31 de jan de 2017

Qual o significado de um ebó (ẹbọ)?

Nota:
Antes de você partir para a leitura do texto propriamente dito é necessário que façamos algumas observações.
O texto abaixo foi escrito para o Candomblé e seus praticantes e adeptos. Isso não invalida as informações contidas nele para práticas Umbandistas, ainda que sejam religiões diferentes com princípios diferentes.

O princípio energético das oferendas e as explicações sobre o porque de realizarmos as mesmas são universais e são de grande valia para o aprendizado dos umbandistas.

Além dessas observações, gostaria de fazer uma observação específica em relação ao Cantinho de Francisco de Assis. Em nossa casa não fazemos os sacrifícios de animais por vários motivos e princípios, dentre eles por sermos uma casa franciscana. Ainda sim não desrespeitamos aquelas que o fazem, seja por qual motivo for.

Boa leitura a todos!

Paz e bem!

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Quem lida com o contexto afro-brasileiro já deve ter ouvido inúmeras vezes o termo ebó (ẹbọ).

O termo ebó (ẹbọ), é bem genérico e acaba sendo usado no dia a dia em vários sentidos, alguns deles bem pitorescos ou burlescos, mas, de fato, ele tem pelo menos 2 significados práticos.

O primeiro quando é usado para denominar um processo de limpeza espiritual, uma liturgia para eliminar negatividade da pessoa, chamado também de sacudimento, principalmente na Umbanda. O segundo quando é usado genericamente para o ato de fazer uma oferenda a uma divindade e, as vezes, para a oferenda em si, não importando se esta oferenda é uma comida ou sangue. A palavra ebó (ẹbọ), em Yorùbá, significa “sacrifício” e devemos entender isso, o sacrifício, de uma forma ampla e não somente o que requer o uso de animais.

O ebó (ẹbọ) é uma oferenda a ser feita para os ancestrais ou orixá (òrìṣà) em agradecimento por benção recebidas ou na intenção de resolver problemas ou obstáculos, abrir portas e oportunidades. Existem muitas finalidades conhecidas, como a de proteger, antecipar problemas, agradecer, repor e muitas outras.

O ebó (ẹbọ) é uma liturgia muito básica na manipulação do axé, a energia divina de deus que existe em todos os seres vivo (animais ou vegetais) para nos ajudar na nossa vida.

Os itens normalmente se compõe de itens comestíveis como frutas frescas, água, bebidas destiladas, mel e azeite. Além disso o ebó (ẹbọ) pode conter outros itens como dinheiro, roupas, búzios e ervas. Alguns tipos de ebó (ẹbọ) são colocados dentro de casa (uma grande parte) e outros devem ser colocados no tempo (casos específicos).

Ebó (ẹbọ), é assim uma oferenda ritual, um forte elemento e o motivo final do processo de consulta ao oráculo. Sim, isso é muito importante, não se inventa ebó (ẹbọ). Ninguém decora ebó (ẹbọ) e passa por telefone, o ebó (ẹbọ) esta ligado sempre a uma consulta a um oráculo, seja o Obi, sejam os búzios (eerindinlogun), ou seja Ifá.

O ebó (ẹbọ) tem uma função central no processo de consulta é ele que encerra e finaliza o processo de você recorrer a deus, a olodumare, através do oráculo.

O ritual de oferta consiste de uma liturgia elaborada com objetivo de apresentar uma comida e bebida através dos quais o homem (o sacerdote) manipulará e usará para intermediar com as divindades em benefício do consulente. O relacionamento entre os seres humanos e as divindades no sentido de corrigir problemas e obter ajuda é expressado e obtido através da execução de rituais e liturgias, e isso ocorre em qualquer religião sendo essa, a ritualização, a base da necessidade e existência das religiões uma vez que a sua razão é a ligação entre o homem e o divino.

Mas atenção, não estou dizendo que o divindo, deus, só nos ouve se fizermos oferendas. Não! Não é isso. Deus nos ouve em qualquer lugar. Os orixá (òrìṣà) estão conosco o tempo todo, mas, quando precisamos de ajudar, de interferência no mundo natural através de forças supernaturais, então necessitamos de energia, necessitamos de obter energia divina, o axé, que é a energia de olodumare. Essa energia somente existe nos seres vivos, nos reinos vegetal e animal. O ebó (ẹbọ) é a forma de obtermos essa energia.

A colocação ou citação do oráculo como parte do processo de um ebó (ẹbọ) é intencional, em se tratando de Candomblé ou de Ifá, não existe sentido em se estabelecer a necessidade de se fazer um ebó (ẹbọ) sem que o oráculo esteja envolvido, isso deve ficar muito claro para vocês.

Estamos tratando de um processo de transmissão, equilíbrio e reposição de axé (àṣẹ) através de orixá (òrìṣà) e com a interferência de um “operador” qualificado o sacerdote, dessa forma a necessidade disso, a composição, local, etc. tem que ter sido definido através do oráculo, é assim que as coisas funcionam, isso não é Umbanda.

Os rituais e liturgias conectam o mundo físico ao mundo espiritual, ou o mundo natural ao mundo supernatural, de forma a trazer harmonia e equilíbrio para o nosso dia a dia. A realização das liturgias e rituais através do ebó (ẹbọ) re-ordena e corrige o relacionamento entre a divindade e o homem trazendo o equilíbrio que se deseja.

Porém, mais do que trazer a divindade para ajudá-lo, o ebó (ẹbọ) é a fonte de energia supernatural que farão mudanças no mundo natural. Essa é a definição de magia, a capacidade de interferir no mundo natural com o supernatural.

Para qualquer coisa necessitamos de energia, nada acontece sem energia. O ebó (ẹbọ) é quem supre as energias supernaturais, o axé (àṣẹ) para que possamos mudar o mundo natural. Repetitivo mas a chave para entender isso.

Segundo Abímbọ́lá, todo conflito no cosmo Yorùbá pode ser eventualmente resolvido através do uso do ebó (ẹbọ). O sacrifício é a rama que traz a solução e tranquilidade ao universo e que ordena os problemas do dia a dia.

Quatro coisas são importantes para a eficácia de um ebó (ẹbọ). A primeira é o correto uso de cada elemento ritual que é especificado para o odù que foi revelado na consulta ao oráculo.

Segundo isto tem que ter objetivo e propósitos reais e sinceros.

Terceiro, tem que ser espiritualmente tratado por sacerdotes.

Quarto, existe a necessidade de existir uma integração entre o sacerdote, o consulente e as forças espirituais que serão movimentadas para se obter o resultado desejado. Mais ainda, quando este relacionamento é próximo, as ervas, se forem necessárias, curarão de fato.

Dessa maneira as coisas não ocorrem por acaso. Observem essas 4 condições, isso vai explicar muita coisa que da certo e que da errado.

Algumas vezes o ebó (ẹbọ) não virá na forma de uma oferenda física, mas sim através de regras de comportamento e proibições. Por exemplo, não frequentando alguns lugares, não consumindo determinado tipo de alimento, não fazendo determinado tipo de tarefa ou comportamento, adotando uma rotina de rezas, etc..

O significado disso é que esse comportamento está fazendo a pessoa perder energia, perder axé (àṣẹ). Quando se interrompe o comportamento inadequado trocando por outro comportamento adequado, cessa a perda de axé (àṣẹ) e a pessoa melhora. Nesse caso não era necessário repor axé (àṣẹ), apenas deixar de perdê-lo.

Em relação ao significado de um ebó (ẹbọ), o mais importante é entender que o ebó (ẹbọ) é mais do que um conjunto de itens físicos. Ele é parte de um sistema de forças e energia que é movimentado no momento em que se inicia a consulta ao oráculo, quando olódùmarè se utilizará de Orunmilá (ọ̀rúnmìlà) e de seus ministros, os orixá (òrìṣà) e ancestrais, para poder mudar ou corrigir uma determinada situação, e neste processo, exu (èṣù) é o elemento transportador de energia, ou axé (àṣẹ). Assim todo o conjunto espiritual que compõe os fundamentos da religião se movimentam através de uma simples consulta a Ifá, ou até mesmo um jogo de búzios.

Não podemos entender o significado de um ebó (ẹbọ) se não compreendermos este sistema metafísico que está envolvido e suas diversas engrenagens. O oráculo diagnostica e nos remedia através de odù que recebemos no Opon (ọpọ́n). O odùs erve para nos indicar o que existe em torno de nós, como uma mensagem, e também para nos trazer a energia bruta que será manipulada para resolver o problema. O odù é assim como se fosse uma “célula tronco” que através do olhador, das rezas e encantamento e do ebó (ẹbọ) será manipulado para se resolver o problema do consulente.

Este é inclusive um dos motivos que se indica não manipular odù se não se tiver o conhecimento necessário. Pode-se estar trazendo para perto de si uma energia bruta não lapidada que pode influenciar a pessoa, sua casa e família de forma negativa se não for adequadamente conduzida e transformada. Se fosse simples não haveria necessidade de todo o conhecimento, todas as cerimônias de iniciação e todo o tempo de aprendizado no qual o Bàbáláwo se alinha com as forças metafísicas e supernaturais que vão ajudá-lo no seu trabalho. Eu considero que não são apenas a teoria e as cerimônias de iniciação, é necessário prática para que as engrenagens metafísicas de alinhem e se adaptem à pessoa.

O conceito básico do uso do ebó (ẹbọ) é que temos um desequilíbrio de energia e isto está afetando a nossa vida, assim precisamos corrigir o axé (àṣẹ) do consulente e isto é feito através do odù que recebemos e da energia que está contida em cada elemento do ebó (ẹbọ) . Olódumàrè quando criou cada elemento na terra colocou nele um espírito, uma fagulha ou uma energia metafísica que dá a ele uma propriedade especial. As folhas são elementos poderosos na acumulação dessas propriedades e por isso extremamentes importantes ao uso que damos.

Esta energia está então contida em cada elemento existente no aiyé (mundo) e será extraída e manipulada através de um “operador” qualificado. Este operador empresta a esse processo o seu próprio axé (àṣẹ) que funcionando como uma “quintessência” retirará a energia própria de cada elemento do ebó (ẹbọ) e transmitirá ao consulente.

Seria muito simples se qualquer pessoa pudesse pegar um elemento “espremê-lo” e tirar dele a sua propriedade divina, como se tira o suco de uma fruta. As vezes isso pode ser assim e algumas pessoas têm o axé (àṣẹ) necessário para fazer isso e, por essa razão, é que algumas coisas funcionam quando feitos por uma pessoa despreparada e por outras não. O que eu penso é que esta propriedade divina, ou natural de cada elemento, não é um axé (àṣẹ) ainda no sentido que axé (àṣẹ) é a energia em movimento. Quem tem o axé (àṣẹ) somos nós, seres vivos, e o nosso próprio axé (àṣẹ) é necessário para retirar a propriedade de cada material e de transportá-lo para outra.

Em alquimia o nome dado a isso era quintessência.

É claro que as plantas estão vivas e por isso mesmo tem o axé (àṣẹ), isso é o que faz delas um componente tão importante e por isso que qualquer pessoa pode usar com bons resultados as ervas para fazer banhos. Independente do o axé (àṣẹ) dessa própria pessoa as folhas quando usadas frescas têm o seu próprio axé que é assim transmitido para quem recebe o banho.

A liturgia de quinar as ervas com cânticos e encantamentos e feitos pelo próprio sacerdote é um processo litúrgico mais forte porque diretamente está havendo manipulação, transferência e amplificação do axé (àṣẹ) do sacerdote através das folhas, que se soma ao o axé (àṣẹ) das ervas fazendo fluir e acumular no banho de ervas preparado e encantado uma “bateria” viva de axé (àṣẹ).

O uso de elementos preparados, manipulados e cozidos é uma outra variação e, através desse processo “alquímico”, estamos manipulando, transformando, amplificando e canalizando as propriedades de todos os elementos envolvidos para o fim que desejamos. Mas, nesse caso de elementos preparados, as suas propriedades são estáticas, como um alimento comum.

A “virtude” existe neles, mas será o axé (àṣẹ) do sacerdote, sua capacidade, que colocará isso em movimento retirando deles essa propriedade e fazendo-a funcionar na forma de energia dinâmica, ou seja, o axé (àṣẹ).

Neste momento estamos também colocando em movimento um axé (àṣẹ) muito mais importante que é o das divindades, os orixá (òrìṣà), que assistem o sacerdote e que irão se utilizar das propriedades desses elementos, que estarão preparados para o uso, através do seu o axé (àṣẹ). Aqui então entramos na área onde devemos entender as especializações das divindades. Cada orixá (òrìṣà) tem afinidades com elementos e locais que faze parte do aiyé. O sacerdote deve conhecer essas afinidades para que possa se utilizar disso.

Desta forma ao usarmos o axé (àṣẹ) através de uma divindade temos que conhecer os elementos que fazem parte de sua afinidade e a forma de serem preparados para a amplificação ou mesmo abertura de suas propriedades. A natureza e todo o aiyé é um repositório de energias metafísicas e o sacerdote deve, com um garimpeiro ou como um lavrador, procurar os locais onde ela aflora e se manifesta ou também cultivar locais onde estas energias se concentrarão.

Um terreiro ou casa de santo é um local que é então preparado para acumular ou fazer aflorar a energia do aiyé e dos orixá (òrìṣà). Dessa forma muitos ẹbọ serão feitos na própria casa de santo. Em outros casos o sacerdote vai procurar o seu local de afloramento, circulação ou acumulação na própria natureza. Não se pode, por exemplo, ter a energia de uma praia dentro do terreiro, ou de uma estrada ou de uma encruzilhada, ou do alto de uma montanha, etc...

É o conhecimento desse fundamentos que permite a um bom sacerdote ter os melhores e mais efetivos resultados. Uma pessoa com conhecimento e axé (àṣẹ) poderá amplificar as energias da natureza, dos elementos e dos òriṣà, obtendo os resultados mais efetivos. Os locais da natureza, o cuidado do sacerdote na manutenção do seu axé (àṣẹ) (pelas suas obrigações, observância de preceitos, afastamentos dos ewọ̀ do seu odù e orixá (òrìṣà)), as horas do dia e dias do mês (em função de horários e fase da lua mais apropriados) e as cantigas e encantamentos serão no seu conjunto e individualmente elementos que amplificarão a energia e por isso mesmo dão mais eficácia ao ebó (ẹbọ).

Assim o ebó (ẹbọ) é formado pelo conjunto de tudo isso que citei aqui. Elementos que contém virtudes divinas e mesmo aṣẹ́, como é o caso das folhas, da energia que está na natureza, do axé (àṣẹ) dos orixá (òrìṣà) e do axé (àṣẹ) do próprio sacerdote, que ao longo de toda sua vida acumula não só conhecimento como também acumula aṣẹ́ para poder ser transmitido para que ele ajuda ou para retirar e ser amplificado pelos elementos que ele manipula.

O Bàbáláwo não passa incólume pelo ebó (ẹbọ), ele participa e contribui, certamente ele perde um pouco de axé (àṣẹ) toda vez que trabalha.

Não podemos esquecer que em todo este processo o Orí da pessoa foi o elemento ativo de comunicação e como uma divindade pessoal do consulente nada poderá ou ocorreu sem o seu consentimento.

Assim quando a pessoa e seu Orí se sentam no espaço sagrado do olhador de Ifá este irá invocar ọ̀rúnmìlà para que este como o eleri ipin (ẹlẹ́rí ìpín), ou testemunho do compromisso entre o consulente e seu orí e olódùmarè, possa analisar a situação que está ocorrendo e avaliar se os problemas fazem parte do destino pessoal daquela pessoa ou não, são parte dos problemas de terra que podem ser eliminados ou amenizados. Neste momento ọ̀rúnmìlà é a boca através da qual falam o Orí, os orixá (òrìṣà) e ancestrais do consulente e, sem dúvida nenhuma olódùmarè que sempre está presente em nossa vida.

O odú contém ao mesmo tempo a mensagem e a solução do problema e tudo se faz através de energia e equilíbrio, mas sempre através das mãos das divindades que assistem a vida do consulente. Desta forma os elementos físicos que compõe o ebó (ẹbọ) trazem suas energias individuais e seu axé (àṣẹ). Os elementos físicos serão transmutados em energia que será utilizada como força a ser colocada em movimento por estas divindades para atuar na situação colocada.

Por fim eu gostaria de abordar uma mistificação ligada a ebó (ẹbọ). De nenhuma maneira ao fazermos um ebó (ẹbọ) estamos alimentando divindades ou espíritos. Estamos dando início a uma roda de energia que irá ser movimentada em benefício do próprio consulente, ou seja, estamos dando ignição a uma corrente do bem. Desta maneira tudo o que é colocado em um ebó (ẹbọ) desde a qualidade dos elementos até o carinho que isto é feito irá retornar para nós mesmos.

Uma divindade não necessita de comer, o seu nível de evolução espiritual a coloca em uma condição que elas existem para nos ajudar e não ao contrário, mas, não estamos no Orun (ọ̀run) e sim no aiyé, desta maneira necessitamos transformar energia. Como todos sabemos energia não se cria do nada, se transforma a partir de uma fonte já existente. Por esta razão é que usamos o ẹbọ como uma fonte de energia que será gerada para que o que necessitamos de aṣẹ possa ser obtido.

É ridícula a imagem que passam de que aquela comida vai agradar a algum orixá (òrìṣà) e que ele assim comendo e bebendo vai se dispor a nos ajudar. É também ridícula a fala de que um espírito não nos ajuda porque não o ajudamos ou o alimentamos. Minha opinião é que este tipo de mistificação é a primeira coisa que deve ser esquecida por alguém que quer aprender algo.


Por: Babalawo Marcos Arino Ika Ogunda