8 de jul de 2016

Bater cabeça


Muitos na Umbanda se utilizam deste fundamento como um gesto de cumprimento ou saudação, como uma espécie de reverência seguida de um gesto de simplicidade ou humildade ao próximo, principalmente a um dirigente ou um guia espiritual específico, embora muito bonito o gesto e a intenção, fazer isso denominando a situação como ‘’bater cabeça’’ é totalmente errado, pois não se bate
cabeça para guia espiritual e muito menos para um ser carnal, seja lá qual for seu cargo. A cabeça ou orí é um lugar sagrado e destinado somente a uma força que é a força da cabeça, traduzindo para o iorubá é o Orixá, ou seja, o seu Orixá, do qual é o dono de seu orí/cabeça, por isso batemos cabeça somente para o nosso Orixá.

A cabeça é sagrada, um lugar delicado que cabe somente a uma energia, da qual é a energia que a predomina, esta que chamamos de Pai ou Mãe de cabeça, do qual é o nosso orixá de cabeça, jamais e em hipótese alguma se pode oferecer nossa cabeça a ninguém, seja outro orixá, guia e muito menos encarnado, nela giram forças elementares, onde cada pessoa tem a sua própria força, o seu próprio ponto de equilíbrio, por isso é um local espiritual que deve se manter impenetrável a quaisquer energias ou fluídos que não seja dela própria, muito menos energias de espíritos, seja lá qual for à evolução do espírito, pois os fluídos dos espíritos não combinam ou casam com os fluídos elementares advindos da cabeça/orí, não é uma questão de desmerecimento ou falta de humildade, é uma questão de fundamento espiritual, algo indiscutível, é como querer colocar outro órgão para trabalhar no lugar de nosso cérebro.

Muitos terreiros de Umbanda trazem o tradicionalismo dos filhos baterem cabeça antes do culto, visualmente isto aparenta um gesto de saudação ou reverência ao congá (altar com as devidas firmezas espirituais), porém, não se trata de uma reverência ao congá, e sim, um preceito espiritual entre o filho e seu Orixá, onde ao colocar a cabeça no chão é como colocar a força do orixá no solo sagrado, desta forma deixando por conta de seu orixá a sua proteção e os cumprimentos aos demais orixás, principalmente ao orixá da casa, o orixá do dirigente espiritual. Após cumprimentar a sua origem, aquele que é o seu princípio (seu orixá), então se cumprimenta o congá, mas em pé e geralmente reverenciando todos ali afirmados espiritualmente. Em algumas ocasiões vemos filhos batendo cabeça aos pés do dirigente, onde o mesmo faz um cruzamento espiritual no corpo do filho se utilizando do pó da pemba, ao fazer isto, o filho está saudando seu próprio orixá, pegando forças com ele para que o dirigente através de seus orixás e guias espirituais faça o preceito do cruzamento espiritual para fortalecer seus pontos de energias. Também em alguns casos, vemos guias espirituais incorporados nos filhos abaixarem e bater a cabeça no chão, visualmente isto aparenta completamente contraditório e estranho, já que um guia espiritual está caminhos de evolução a frente de nós encarnados, mas, na Umbanda nem tudo que os olhos veem é o que realmente representa. O guia espiritual em questão está incorporado no corpo do filho, onde ele abaixa o corpo deste filho colocando o orí/cabeça do filho ao chão, fazendo um cumprimento de orixás, fazendo com que o orixá do filho e o do dirigente ou pessoa em questão se cumprimentem.

Percebe-se que o fundamento de bater cabeça na Umbanda com o tempo se perdeu e transformou-se num simples gesto de reverência seguido da humildade, mas na realidade se trata de um fundamento espiritual seguido de um cumprimento de orixás, por isso não se bate cabeça para nenhum guia espiritual e muito menos algum encarnado, cabeça só se oferece ao seu orixá, que é à força de sua cabeça.

Na Umbanda os olhos não enxergam o fundamento, a visão do fundamento está entre os preceitos espirituais adquiridos no dia a dia, nem tudo que se vê é o que realmente aparenta ser!


Por: Pai Carlos Pavão