2 de nov de 2016

Pequeno apoio aos leigos


Tive a idéia de escrever este artigo pensando somente nos leigos, pessoas essas que muitas vezes admiram os casos da Umbanda, suas designações e missões, porém, não compreendem o que se passa e muitas vezes não entram ou se aproximam de um terreiro por medo ou certo receio do que vão encontrar do lado interno.

Conversando com muitos leigos percebi muita curiosidade e vontade de saber como é um terreiro internamente, pois muitos carregam uma impressão vinda de pré-conceitos, sem nenhuma base de como funciona um culto umbandista. Através deste artigo, vou postar um desenho que eu mesmo fiz, para que assim um leigo possa ter uma idéia de como é um terreiro internamente. E, de que, num terreiro há funções designadas para cada objetivo, aqui deixo um exemplo da aparência interna de um terreiro:





Especificando o que vimos no desenho;


A primeira parte é à entrada do terreiro, esta é apenas a porta do mesmo, por onde todos passam. Do lado esquerdo, percebe-se um lugar específico chamado ‘Tronqueira’, que é uma firmeza para Entidades espirituais denominadas ‘Exus e Pomba Giras’. Estes são quem protege o terreiro, preservam pela segurança espiritual do mesmo, não deixando más influências passarem para o lado de dentro e prejudicarem os filhos e pessoas que ali estão. Deixo uma observação: Escrevi no desenho a ‘Tronqueira’ e a “Porteira” (Firmeza dos Exus e Pomba Giras); existe uma diferença ritualística entre as duas, pois, a ‘Tronqueira' é feita dentro de fundamentos mais profundos, onde se prepara a mesma com preceitos mais adentrados nos fundamentos ritualísticos. A “Porteira” ou “Firmeza da Porteira” é onde se afirmam os Exus, sem muito enigmas ritualísticos como feito numa ‘Tronqueira’. Muitos terreiros não utilizam a Tronqueira, usufruem de uma firmeza para essas Entidades sem muito se aprofundar nas ritualísticas.

Após passar pela firmeza dos Exus e Pomba Giras, percebe-se a ‘Assistência’ do terreiro, ali ficam os consulentes, pessoas que ali estão para se consultarem e tomarem o passe das Entidades espirituais. O procedimento de organização varia de cada terreiro, no caso do terreiro que faço parte, se organizam fichas de entradas, divididas em fichas específicas para consulentes que ali estão pela primeira vez ou que somente tomam passes, e fichas específicas que identificam as Entidades de cada médium. Vou tentar explicar melhor:

Ao chegar pela primeira vez num terreiro, o consulente recebe uma ficha de ordem numérica conforme a ordem de chegada (“1,2,3,4,...”), quando chegar a sua vez, o mesmo passará com a Entidade Chefe do terreiro ou até mesmo com outra Entidade, neste momento o consulente será encaminhado somente para tomar seu passe de limpeza espiritual (a questão de ser consultado ou não, dependerá da atitude da Entidade espiritual). O mesmo consulente ao voltar no terreiro em outra ocasião, comunicará na entrada se é a primeira vez ou não, portanto, o mesmo receberá uma ficha que identificará um médium, ou seja, as Entidades daquele médium. Esta ficha também será numerada conforme a ordem de chegada, então o consulente esperará sua vez e passará com tal Entidade indicada assim que for pronunciado o número de sua ficha caracterizada, por exemplo:

Eu me chamo Carlos Pavão, sou médium de incorporação e trabalho com Entidades espirituais, se um consulente vir a um terreiro e quiser ou for encaminhado para falar com minhas Entidades, o mesmo receberá uma ficha caracterizada desta maneira: “C-1” ou “C-2”, “C-3”, “C-4”... Os números representam a ordem de chegada, e a letra é apenas um código de identificação a minha pessoa, ou melhor, as Entidades deste médium que sou eu. Assim funciona com os outros médiuns, a Camila, fulano, cicrano, beltrano, etc.

Se o médium for encaminhado ou quiser falar com as Entidades de minha esposa (Camila), receberá, por exemplo, uma senha caracterizada desta maneira: “D-1”, “D-2”, D-3”...

Assim funciona a organização do nosso terreiro, para que desta forma não haja confusões entre a ordem de chegada dos consulentes.
As fichas dos passes e da primeira vez do consulente no terreiro são somente numeradas conforme a ordem de chegada dos mesmos, por exemplo: “1,2,3,4,5...19,20...”

Continuando com o desenho, vimos mais acima à divisória entre a assistência e o chão sagrado que se faz a gira (ritual espiritual). No local onde estão filhos(as) e Dirigentes, os consulentes só pisam ao serem chamados, entram de frente e saem de costa, um sinal de respeito com aquilo que está afirmado lá dentro. Muito importante citar também, que os consulentes devem estar de camisetas, camisas ou blusas que não expõem o corpo, e também de calças compridas; as mulheres de preferência calça comprida ou saias longas. Pois, isso é para preservar o próprio consulente caso haja alguma manifestação espiritual espontânea no mesmo, e para com o respeito com o terreiro, que é um local sagrado e sério.

No topo do desenho está o Congá ou Peji, que é um altar onde se afirmam os Orixás e Entidades espirituais do terreiro, uma referência da firmeza no terreiro, onde se concentra a maior e principal parte das firmezas espirituais. Ali é considerado o ponto de partida dos trabalhos, onde os filhos e Dirigente saúdam as Entidades e pedem suas proteções e demais.

Na frente do Congá, fica o/a Dirigente Espiritual do terreiro, ou seja, aquele que é responsável pelos preceitos e fundamentos de todos os filhos e do terreiro num todo.

Do lado do Congá temos a ‘Curimba’, local onde estão os atabaques e todos que se envolvem diretamente com a musicalidade do terreiro: Pontos Cantados, Toques de atabaques e coro; Lembrando que a Curimba não é apenas um local de musicalidade, mas, sim um local onde emite a firmeza do terreiro através dos pontos cantados e toques.

No meio do “salão”, temos os filhos e filhas, onde muitos são médiuns de incorporações e muitos não, os que não incorporam vão ser encaminhados para outras designações, porém, o mais comum é ir para a função de ‘Cambone’, aquele que auxilia as Entidades quando incorporadas.

Não é via de regra nos terreiros, mas dentro de nossas hierarquias, os filhos ficam do lado esquerdo e as filhas do lado direito. E ao incorporarem, cada Entidade toma sua posição definida no “salão”.

Este artigo foi somente uma ajuda para os leigos, aqueles que não conhecem o lado interno de um terreiro umbandista. A Umbanda é uma religião organizada, bem estruturada e leva seus seguimentos com muita seriedade.

Àqueles que têm vontade de entrar num terreiro para tomar um passe ou se consultar, não tenham medo, pois, a Umbanda é séria e busca o bem estar das pessoas. Porém, se você consulente perceber algo fora do comum, algo que saia do bem estar das pessoas, então se vire com toda educação que lhe pertence e vá embora, mas vá consciente de que aquilo não se trata de Umbanda e muito menos se tem a presença de Entidades Espirituais, pois, as mesmas jamais permitem algo fora das designações superiores.


Por: Pai Carlos D'Ogum (Carlos Pavão)
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