29 de mar de 2017

A paralisia da preguiça

A preguiça é uma matriz psicológica e está relacionada à paralisia de sentimentos no sistema que, por sua vez, agem como um dique, uma barreira que impede a circulação da energia no corpo do indivíduo. Com o tempo, esse bloqueio do sistema energético começa a provocar somatizações e desequilíbrios que chegam ao corpo físico. Às vezes, é possível tratar diretamente o corpo energético, desbloqueando-o para a energia poder fluir, mas em outros casos, o
desequilíbrio já se instalou no corpo físico e precisa ser tratado de fora para dentro, com uso de medicamentos, por exemplo.

Ao provocar essa paralisia no sistema, a preguiça impede a ação – a ação como uma resposta para os estímulos da vida e que possibilita o desenvolvimento da consciência. Ao se manifestar como uma paralisia completa, a pessoa, muitas vezes, não tem vontade sequer de sair da cama. Em outros casos, o indivíduo tem um tremendo talento, uma capacidade genial, mas não consegue colocar isso em movimento. Pode acontecer ainda de, tomada pela preguiça, a pessoa fazer muitas coisas, de forma compulsiva, menos o que precisa realmente realizar. Nesse caso, tudo o que ela faz é apenas uma reação para fugir da ação, porque a ação, inevitavelmente, fará com que a pessoa toque no ponto sentimental parado que, por sua vez, está parado por conta de sentimentos suprimidos difíceis de lidar.

Eu sinto que é muito importante compreender a diferença entre ação e reação, assim como ação e atividade compulsiva. A ação nasce da presença e é uma resposta natural a uma solicitação da vida. Quando você tem fome, você come; quando tem sono, você dorme. Já a reação nasce do passado e de uma mente inquieta. Você faz, faz, faz porque não dá conta de ficar consigo mesmo. É uma forma de amortecer e anestesiar a inquietação interior. Então você come sem estar com fome e fica acordado mesmo querendo dormir.

Uma pessoa nesse estado não consegue relaxar porque está borbulhando por dentro, quer seja no modo da paralisia, quer seja no modo da atividade compulsiva, já que ambas são reações. Na ação a pessoa está relaxada, está à vontade. Ela requer um mínimo de energia ou esforço para realizar as coisas, enquanto que na reação precisa de toda a energia disponível e, muitas vezes, não consegue fazer aquilo que se dispõe a fazer.

Recordo-me de uma pessoa que, certa vez, estava se predispondo a terminar uma tese de doutorado e já tinha tudo elaborado na mente. O que ela precisava fazer era sentar na frente do computador e escrever. Ao longo do dia, essa pessoa conseguia fazer muitas coisas, menos sentar na frente do computador para escrever. Ao prorrogar o que a vida pedia que ela fizesse se ocupando de outros afazeres, provavelmente nascidos de reações, essa pessoa estava fugindo do contato com um núcleo de sentimentos negados dentro de si que a paralisavam diante do que ela realmente precisava fazer. Em outras palavras, era como se ela deixasse um quarto trancado dentro de sua casa, acumulando sujeira, sem abrir a janela para deixar o sol entrar.

Dentro da esfera da busca espiritual essa paralisia pode acontecer a partir da distorção do atributo divino da serenidade, por exemplo. A entidade em desenvolvimento, em dado momento da jornada, vai experienciar um certo grau de desapego e renúncia que faz com que ela se relacione menos com o mundo. Entretanto, muitas fantasiam esse grau de serenidade e acabam se iludindo. Acreditam estar desapegados, mas se encontram reagindo perante a vida, tomando atitudes a partir do passado, para fugir de algo, já que o verdadeiro estado de serenidade está em harmonia com o fluxo da vida e o fluxo da vida se move em direção à saúde, construção e união. Então, há que se ter disposição para entrar em contato com esses sentimentos negados que estão gerando qualquer tipo de paralisia no sistema, seja ela em menor ou maior grau, de maneira mais ou menos sutil.

Para sair desse lugar você precisa ter coragem de estar consigo mesmo e encarar seus sentimentos. Tem que estar disposto a sentir, porque se você não é capaz de sentir tristeza ou ódio, também não é capaz de sentir amor ou prazer, já que o canal do sentir é o mesmo. Se você evita sentir o ruim, também não pode sentir o bom, pode apenas fantasiar que sente as coisas, mas ainda é um processo mental.

Você precisa evocar a visão daquilo que está te paralisando, usando sua vontade consciente para dizer: “Eu quero ver, eu me comprometo a ver isso que está escondido em mim, por mais que fira minha vaidade. O que está me paralisando? Que venha para a superfície”. Você precisa dar esse sinal para a vida, porque uma das leis soberanas desse plano é o livre arbítrio e as hierarquias divinas não podem te forçar a absolutamente nada, só podem te ajudar e dar suporte se você fizer a sua parte e dar o sinal verde. O que é que te paralisa ou gera essa inquietação tão grande? O que gera essa ansiedade, essa agitação, essa expectativa? Você está querendo provar o que, para quem? Está querendo agradar a quem? Por quê? Pra quê?

O ser humano se desenvolve através do conhecimento e da prática. O conhecimento a que me refiro é o autoconhecimento, que te ajuda a entender como é que você funciona. Todas as respostas estão aí dentro, basta mergulhar e dirigir sua atenção de forma intencional identificando o ponto a ser observado e destrinchado. Quando notar um sintoma, que é a paralisação, o fazer compulsivo ou a agitação interna, pare e pergunte: “estou fugindo de que? Eu quero ver”. Nesse momento, há que se ter cuidado com um truque da mente, que diz ao buscador que ele já está se observando, mas na verdade, continua apenas reagindo e sendo canal de repetições negativas. Em outras palavras, ele está se perdendo no autoengano.

Já a prática significa estar cada vez mais presente no aqui agora. Estar cada vez mais à vontade e espontâneo, agindo e não reagindo. Essa é a essência de toda prática espiritual, e se ela não estiver te conduzindo nessa direção, talvez não seja tão espiritual assim – é alguma outra coisa disfarçada de espiritualidade.

Em resumo, a preguiça age como um mecanismo de defesa para proteger o ser humano da naturalidade que ele perdeu e que hoje o assusta. Freud era um gênio e já dizia que a repressão é o principal veneno do ser humano. Quando não pode ser natural, quando não pode ser quem é, a pessoa se perde nos labirintos da mente tentando ser qualquer outra coisa que não ela mesma. E é isso o que causa todos os sentimentos de dor que estão nos paralisando e nos negamos a ver.

Então, vamos seguir nos aprofundando no conhecimento e na prática. Não importa se a prática é cantar, dançar ou fazer um japa mala, importa se ela está te levando para esse relaxamento interno. Esse estado profundo de aceitação e de observação. À medida que você realmente se desenvolve na prática, você observa tudo que se passa e não se perde. Mas, lembre-se: para se desenvolver na prática, tem que se aprofundar no conhecimento. E você se aprofunda no conhecimento olhando para o lugar em que está parado. É assim que você vai desvendando a si mesmo. É assim que você vai desvendando o amor.


Por: Sri Prem Baba