4 de jan de 2016

Símbolos e arquétipos na Umbanda por Adilson Marques

Há algum tempo, enquanto pesquisava sobre arquétipos na Umbanda, me deparei com um texto assinado por Adilson Marques que me chamou atenção por apresentar uma abordagem antropológica não religiosa.

Infelizmente quando tornei a pesquisar, o texto já não estava lá, o site havia sido retirado do ar, mas encontrei uma versão do cache do Google, e reproduzo aqui antes que este belo artigo se perca.

Símbolos e Arquétipos na Umbanda

por Adilson Marques

Em 2001, tive um insight que transformou a minha vida na última década: utilizar os recursos da História Oral para entrevistar “espíritos”. Eu descobri a mediunidade de uma forma um tanto singular. Eu estava no Centro de Estudos e Vivências Cooperativas e para a Paz, uma organização espiritualista que existia na cidade de São Carlos, no interior do estado de SP, quando recebi a visita de dois jovens, com aproximadamente 23 anos de idade cada um. Eles se apresentaram, disseram que gostariam de conhecer o centro e, depois de certo tempo, disseram que eram médiuns kardecistas e que foram me procurar porque um espírito gostaria de falar comigo. Teria sido ele quem tinha dado o meu nome e o endereço onde me achariam. Achei a história bem curiosa e resolvi conversar com o suposto ser incorpóreo.

Fomos até uma das salas do referido centro e um dos médiuns, totalmente inconsciente, deu “passagem” para o espírito e conversamos durante quase uma hora. Foi com a orientação deste ser incorpóreo que fiz o meu primeiro livro, hoje na quinta edição, e que se chama “O reiki, a TVI e outros tratamentos complementares”. Neste livro, entrevisto este e outros espíritos, abordando a opinião deles sobre as terapias complementares ou alternativas, com mais ênfase sobre o Reiki.

Porém, um dos estudos mais interessantes que fiz, nasceu em 2005, após descobrir algo
extraordinário do ponto de vista antropológico e sócio-cultural: um “preto-velho”, ou seja, um espírito que, supostamente, costuma se manifestar e atender consulentes nos chamados “terreiros de umbanda”, fazendo palestras públicas pela Internet e respondendo questões dos internautas sobre as epístolas do apóstolo Paulo, as lições de Krishna para Arjuna, os Sutras budistas, a Oração de São Francisco etc. 

No mesmo ano entrei em contato com o médium para saber da possibilidade de entrevistar “pai Joaquim de Aruanda”. Com sua resposta afirmativa, organizei entre os anos de 2005 e 2007, oito entrevistas com o “espírito”, na cidade de São Carlos/SP. 

Todas foram gravadas em vídeo, totalizando cerca de 28 horas de gravação, sendo boa parte do material sobre a Umbanda, religião medianímica em que os “pretos-velhos” se manifestam.

Tentei transformar este material em uma pesquisa de pós-doutorado, mas não consegui fazer com que o tema seduzisse a mente dos acadêmicos que aprovam projetos nas Universidades brasileiras. Tentei também fazer a pesquisa em algumas Universidades européias, mas também não obtive êxito. O jeito foi fazer a pesquisa de forma independente. Assim, em 2008, apresentei os primeiros resultados dessa prática de História Oral com os espíritos em um evento sobre imaginário na cidade do Recife/PE. 

Apresentei um vídeo chamado “o espírito da pós-modernidade”, que pode ser acessado no youtube e uma primeira reflexão sobre as idéias daquele suposto espírito, em um livreto chamado “Umbanda sem mistificação”, distribuído gratuitamente naquele ano e que, hoje, também pode ser acessado na internet, no seguinte endereço: www.scribd.com/homospiritualis

Tudo o que ele fala sobre a Umbanda é muito interessante, mas um dos ensina-mentos que chamou muito a atenção. Ele afirma que os espíritos que atuam nesta religião medianímica estão representando papeis. Ou seja, a postura que adotam é simbólica. Em outras palavras, não existe um espírito que seja preto-velho, índio ou criança. Mas ele utiliza uma ou outra postura de acordo com a necessidade do consulente e do trabalho que se realiza. Assim, um mesmo espírito pode se manifestar como preto-velho e, em seguida, como um índio. Para o consulente seriam duas “entidades” diferentes, mas, segundo afirma, pode ser o mesmo espírito representando dois papeis distintos.

Essa questão das posturas se torna mais compreensível quando estudamos a sua simbologia. Em primeiro lugar, é importante ressaltar que há, segundo a fala do espírito pai Joaquim de Aruanda, uma diferença entre “entidades” e “espíritos que são auxiliados”. 

Por exemplo, quando se manifesta um “espírito sofredor” ou “obsessor” para ser esclarecido, não estaríamos diante de uma “entidade”. Somente os pretos-velhos, caboclos, crianças etc. é que são considerados “entidades”, por ele, uma vez que, em tese, possuem consciência do papel que estão representando.

Em segundo lugar, precisamos compreender a diferença entre o símbolo e o arquétipo. Ou seja, enquanto o arquétipo é universal e atemporal, o símbolo manifesta uma dimensão sócio-cultural. E isso fica bem evidente na Umbanda, comparando os ensinamentos transmitidos pelo espírito pai Joaquim de Aruanda com uma experiência vivenciada por um amigo umbandista que regressou recentemente do Japão.

Este meu amigo, enquanto estava no extremo oriente, foi convidado pela espiritualidade para organizar uma gira de Umbanda. Ele narra que, ao invés de pretos-velhos, manifestaram-se no trabalho velhos monges budistas. E, ao invés dos famosos caboclos (índios), foi surpreendido pela incorporação de samurais.

Ao me contar este fato, consegui compreender a dimensão simbólica das posturas adotadas pelos espíritos na Umbanda e a dimensão arquetípica que possuem. Ou seja, apesar da roupagem simbólica diferente, podemos notar que o arquétipo permanece o mesmo, não importa se o trabalho é realizado no Brasil ou no Japão. Se atentarmos às formas simbólicas, apreenderemos sua essência. Tanto lá como cá, as três posturas básicas manifestam o arquétipo da criança (felicidade), do adulto (coragem) e do ancião (sabedoria). Lendo o Sermão da Montanha, podemos notar que entre os que vão “herdar o reino de Deus” (os pacíficos, os mansos, os puros de coração etc.) há também forte analogia com os três arquétipos acima, o que é um forte indício que o planejamento da Umbanda no Astral como uma nova religião medianímica soube como relacionar os ensinamentos cristãos e todo o contexto sócio-cultural brasileiro, onde a Umbanda nasceu.

No caso do Japão, qual seria a necessidade de um preto-velho ou de um índio se manifestar para o consulente, cuja cultura é muito diferente da nossa? Enfim, por serem posturas simbólicas, ou seja, o “espírito” sabe que representa um papel, como se fosse um ator em cena, lá o arquétipo permanece, mas é vivenciado de outra forma. Daí o uso de símbolos que remetam ao cenário sócio-cultural japonês. Nesse sentido, fica compreensível o fato do índio ter sido substituído pelo samurai e, o preto-velho, por um monge budista.

Ao invés de um culto irracional ou de pessoas ignorantes, como as pesquisas antropológicas apontam, ou um culto de espíritos inferiores e obsessores, segundo muitos kardecistas, a Umbanda é uma arte medianímica que sabe bem como utilizar os recursos simbólicos e imagéticos para esclarecer, consolar e levar ensinamentos crísticos para os seus consulentes.

Adilson Marques é doutor em Antropologia das Organizações e Educação pela USP e autor de 18 livros, entre eles, “História Oral, Imaginário e Transcendentalismo: mitocrítica dos ensinamentos do espírito pai Joaquim de Aruanda, que pode ser acessado gratuitamente em www.scribd.com/homospiritualis. Vídeos com a gravação das entrevistas e outros podem ser acessados em www.youtube.com.br/homospiritualis.


Por: Diego Silva