16 de ago de 2016

Sobre a linha dos Baianos


Sabe-se que os títulos das linhas foram dados pelo homem, pessoas que ao verem certo agrupamento de guias espirituais que trazem essência em comum denominam este agrupamento por linhas e posteriormente lhes dão um título, assim foi com a linha dos Caboclos, linha das Almas, linha dos Boiadeiros, linha dos Exus e a conhecida linha dos Baianos.

A tradição da Umbanda deu-se início com a manifestação de grupos de guias espirituais de antepassados indígenas e africanos ou afro-
brasileiros, grupos que foram titulados por Linha dos Caboclos e Linha das Almas ou Pretos Velhos, após esses grupos foram aparecendo mais grupos de guias espirituais com essências em comuns, como os Boiadeiros, que surgiram na Linha dos Caboclos, por isso são conhecidos como Caboclos de Couro ou Caboclos Boiadeiros. O início desta nova linha na época foi dentro das chamadas de Caboclos de Pena, os Boiadeiros se manifestaram dentro destas chamadas, porém, com o número de boiadeiros que se manifestavam em médiuns que também trabalhavam com Caboclos de Pena, logo houve uma organização ritualística que fez por onde dividir tais agrupamentos, fazendo desta forma chamadas específicas de Caboclos Boiadeiros, daí surgiu a Linha dos Boiadeiros. Por que cito sobre? Simplesmente para esclarecer que algumas linhas foram organizadas nos rituais pelos homens perante a manifestação em massa de certos grupos de guias espirituais que carregavam as mesmas características.

Tudo indica que a Linha dos Baianos deu-se início no estado de São Paulo, justamente porque no costume paulista tudo que advêm do nordeste ou até mesmo norte vem da ''Bahia'', ou seja, se uma pessoa diz ser nordestina ou nortista, logo o paulista o chama de ''baiano'', se algo vem do nordeste ou norte o paulista tem o costume de dizer que aquilo veio da ''Bahia'' e assim por diante. Eu costumo dizer que a linha dos Baianos traz guias espirituais que vivem em intermédios com duas forças espirituais, a força dos Pretos Velhos e dos Exus/Pomba Giras, foi assim que esses guias foram aparecendo na Umbanda, diante giras de Pretos Velhos e Giras de Exus/Pomba Giras, não digo que tais guias apareceram primeiramente no estado de São Paulo, mas que a denominação deles dentro deste título de ''Linha dos Baianos'' é bem provável que sim.

Do modo que os Boiadeiros se manifestaram dentro das giras de Caboclos, os guias espirituais que titulamos como ''Baianos'' se manifestaram nas giras de Pretos Velhos, alguns nas giras de Exus/Pomba Giras e outros em ambas. Vou citar o exemplo de um guia muito popular que é seu Zé Pilintra, este é um mestre de Jurema, no conceito que tenho a respeito dele teve sua origem de vida em Pernambuco, mas independentemente de seu local de origem, pois este não é o caso, foi um dos guias que começou na Umbanda a se manifestar nas giras de Pretos Velhos e também nas giras de Exu e Pomba Gira, assim como seu Zé Pilintra, outros guias foram se apresentando desta forma, nas giras de Pretos Velhos, nas giras de Exus ou em ambas, dou o exemplo de seu Zé Pretinho, Maria da Quitéria, Sete Saias, Rosa Maria, Maria das Facas, ''Baiano'' Jerônimo, Seu Serafim, Seu Zé Francisco, entre outros. Tais guias que citei são guias que trabalham nas duas forças, o que chamamos de ''direita'' e ''esquerda'', alguns fazendo um intermédio entre essas duas forças e outros fazendo intermédio entre suas próprias essências com a essência dos Pretos Velhos, porém, a maioria deles fazem muito a junção da força de Exu com a força conhecida como ''direita''. 

Em São Paulo, todos esses guias que de certa forma estão no intermédio de duas forças foram enquadrados dentro do título da Linha dos Baianos, justamente pelo motivo da origem de vida da maioria desses guias, da qual vem do nordeste ou norte do país, mas também dentro desta chamada encontram-se (com menos frequência) guias espirituais de outras localizações do Brasil, porém, que trazem sempre esta essência de duas forças unificadas, a essência do intermédio. 

A denominação da linha é simplesmente imposta pelo homem diante sua interpretação e seu costume regional perante o culto, no Rio de Janeiro a maioria dos terreiros não trabalham com esta linha, porém, acredito que dentro de outras denominações de linhas esses guias espirituais fazem presença nos templos umbandistas, mas acredito que a maioria deles enquadrados dentro de linhas como a dos Pretos Velhos e Exus/Pomba Giras, conforme apareceram nos cultos. Também por conhecimento de alguns colegas cariocas, sei que a atenção maior nos terreiros se tratando deste caso do texto está para os guias espirituais que fazem mais a atuação na ''esquerda'', ou seja, aqueles que trabalham mais nas características dos Exus e Pomba Giras fazendo o intermédio da ''direita'' com a ''esquerda'', guias esses que foram agrupados numa linha titulada pelos umbandistas do Rio de Janeiro como ''Linha dos Malandros'', onde a essência está centralizada em guias com arquétipos do mistério e do encanto, aqueles guias que em vida tiveram estilos marcantes em sua forma de lidar com as rotinas da vida.

No estado de São Paulo a Linha dos Baianos fora caracterizada conforme a essência daqueles guias que tiveram suas vidas carnais centradas no nordeste do país, desta forma sua ritualística foi constituída na base da saudação em pontos a Nosso Senhor do Bonfim, na saudação de chamada em louvor ao ''Povo da Bahia'', entre outros. Mas isso não significa que todos os guias presentes nessa linha trazem esta essência, esta é uma linha onde agrupa guias com as mais diversificadas individualidades, o maior exemplo está em alguns mestres de Jurema como Seu Zé Pilintra, Seu Serafim e outros, e também alguns exemplos em alguns guias com aspectos de rezadores muito em comuns com os Pretos Velhos, fora os guias que trazem a essência visível dos Exus e Pomba Giras.

A Linha dos Baianos é muito querida na Umbanda pela razão de sua complexidade energética, pela razão da diversidade de trabalhos advindos de cada guia espiritual que se faz presente nela!


Por:  Pai Carlos Pavão