6 de mai de 2016

Preservação da Curimba na Umbanda


A preservação das raízes dos toques de atabaque na Umbanda deve ser mantida, a importância desses toques é grande para a valorização do culto e da cultura que traz esta religiosidade. A Umbanda carrega em sua tradição no ngoma ou atabaque muito da raiz Banto (Kongo-Ngola), a maioria de seus toques vieram desta tradição, que são o congo, o barravento e o Cabula, esses toques chegaram à Umbanda logo em sua formalização diante os Bantos no Brasil, toques
utilizados na África nos cultos aos Inquices e no ritual de Nbanda feito pelos Makuá Nbanda há 1.200 anos a.C. Após a anunciação da Umbanda através do médium Zélio Fernandino de Moares foram também incluídos pontos cantados com menos aceleração, digamos que mais cadenciados, daí surgiu um toque muito conhecido e utilizado pelo menos em 50% dos pontos cantados que é o ''nagô'', toque este criado no Brasil pelos próprios curimbeiros de Umbanda, junto com o toque de nagô foi também introduzido em pontos ainda mais lentos o toque de Yjexá, portanto os toques de origem da Umbanda são esses: Congo, Barravento, Cabula e posteriormente o Nagô e o Yjexá.

Conforme a raiz afro-brasileira são utilizados três atabaques, dos quais cada um entoa um som diferenciado do outro. Estes atabaques são conhecidos como Lé, Rumpi e o Rum que é o responsável pelas variações, das quais são os tradicionais repiques. Os curimbeiros de Umbanda farão juntos uma harmonia do toque em questão, ou seja, dois curimbeiros marcam e o que toca o Rum faz os repiques, desta forma o toque é identificado e mantido dentro de suas características. Deixando uma observação, é utilizado um instrumento fundamental na curimba que é o agogô, do qual têm duas ''bocas'', uma entoa um som mais agudo e a outra um som mais grave, porém, na Umbanda diante a tradição usa-se o agogô de uma só boca, o agogô é o responsável pela identificação do toque e pela sua marcação, através deste instrumento que os atabaques sabem qual toque utilizar para determinado ponto cantado, o agogô é uma espécie de ''maestro'' da curimba.

O comportamento do curimbeiro, ogã ou atabaqueiro na Umbanda é muito importante, pois é fundamental saber que de três curimbeiros somente um fará as variações, aquele que está se responsabilizando pelo Rum, que é o atabaque maior. Jamais deve haver uma disputa ou empolgação que fará com que os três curimbeiros comecem a fazer variações ou repiques nos toques, isso desvirtuará o toque a ponto de deixá-lo irreconhecível, tendo como reflexo esta falta de postura de alguns curimbeiros hoje se criaram diversos nomes para os toques de Umbanda, o toque de congo foi uma ''vítima'' deste desvirtuamento, pois se encontra pessoas o titulando como Congo de Caboclo, Congo de Ouro, Congo Angola, somente Congo, etc. Mas não é desta forma que funciona, apenas existe o congo, do qual independentemente da variação ou repique que o rum dará sempre será identificado como congo, e assim funciona com os outros toques. 

A tradição afro traz muito esta regra de três instrumentos e um somente repicando, vejamos o exemplo da capoeira, se notarmos na tradição da Capoeira Angola, veremos o que se chamam de ''bateria da capoeira'' os três principais instrumentos, que são três berimbaus: o gunga, médio e o viola. Assim como os atabaques nos terreiros, esses berimbaus traz cada um sua tonalidade, geralmente o gunga puxa o toque e faz a marcação com o toque conhecido como ''Angola'', depois entra o médio tocando o ''São Bento pequeno de Angola'' e posteriormente o viola gerando as variações no toque de ''São Bento Grande de Angola’’. Percebe-se que essa regra faz parte de uma raiz afro-brasileira, da qual deve ser mantida diante as vertentes que ela se enquadra.

Outro ponto importante a ser citado é a questão da postura dos curimbeiros na Umbanda, o atabaque não precisa ser ''espancado'' e sim tocado, o interesse não é fazer mais barulho e sim entoar o toque dentro de um ritmo amigável, que ficará na medida a ser escutado e na medida da voz que puxará os pontos cantados, sem que prejudique aquele curimbeiro que ora os pontos e sem que dificulte a compreensão dos pontos para aqueles que escutam e acompanham da corrente e da assistência.

Não basta achar que os atabaques na Umbanda somente foram feitos para serem tocados após conseguir assimilar um ritmo, existem regras a serem cumpridas diante toda uma tradição ritualística advindas de nossos antepassados, que lutaram para que esses costumes fossem preservados diante toda uma sociedade, a curimba é uma das funções a ser mais trabalhada na Umbanda, função que precisa de muita dedicação de seus curimbeiros, por isso não basta tocar, tem que se dedicar, tem que aprender e se conscientizar a respeito dos fundamentos e das tradições.


Por: Pai Carlos Pavão