24 de mar de 2017

Libertação

PERGUNTA: - É de suma importância a libertação dos apelos sensórios para a plena exaltação do eu superior. Estamos tão distantes desse ideal que ficamos desanimados. Agrava-se nosso estado de ânimo e causa-nos dúvidas a afirmação de certos espiritualistas de que os espíritos já libertos do ciclo carnal não apresentam mais desejos. É isso mesmo? 

RAMATÍS: - Enquanto não compreenderdes a natureza dos desejos, sereis constantemente arrastados por um terremoto de atrações, limitando a vontade (e os desejos) às percepções prazerosas que só serão saciadas pelas sensações e emoções dos veículos inferiores da consciência (os corpos astral e físico).


O primeiro passo para o início de vossa libertação é entenderdes vossa natureza interior que precede e impulsiona os atos volitivos mentais. A partir de então, gradativamente ir"cortando", por uma mudança gradual das atitudes, as conexões com os objetos e situações de prazer. Contudo, isso não deve vos levar a desprezar os prazeres da vida em falsas posturas "santas".

As dificuldades se instalam quando vos deixais ser escravos das sensações dos cinco sentidos físicos. Observai que os homens temerosos de ser apanhados nas redes dos prazeres mundanos, notadamente certos dirigentes e médiuns espiritualistas, são os que enxergam os defeitos dos outros com facilidade: repelem as prostitutas dos templos, açoitam os fumantes, desprezam arrogantemente os carnívoros, são mordazes com os vegetarianos, enxotam ironizando os alcoólatras, vilipendiam os homossexuais, escarnecem dos espíritos negros e índios, colocando-se distantes e isolados desses seres "impuros" em suas concepções. No fundo, são austeros porque temem entregar-se a condutas "pecaminosas" pelo possível descontrole que os levaria ao desregramento.

Consciências infelizes, inseguras, não interiorizaram as reformas íntimas necessárias, sem os sofrimentos auto-impostos por aparências irreais, em desacordo com a realidade do espírito imortal. São invariavelmente preocupadas com as aparências e as opiniões que poderão suscitar nos seus prosélitos. Esses entes se tornam chefes de família que tiranizam os filhos e desconfiam da sombra das esposas, porque temem ser alvos do que eles mesmos são capazes de realizar.

Nessa moral distorcida, transferem para os espíritos do "lado de cá" todos os seus recalques dentro do mediunismo, só permitindo manifestações de mentores e guias brancos, repletos de luz, e Deus os livre dos desatinos nos umbrais inferiores! Gelam de temor só de mencionar essas zonas vibratórias. Assim nascem os espiritualistas sectários, dogmáticos, que pedem aos mentores que os livrem dos espíritos imorais. Lembram o ébrio que não venceu a bebida, só pelo fato de encontrar-se distante dos bebedores.

Não superareis vossas disposições mais profundas apontando defeitos alheios. As coisas que apelam
aos exageros carnais e sensórios, que regurgitam do inconsciente milenar, estarão completamente superadas quando conviverdes em harmonia com os contrários que repelis peremptoriamente, andando entre os fracos do mundo sem julgamentos belicosos que os enviem para a guilhotina e a prisão perpétua dos preconceitos temporais, religiosos e doutrinários existentes na Terra.

O afastamento inicial do viciado mental-emocional cio objeto de sua atração prazerosa se impõe para o fortalecimento da alma enfermiça. Mas a vitória definitiva ocorrerá quando esse ente passar pela virulência das enfermidades morais sem contaminações, assim como fazia o divino Mestre Jesus no meio do povo adoentado.

Essas exigências da balança cármica, justas para promover o equilíbrio, conforme as leis de causalidade que regem a harmonia do Cosmo, são atemporais. O alcoolista de outrora reencarna com pais bebedores, o espírita renasce em família umbandista, o carnívoro radical vem em núcleo sanguíneo de proprietários de restaurante vegetariano, o radical propagador do vegetarianismo que se considera eleito desperta em meio à parentela carnívora de fazendeiros dos pampas, o cáften tem como mãe antiga prostituta explorada, o doutrinador que costumeiramente rebatia para longe espíritos de pretos velhos e caboclos nas mesas mediúnicas se vê filho de pais negros praticantes do candomblé. A junção dos iguais psíquicos que se repelem cria as necessárias situações adversas na carne, ensejando a paciência e a união das almas entre si. A sabedoria divina não determina um único caminho ou verdade, mas a cada um dá a exposição às "doenças" da alma até a sua cura perene, pela imposição do ciclo reencarnatório.

Os benfeitores do Espaço não têm mais desejo como o compreendeis, e sim vontade, que não necessita das sensações e gozos dos veículos inferiores para sua satisfação. É a vontade que acompanha os espíritos superiores: vontade de auxiliar o próximo, demonstrar e difundir o amor, instruir, socorrer, espraiar fraternidade, exemplificar humildade, paciência, tolerância, altruísmo, solidariedade... Ao contrário do que muitos pensam, as esferas crísticas não são habitadas por seres em eterno êxtase contemplativo que os anestesia enquanto individualidades. A unidade com o Criador sublima os desejos das almas, não os aniquila, tornando os anseios individuais aspectos da Divindade, transformando os seres em co-criadores universais.


Por: Ramatís/Norberto Peixoto - do livro: Vozes de Aruanda, Editora do Conhecimento