, berço da UMBANDA, veremos, ao consultarmos João do Rio em "As Religiões do Rio" [clique no link], que antes dela aparecer, já existiam vários e vários cultos e práticas africanistas eivadas de apêndices buscados e misturados de outros cultos, inclusive com rezas e trechos de livros como a Bíblia e o Alcorão, além das práticas "mágícas", divinatórias e iniciáticas a seus modos e, segundo os "sacerdotes" de então, "conhecimentos trazidos da África".

Nesses cultos, já em 1904, Exu - o que hoje é tido como "orixá" - já era sincretizado e aceito pelos próprios sacerdotes das "Macumbas Cariocas" como "o diabo" e sob este mesmo sincretismo se ufanavam os que o tinham em culto, com claros fins de se tornarem pessoas "respeitáveis pelo poder" que teriam. Afinal, para os leigos e a maior parte dos iniciandos (Abians/ Ntanjis) "eles teriam o próprio demônio aos seus dispores".

Eta "poder", não?

Não entre os de cultura Yorubá, mas entre os Bantus mais especificamente, começaram a se apresentar Espíritos (Eguns/Kilenjis) de índios principalmente, que a princípio foram tidos como ancestrais aqui da terrinha e também outras entidades meio que "endiabradas" que, posteriormente, pela semelhança comportamental com o Exu Nagô (mas também com seus Mavambos, Pambu Injilas, etc.) e a partir do momento em que os próprios Bantus passaram a se utilizar de terminologias Nagôs para identificarem suas "divindades", foram APELIDADAS DE EXUS.

E por que, mais detalhadamente, esses Espíritos foram chamados (apelidados) de Exus sem serem ORIXÁS e sim ES-PI-RI-TOS?

OBSERVAÇÕES
  1. EXULATRIA = excesso de admiração pelos Exus; idolatria aos Exus.
  2. EKURUNS = assim eram chamados espíritos que se julgavam "morarem" nas matas, rios, cachoeiras, encruzilhadas, pelos de descendência bantu, antes ainda que fossem reconhecidos como grupos de Espíritos humanos e/ou elementais, sem qualquer conotação com o que seriam Orixás, Inkices(MIkice) ou Voduns.


Por: Claudio Zeus