20 de abr de 2017

Médium da coroa grande: será mesmo?

Está na hora de começarmos a questionar certos hábitos comuns a muitos terreiros de Umbanda. Um deles é o de estimular a vaidade dos médiuns novos e inexperientes. Como se faz isso? É simples! Logo ao entrar no terreiro o novo médium, ainda na condição de consulente, passa com um guia incorporado e já ouve frases do tipo: filho, você tem muita luz! tem uma grande cobertura astral! seu caboclo é um cacique do peito de aço! seu preto velho é um sacerdote chefe! seu exú é poderoso e perigoso! A sua coroa mediúnica é grande e você tem entidades das sete linhas! Você, irmão ou irmã de fé, já passou por isso? Então continue lendo as próximas linhas…


É verdade que existem hierarquias espirituais e que há entidades de muita luz trabalhando na Umbanda. Na nossa doutrina acreditamos na existência de 3 níveis de guias espirituais: protetores, guias e orixás intermediários. Os protetores estão mais próximos de nós e trabalham com médiuns de karma probatório. Os guias já se encontram em um plano mais elevado e trabalham com médiuns de karma evolutivo. Os orixás intermediários são espíritos extremamente elevados e preferem outras formas de manifestação além da incorporação, buscando atingir um número maior de pessoas pois são responsáveis por grandes coletividades. Os orixás intermediários atuam em médiuns de karma missionário.

No entanto, esses espíritos quando se manifestam de verdade em bons médiuns nunca vêm dizendo que são os maiorais e que são grandes chefes. Os pretos velhos e pretas velhas são sempre humildes, mansos, serenos. Seria muita contradição pregar a humildade e se vangloriar de seu grau hierárquico. Se quisessem ser orgulhosos, não se chamariam Pai Congo, Vovó Catarina etc. Eles diriam: sou o comandante da sétima esfera estelar, sou o rei do Egito, sou Moisés etc. Portanto, você que tem a tarefa mediúnica, acautele-se para não se deixar levar por estórias de pessoas perturbadas que querem lhe envolver em seus devaneios e sonhos de grandeza.

Os caboclos seguem a mesma toada dos pretos velhos. Para que usariam grandes cocares se por escolha própria vieram trabalhar na Umbanda na forma de índios? O caboclo é símbolo de simplicidade, assim como o preto velho é de humildade e a criança é símbolo de pureza. Simplesmente não faz sentido agir de maneira oposta ao fundamento de seu trabalho. Um guia de verdade não vai se gabar de seus poderes ou conhecimentos. Uma entidade de luz não precisa de nenhum tipo de reconhecimento. Ela já tem tudo o que precisa que são suas ordens e direitos de trabalho.

Já os médiuns são seres humanos que lutam com suas fraquezas e dificuldades, buscando a evolução e a libertação espiritual. É natural que queiram se sentir importantes e ter um guia chefe na sua coroa é uma verdadeira massagem no ego. Mas para tudo existe um preço. Vejamos o que se paga a seguir.

Deve haver uma sintonia entre o médium e a entidade que lhe assiste. Quanto mais elevada é a entidade, mais elevado dever ser também o médium para suportar a conexão espiritual. Os médiuns de karma probatório têm a cobertura dos protetores de Umbanda. Eles também são entidades de luz, como qualquer guia de Umbanda, mas trazem com eles as tarefas que seu médium é capaz de dar conta. Ser médium de karma probatório significa atender as pessoas na caridade, ter a oportunidade de resgatar karmas negativos do passado por meio do serviço mediúnico e ter o apoio de seus guias para resolver seus próprios conflitos pessoais, familiares, financeiros etc. Esse médium dedica uma parte de sua vida ao trabalho espiritual e aproveita as bençãos do mundo espiritual.

Os médiuns de entidades no grau de guia estão em geral no nível de karma evolutivo. Já possuem um conhecimento maior da espiritualidade, estudam sempre e dedicam grande parte de sua vida ao compromisso espiritual que assumiram antes de encarnar. As amenidades da vida prosaica não lhes atraem mais e, por isso, têm pouco tempo para festas e diversões. Sua tarefa mediúnica os coloca na posição de orientadores, podendo ser dirigentes de terreiros ou não. Como estão na condição de instrutores, chamam para si a responsabilidade de conduzir o caminho de grupos de médiuns e utilizam boa parte de seu tempo cuidando dos outros.

No plano mais elevado estão os médiuns de karma missionário. Eles são “aparelhos” de entidades no grau de Orixás intermediários. Como tal, devem ter já superado os dilemas da vida cotidiana e a maior parte dos conflitos internos. Isso significa que mesmo na pobreza são capazes de manter a serenidade e o bom ânimo. Dedicam quase toda a vida a servir ao próximo, orientando, cuidando, aconselhando e, principalmente, servindo de exemplo de humildade, sabedoria, simplicidade e compaixão. A caridade é o bem mais elevado que possuem. Têm pouco ou nenhum tempo para questões familiares. Não buscam lazer porque o contato espiritual é seu alimento e estão em função disso 24 horas por dia. Apesar de todos os benefícios que geram incessantemente aos outros, com freqüência são incompreendidos e não se importam de serem sacrificados, desde que cumpram a missão que lhes foi confiada pelo Astral Superior. Seu campo de ação espiritual afeta milhares ou milhões de pessoas. Chico Xavier é um grande exemplo de médium missionário. Matta e Silva, apesar da grande repercussão de seu trabalho, se considerava um iniciado de nível médio…

Então, irmãos, podemos ver que a coroa grande vem também com uma grande responsabilidade e muito pouco tempo para o desfrute do mundo. Usem o bem senso e verifiquem se o médium que diz ser veículo de entidades altamente elevadas é também, ele mesmo, elevado e desapegado das coisas materiais. Não se deixem influenciar por ilusões de grandeza e poder. O caminho espiritual é árduo e a recompensa é se tornar cada vez mais humilde. Quem quer ser o maior de todos, seja o servidor de todos; já dizia Nosso Senhor, o Cristo Jesus.