4 de nov de 2015

Incorporação não é possessão

Na grande maioria das religiões, o fenômeno que chamamos de “incorporação” não é algo desejado e, assim, quando alguém entra em transe, geralmente, é algo contra a sua vontade. Por este fato, se usa o termo possessão e se afirma que tal pessoa está possuída. A própria palavra implica em algo que está sendo tomado à força, uma agressão. Assim é, por exemplo, no catolicismo, em que quando alguém é possuído ou tomado, logo isso é reconhecido como uma possessão demoníaca e o caminho mais indicado é fazer um exorcismo. Nas religiões Pentecostais, é costume incorporar o espírito santo e falar em línguas, o que também é um fenômeno de transe. Ainda neste seguimento, também se faz exorcismos dos capetas ou demônios que podem estar atrapalhando a vida de alguém. Nas novas religiões evangélicas brasileiras, houve uma demonização das entidades de Umbanda, especialmente Exu e Pomba Gira, e assim, é comum que os adeptos incorporem estas
entidades como se elas fossem demônios que necessitam ser expulsos. O que, do ponto de vista da Umbanda, é um absurdo claro.

Este quadro em torno do transe, aqui chamado de possessão, faz com que se crie um grande quadro imaginário em torno do que chamamos de incorporação na Umbanda, o que confunde um pouco, tanto quem é de fora, quanto quem está chegando na religião.

Muitas pessoas chegam aos templos de Umbanda acreditando que serão possuídas pelos guias de Umbanda, acreditam que serão tomadas de si mesmas e que as entidades espirituais entram em seus corpos independente de sua vontade, o que não é verdade - com raras exceções que devem ser analisadas e estudadas, caso a caso, para entender o que de fato está acontecendo. Na Umbanda, o transe de incorporação é algo desejado, o médium quer estar incorporado, o médium quer viver esta experiência, o médium admira e ama os guias espirituais e deseja esta proximidade. Então, quando entramos nesta realidade de Umbanda, em que todos querem incorporar, nos deparamos com o fato de que incorporar não é algo tão simples e que, embora seja para uma grande maioria, não é para todos. Ainda assim, há muitas dificuldades e bloqueios que impedem a incorporação, mas que podem ser trabalhados e neutralizados com um bom desenvolvimento mediúnico.

Assim, podemos definir que a palavra “incorporação” é a mais utilizada para definir este transe em que um médium está manifestado com um guia de Umbanda, o que também cria outras dificuldades com relação à expectativa e ao entendimento que o médium tem sobre o que irá acontecer com ele no momento em que seu guia espiritual se apresentar. A palavra incorporar traz a ideia de que alguém vai entrar em você e, desta forma, a grande maioria acredita que, se alguém vai entrar alguém, tem que sair para dar espaço, e daí mais confusão e conflitos. Afinal, na grande maioria das vezes, quando incorporamos, nosso espírito não sai do corpo para um outro entrar, eles coabitam o mesmo corpo, por isso que o médium deve aprender a ficar quieto e não interferir para que seu guia possa se manifestar. Há inúmeras polêmicas em torno da palavra “incorporação”, no entanto, não há outra palavra que traduza melhor o que acontece, independente do fato de um espírito ter que “entrar” ou não em seu corpo para se manifestar, a sensação de quem está em transe é que alguém está se manifestando de dentro para fora em você.

Embora o espiritismo traga muita luz e estudo sobre as diversas formas de mediunidade, é muito raro encontrar o transe de incorporação no meio espírita, o que mais vemos é a psicofonia, ou seja, a fala mediúnica, que difere do que chamamos de “incorporação”, na qual o médium fica totalmente caracterizado pela forma de manifestação de seus guias espirituais. A racionalização do fenômeno mediúnico é algo bom para seu entendimento, mas a racionalização excessiva pode atrapalhar mais que ajudar, simplesmente porque, no processo de transe e incorporação, há momentos em que o melhor é esquecer de tudo que é racional ou questionável e apenas se entregar, como um amante se entrega a seu amor, sem medidas ou questionamentos infindáveis. 

A incorporação é um ato de amor, no qual o médium tem a oportunidade de unir-se misticamente a seus guias e Orixás. Nas religiões de transe acontece isso, algo muito especial, seus mestres e suas divindades vem à terra e lhe tomam como morada para sua manifestação. O médium em si é um templo vivo recebendo a visita das entidades, as quais ele tem em alta conta dentro do que é sagrado e divino. O mesmo vemos no Candomblé, Catimbó, Pajelança, Tambor de Mina e outras religiões dos seguimentos afro-indígenas-brasileiro. O transe de incorporação é uma das manifestações mais antigas e arcaicas de religiosidade e espiritualidade. Muito antes de haver uma história escrita, os xamãs de todas as culturas já entravam em transe e recebiam espíritos e divindades por meios dos rituais mais variados. A incorporação não é uma invenção de Kardec e muito menos da Umbanda, ou de outras tradições atuais. A incorporação é algo ancestral e visceral no ser humano. Mesmo que encontre uma sociedade em que nenhuma religião de transe esteja presente, sempre haverá pessoas que entram em transe e têm algo de positivo como resultado de uma incorporação.

Por isso tudo e muito mais, podemos dizer que: “incorporação não é possessão” e que é, de fato, algo muito desejado na religião, antes de mais nada, é o pilar de sustentação da Umbanda. Afinal, a própria religião nasceu da incorporação de um espírito chamado Caboclo das Sete Encruzilhadas em seu médium, Zélio de Moraes, no dia 15 de Novembro de 1908. A Umbanda nasceu da prática e não da teoria, no entanto, precisamos e muito da teoria para entender melhor esta prática.


Por: Alexandre Cumino