30 de dez de 2015

Pai de Santo

preto velho umbanda vó maria congaNas andanças em terreiros, vamos analisando e isso não é pecado e também não estamos fazendo julgamento.  Mas temos visto muitas posturas equivocadas em relação ao papel de alguns pais de santo, vou citar alguns que eu observo.

O papel do pai de santo bem entendido e bem vivido, é aquele em que o dirigente do terreiro não manipula a vida de seu filho, não interfere de maneira tão ostensiva na vida do filho, burlando a capacidade do filho de pensar, de tomar suas próprias decisões, de analisar suas próprias atitudes.

Muitos pais de santo estão utilizando o seu cetro, esse poder que a abertura da casa lhe deu, para subjugar seus filhos, para fazer de seus filhos de santo, seres manipulados, manietados, esquecidos de que são capazes de tomar suas próprias decisões, utilizando seu livre arbítrio, sem ficar tão dependente do jogo das cartas, dos búzios, sem tanta dependência da consulta ao pai de santo. Muitos filhos, se vão decidir algo que é tão simples, para ele enquanto ser humano, como se caso ou se compro uma bicicleta, esse liga para o pai de santo, se vai mudar de
casa ou comprar um novo apartamento, liga para o pai de santo, se vai trocar de carro, liga para o pai de santo e esse cada dia mais vai fazendo de seu filho um ser inseguro e medroso, dependente e manipulado.

O papel do pai de santo é como o papel da águia, que empurra seu filhote ninho abaixo, para que ele aprenda a voar e muitos pais de santo, agem totalmente o contrário e cortam as asas de seus filhos, impedindo que ele voe, pelo medo de perder o poder de seu cetro. Muitos terreiros, formam filhos de santo tartarugas, os filhos sabem o que é isso? Vou explicar: a tartaruga é um animal oposto da águia, ela quando se vê diante do perigo ou do desafio, enfia sua cabeça para dentro do casco, vários filhos de terreiro estão agindo assim, muitos pais de santo criam seus filhos assim.

E muitos poderão me perguntar: - Vó e qual é o motivo disso? A veia pode responder, que são muitos e vou falar de alguns. Muitos pais de santo, estão ociosos, montam seus terreiros e vivem somente para ele, cobrando ou não seus trabalhos, suas consultas, seus jogos de búzios ou de cartas e aqui não estou a julgar, o desejo da velha é fazer os fios refletir, então se tornando sem outro objetivo, sem outro afazer, passam a controlar a vida de seus filhos, passam a manipular, mesmo que não seja esse o interesse.

Muitos pais de santo temem que os filhos voem e sigam caminhos mais independentes e vão mantendo seus filhos sempre embaixo de suas asas, sem entender que seu grande papel é ajudar o filho a voar, mostrando a seu filho de santo que ele estará ali, quando ele sozinho não conseguir, que ele, enquanto pai de santo, estará para ajudar o filho.

Têm muitos motivos, outro deles é que o pai de santo não incentiva seu filho a estudar, porque teme que sua mente seja clareada e esse comece a questionar, comece a passar pelo crivo da razão as suas atitudes, quando diz que tem trabalho de amarração para todo consulente, lesando o e utilizando o dinheiro desse, que vem cheio de dor em busca de alívio, para seus interesses. Muitos pais de santo não buscam a leitura enobrecedora, ou se leem não aplicam para si, achando que seu papel está correto, sem fazer uma análise de práxis umbandista, muitos deles quando chamado à razão, tem um rosário de justificativa, dizendo que não controla a vida do filho, que não manipula o filho do terreiro, que respeita o livre arbítrio, mas não aceita a observação de um filho que é mais observador, o colocando de lado no terreiro, que não aceita nem mesmo quando o alerta vem das entidades. Muitos pais de santo se tornam mal visto pela família, pelo namorado ou pela namorada do filho de santo ou da filha de santo, porque esse rouba o tempo inteiro o tempo que é da família, que também é precioso para o filho poder respirar, poder pensar. Passam a ser mal vistos porque não percebem, que tudo tem que ter um equilíbrio e que ele, não pode e não deve se infiltrar na vida do filho dessa maneira, tirando dele algo que é tão importante, a liberdade de viver, de pensar e de agir sem a sua interferência que às vezes pode ser prejudicial.

E muitos podem perguntar, vó e porque o filho permite isso tudo? Por que cada um dá o que tem e tudo o que extremo faz mal, tudo o que é demais, filho, isso é sobra. Muitos filhos são dependentes, inseguros, medrosos e quem não é? Muitas vezes temos medo de tomar decisões, mas o filho precisa ter a coragem de decidir, mas prefere a opinião do outro, prefere a decisão do outro, porque se falhar, esse, o filho poderá dizer que foi culpa do pai que o aconselhou errado e muitos outros motivos. Muitos filhos têm preguiça de pensar, de fazer, de se analisar, então correm para o pai de santo e esse, que ainda não entendeu qual é o seu verdadeiro papel, se vendo como imprescindível, apesar de ser humano, vai manipulando a vida de seu filho de santo, impedindo que esse cresça, assim como ele, o pai de santo, também não cresceu.

- E como isso termina vó? A velha já viu muitos finais infelizes nessas relações adoecidas entre filho e pai de santo.

Certa vez um pai de santo, manipulava tanto o filho, que esse foi deixado pela esposa e a família. Depois de muitos anos, esse percebeu que o pai de santo era manipulador, que controlava mais do que devia a sua vida, que passava dos limites normais de um zelador de terreiro; que esse não tinha outros afazeres e passava o dia a ligar, a falar com os filhos, para poder se ocupar, que passava a interferir em relações que não era ou que não deveria ser tão da sua alçada e o filho rompeu com muita magoa por aquele que havia sido seu pai, seu protetor, seu manipulador.

Então o que quero deixar aos filhos de santo, aos filhos de terreiro, é para que possamos refletir: Pai de santo, não é santo, ele é humano e que o filho saiba enxergar isso, sem tantos melindres, que o pai de santo, também possa descer do tijolo da vaidade e perceber, sem tanta dor, que ele é humano e não um deus, que ele erra e que cabe a ele fazer estudo sim, que é obrigação dele, enquanto pai de santo, ler, estudar, pesquisar, entender e atuar dentro do que significa ser Pai de Santo, sem ser perfeito e sem o sofrimento de entender que está também no processo de aprendizagem.

Filhos tenham as mentes mais abertas para o estudo, para entender o que nos disse o Cristo, que tenhamos fé raciocinada e não uma fé cega. Não endeusemos os pais de santo, olhemos para eles com carinho e respeito, entendendo que são seres humanos, que são nossos guias, mas sem a perfeição do Cristo.

Pais de santo, ensinem seus filhos a voarem, empurrem eles para fora do ninho e estarão fazendo bem vossos papéis e que os filhos entendam que o pai de santo não pode e não deve ser seu guru, seu ídolo. Não dê santidade a seres de barro, somos todos nós seres imperfeitos e estamos todos, em processo de evolução, em processo de aprendizagem, encarnados ou desencarnados. Perfeito é somente o Cristo, nenhuma entidade tem a perfeição, nenhum ser humano deve querer ser visto dessa maneira.

Que possamos refletir sem melindre, sem mi mi mi...


Por: Vó Maria Conga/Edleusa Tavares (Médium do Cantinho de Francisco de Assis)