30 de nov de 2015

Existe religião sem ética? Casos de abusos de fé nas "Umbandas"


O culto aos Orixás no Brasil em suas várias vertentes – diversidade -, inclusive a Umbanda que em muitos terreiros cultua os Orixás na forma africana e não sincretizada com o catolicismo, tem um corpo literário que não é muito conhecido, notadamente no seu aspecto ético.


Afirmamos sempre que nos referimos a Orixá, sejam quais forem as religiões que se formaram na diáspora, que existe um código ético original sustentador, ao contrário do que dizem alguns sacerdotes e pesquisadores da academia. O conhecimento religioso, ético, epistemológico, está registrado em versos (provérbios, parábolas) que são divididos em 16 capítulos ou signos principais. Cada capítulo corresponde a um Odù, que significa destino. Assim são 16 Odùs e cada Odù tem um conjunto variável de histórias contadas em versos, parábolas e provérbios, em verdade enredos pensados pelos diversos Babalaôs (Pais de Segredo) para que os ensinamentos pudessem ser entendidos pelos iniciados e ao mesmo tempo serem velados (protegidos) dos leigos, de fora, não iniciados na confraria de Ifá existente na época. Podemos dizer que cada Odù pode ter até 16 histórias, em tamanhos diferentes que podem ir de poucas linhas até páginas inteiras.

Freqüentemente, ouvimos de espíritas, espiritualistas universalistas e até ditos umbandistas – não todos - que as religiões tradicionais africanas – nos referimos ao culto aos orixás - não são baseadas em nenhum sistema ético. 

Pasmem! Até algumas lideranças no meio afro-descendente da diáspora consideram suas religiões aéticas, o que nos faz pensar que tudo podem fazer que não haverá uma quebra de honradez (decoro) dos seus sacerdotes e adeptos, contrariando frontalmente suas raízes ancestrais. Um grande equívoco que precisa urgentemente ser corrigido, inclusive em algumas “umbandas”. Ao longo dos anos temos recebido relatos verídicos de sérios casos de abusos da fé alheia por sacerdotes venais aéticos. Hoje com o advento das redes sociais, em qualquer lugar com acesso a rede mundial, podemos pedir “socorro” a um irmão em outro terreiro se temos dúvida do que estão se propondo a fazer conosco em nome da religião. Especificamente quanto às “umbandas”, fomos procurados com pedidos de ajuda, de orientação, nos seguintes casos reais, que nos causam estupefação, mas que infelizmente pode estar se repetindo em algum lugar de nosso país:
  1. o dirigente proíbe o médium, do sexo masculino, de incorporar exu feminino, Bonbojira (popular pombagira) no caso da Umbanda, ou no mesmo raciocínio de preconceito e abuso, o sacerdote proíbe o médium de ter uma entidade feminina de frente, como o são as caboclas, afirmando que se isto ocorrer o deixará afeminado. Aqui fica demonstrado o preconceito de gênero (quando a médium é mulher e a entidade masculina não existe nenhuma proibição), transferido para os espíritos, em desrespeito ao médium, o que causa profundo trauma;
  2. o “pai de santo” diz que os banhos de amaci (ritual de lavagem da cabeça com o sumo extraído de folhas maceradas) têm que ser feito sem roupa. Ele “incorpora” o guia chefe e a entidade é quem faz o banho. O dito “pai de santo” é jovem e se diz inconsciente. Tal procedimento não tem nenhum fundamento nos ensinamentos contidos no corpo literário de Ifá e é um claro exemplo de mistificação;
  3. o chefe de terreiro exige que os médiuns façam a consagração com Exu. Para tanto, as médiuns mulheres, uma de cada vez, terão que incorporar a sua “pombagira” e ele, incorporado do seu “exu”, deverão ter relações sexuais. Tudo terá que ser guardado em segredo e acontecerá durante o período de recolhimento individual para aplicação dos rituais.
  4. Infelizmente estes relatos são recentes e reais, ocorreram em terreiros que se dizem de “umbanda” neste Brasil, contrariando frontalmente o corpo ético e literário de Ifá. Ao contrário do que muitos pensam, a moralidade africana – nagô - é fruto da religião. 
Obviamente que imoralidade não dá sustentação em nenhum sacerdócio. Numa sociedade que ainda ser educado é ser europeizado, nós umbandistas ainda somos vistos como ignorantes, analfabetos e sem cultura. Os casos relatados só contribuem para que sejamos mais preconceituados do que já somos.

Lamentavelmente, os princípios de educação e formação moral baseados no bom caráter, contidos no corpo literário de Ifá, que deveriam ser aplicados em todos os sentidos da vida, que inclui o respeito aos mais velhos e as tradições ancestrais, lealdade, honestidade e assistência aos necessitados, estão esquecidos em muitos – não todos – que são simpatizantes do culto aos Orixás por dentro da Umbanda – ou “umbandas”, tantas são as facetas ainda incompreendidas da Senhora da Luz velada em​​nossa pátria.​

Axé​, 


Por: ​Norberto Peixoto