20 de mai de 2016

O espírito cigano

Em meu templo não temos o culto referente aos espíritos que obtiveram em suas últimas reencarnações a vida cigana, não é questão de afinidade, muito menos discriminação com esta linha, mas, questão de respeito pela essência que traz a mesma, já que não tenho total disponibilidade para me dedicar completamente aos seus preceitos. Não sou nenhum especulador da rotina cigana, de suas culturas e outros, mas conheço a essência espiritual que trazem esses guias que atuam nos cultos umbandistas. Embora muitos umbandistas os cultuasse com frequência ou entre outras linhas, não é recomendável a prática desta forma, justamente pela exigência que traz o povo cigano na espiritualidade. Os Ciganos na espiritualidade como em vida são muito complexos, suas individualidades e costumes extrapolam as diversidades, porém, sempre trazem algo em comum, nunca estão sozinhos,
sempre estão acompanhados dos demais guias desta linha, linha da qual apareceu na Umbanda no final da década de 1970 e fora muito cultuada nas décadas de 1980 e 1990, talvez pela novidade e essência diferenciada que trouxe. Antigamente não se via uma gira de Ciganos no mesmo dia de outras giras, se via somente o dia da gira de Ciganos, onde geralmente se fazia uma festa ou homenagem a eles, havia uma gira diferenciada nas questões de aberturas e encerramentos, assim como o dia da gira de Exu e Pomba Gira, no qual se torna algo específico. Embora muitos terreiros faziam as giras de Ciganos uma vez ao mês, o recomendável era fazer suas giras uma ou no máximo três vezes ao ano, então nesta gira encontrava-se todos os enigmas e firmezas necessárias conforme a exigência deste povo espiritual, desta forma, havia uma pré-firmeza para receber os enigmas e após a passagem espiritual deles levantava-se tudo, ou seja, despachava-se todas as firmezas e preceitos relacionados a eles, assim agiam os terreiros mais sérios e ríspidos. Toda esta exigência vinha por ordem espiritual dos próprios ciganos(as), onde sempre afirmavam que eram livres, não gostavam de serem chamados/evocados a todo tempo, não gostavam de suas firmezas assentadas ou fixadas no terreiro, apenas em dia de suas giras e muito menos gostavam que louvassem outras linhas com eles ou no dia de suas giras, pois, afirmavam que não pertenciam a ninguém e nem ao templo, mas sim quando fosse a hora deles, sabiam quando chegar junto de todos que se ligavam em suas essências, ou seja, em sua linha espiritual. Penso que como em vida, nos seus mais complexos costumes, essa linha traz a essência do isolamento de seu povo, onde desfrutam de suas regalias espirituais juntos, carregando suas essências passadas refletidas em seus preceitos e enigmas de trabalho.

Hoje vejo muitas casas misturando Ciganos com outras linhas ou até mesmo afirmando eles fixamente em seus templos, o que é totalmente contraditório aos enigmas dos Ciganos, seria como um ‘’tiro no pé’’ fixar um Cigano numa firmeza dentro de uma casa, já que Cigano é livre, não tem dono e não gosta de se prender, se desloca constantemente. Os Ciganos não são da Umbanda, eles estão na Umbanda, ou seja, passam por ela, por isso é muito complexo lidar corretamente com esta linha. Eu não os cultuo e como disse, não por causa de afinidade e outros, mas porque até agora não obtive nenhuma ordem espiritual para isso, apenas uma influência, um contato com eles, onde me passaram seus preceitos, seus costumes e como sábios que são, ofereceram seus trabalhos, mas dentro desta exigência espiritual como as demais entidades espirituais carregam, porém, deixei o tempo levar e de coração não acatei, justamente porque prezo pela seriedade em fazer algo dentro do devido preceito, até porque, esta linha não aceita preceito pela metade ou essa folia toda como vemos por aí, esses guias não são apegados a passagens de incorporação constantemente, são concretos, mas, misteriosos em seus trabalhos, nos quais são cheios de enigmas, trabalham quando vêm a nós. Para aqueles que os cultuam, devem aproveitar e explorar bem o dia deles, a fim de aprendizados e elevações espirituais, a fim de desembaralhar problemas e desmanchar maus feitos da vida física e da vida oculta.

Hoje infelizmente há muitas distorções com relações aos mais diversos assuntos ou enigmas que rodeiam a Umbanda, muitos praticantes fantasiando a espiritualidade e no caso dos Ciganos, literalmente se fantasiando para suas ‘’manifestações’’ em nosso plano.

Sou guiado pela espiritualidade, pelos preceitos que a mesma me entrega, a respeito do Povo Cigano, só posso dizer que admiro sua essência espiritual e respeito sua linha, e por respeitá-la, não faço como muitos, onde afirmam esta linha ou esses guias constantemente ou fixamente em suas casas, sejam elas religiosas ou residenciais.

O Povo Cigano não é da Umbanda, ele está na Umbanda, os ciganos são livres e temos que respeitar esta essência deles, eles são como a sorte que pode passar a sua frente, só basta não dar bobeira e deixar que ela passe despercebida, mas ao perceber, desfrute dela e a espere sempre esperançosamente outra vez, com absoluta certeza ela voltará, mas desfrute da sorte sabendo usá-la...

"Oh meu Cigano não me leia a sorte
Pois a sorte é uma porta e atrás dela mora a morte.’"


Por: Pai Carlos Pavão