29 de jun de 2016

Pai Guiné - É o vento que balança a folha

As coisas estavam um pouco diferentes naquela noite. Não esquisitas, nem estranhas, só diferente. O terreiro estava limpo e cheio de energias boas e confortantes, com as seguranças feitas e os médiuns dispostos.

Os consulentes aos poucos iam chegando e trazendo suas dores e lamentos para os pais, cada qual com a esperança de melhoras.

A sessão começou com todos cantando e elevando seus espíritos a Deus, unidos e amparados pela Luz Divina que vem de Aruanda, do Reino de Oxalá. O Guia do dirigente espiritual do terreiro incorporava em seu médium para mais uma sessão de amor e caridade aos irmãos necessitados, ao som de seu ponto cantado:





"É o vento que balança as folhas guiné,
É o vento que balança as folhas,
É, é, é Pai Guiné, é o vento quem balança as folhas."

Um a um, os consulentes foram sendo guiados para os caminhos do amor através da conversa sincera e dos passes magnéticos dos Guias do terreiro. Tudo estava correndo normalmente, ou parecia estar, até que uma consulente incorpora um kiumba que esperneava e xingava a todos os presentes.

Pai Guiné levantou de seu toco deixando seu consulente esperando e foi até o kiumba. Apenas olhou com resignação e compaixão daquele espírito perdido nas trevas da ignorância, do preconceito e sobretudo do ódio.

O kiumba, ao pressentir a chegada do Preto pára de espernear e com ódio olha para Pai Guiné e fala:
- É bem capaz que esse negro vai me fazer parar!

Pai Guiné responde:

- Parar, esse nego velho não vai, porque nenhum espírito merece ficar parado nas escalas evolutivas que regem o Universo e se o irmão acha que ficaremos aqui contracenando num teatro está muito enganado.

O kiumba, assustado e sem saber o que fazer segue esperneando e xingando a todos. O Preto-Velho bate sua bengala no chão, o kiumba pára e, vagarosamente, a cada nova batida da bengala do Preto-Velho ele se desliga dos chacras da consulente, que é energizada e convidada para uma franca conversa com Pai Guiné.

- Obrigada Pai, não sei quem mandou aquele encosto, aposto que foi alguém do meu serviço!

A consulente foi interrompida em seus delírios de obsessão e o Preto Velho lhe responde com sabedoria:

- Minha filha, hoje você veio nesse terreiro querendo destruir a todos que lhe rodeiam, irmãos que você supunha serem seus inimigos. Ninguém mandou o encosto para você, minha filha, apenas era um espírito com afinidade de seus sentimentos de ódio e rancor.

As palavras do Preto-Velho fizeram a consulente refletir. E, após um silêncio de reflexão, Pai Guiné continua sua conversa:

- A filha acha que, por ter um bom emprego e um bom cargo, seus colegas lhe invejam e seu chefe lhe persegue, mas não vê que seu emprego apenas reflete aquilo que a filha fez ou deixou de fazer por aqueles colegas que mais precisavam da sua ajuda, virando-lhes o rosto e sendo ríspida com quem hoje poderia ser seu amigo ou sua amiga. A filha veio nesse terreiro procurando o mal e, influenciada pelo kiumba, é o que levaria para casa, mas esse Negro Velho, inspirado por seu Anjo da Guarda veio ao seu auxílio. Espero que a filha volte ao seu lar, agora com a aura limpa e com um pouquinho mais de sabedoria, que plante sementes de compaixão, humildade e caridade, que, tenho certeza, irá colher paz, amor e muitas felicidades.

Ao cessarem as palavras de Pai Guiné a consulente, com lágrimas nos olhos agradeceu com sinceridade ao humilde e sábio Pai Guiné de Aruanda e saiu do terreiro levando amor, um corpo espiritual limpo e a certeza de ter encontrado a luz.

A cada vento que bate em seu rosto lhe trazendo paz, ela se lembra de que, nos momentos mais difíceis Pai Guiné lhe carrega nos braços, e lhe lembra que ele é o vento quem balança as folhas.

Por: Preto-Velho Pai Guiné de Aruanda/Denis Moura (Jornal Nacional de Umbanda Edição 38)