30 de out de 2015

Me chamaram para entrar no Terreiro. E agora?

Queridas leitoras e queridos leitores,

Tenho recebido muitas mensagens de pessoas que estão começando o seu caminho na Umbanda, seja no Brasil ou em outros países, e têm dúvidas sobre algumas questões bastante relevantes. Geralmente as dúvidas que as pessoas colocam são idênticas, ou muito parecidas. Creio que são questões que a maior parte das pessoas
que começam na Umbanda têm (eu inclusive!), e por isso, neste texto, resolvi abordar algumas delas.

Longe de mim saber a resposta ideal ou correta para estas ou outras questões da nossa religião. Minha intenção é apenas incentivar a reflexão e, quem sabe, ajudar-vos a encontrar uma resposta nos vossos corações.

1 – Fui convidado/a para integrar a corrente mediúnica de um Terreiro. E agora?

Quando uma pessoa é convidada para integrar a corrente mediúnica de um Terreiro de Umbanda (passar a fazer parte do grupo de médiuns, ficando do lado de dentro de tronqueira), surgem imediatamente muitas dúvidas e anseios. Passar da assistência para o “lado de dentro” é um passo muito grande e têm muitas implicações. Por não saberem exatamente o que isto implica, muitas pessoas ficam em pânico, confusas, amedrontadas, acham que têm a obrigação de aceitar este chamamento e que a vida delas vai mudar radicalmente.

O primeiro conselho que eu posso dar é: tenha calma! Quando este convite é feito, ninguém, em circunstância nenhuma, é obrigado a aceitar. Algumas pessoas não se sentem preparadas ainda ou não se identificam com o Terreiro em questão. Por isso a recusa é totalmente legítima e a vida delas não vai desmoronar (não mesmo!) por causa disso. Por isso, mesmo diante da surpresa, da animação e da excitação pela possibilidade de integrar a corrente mediúnica, é importante ter calma e pensar muito bem nos prós e contras de dar este passo, com calma, com tempo, com o coração.

Agora, falando sobre o que implica passar para o lado de dentro, algumas pessoas acham que implica somente passar a ir de roupa de branca e chegar um pouquinho mais cedo às sessões. Mas não é só isso, de todo! Mais do que tudo, passar para o lado de dentro significa assumir um compromisso, consigo próprio, com a casa, com a família espiritual daquela casa e com as suas próprias entidades. Significa estar interessado e disponível para as atividades de desenvolvimento mediúnico, de caridade, para as Giras e outras atividades daquele Terreiro. Significa, também, estar disponível para organizar, limpar e ajudar nas tarefas de preparação do ambiente para os trabalhos espirituais que são realizados. Aqui também impera a liberdade de cada um, e o seu desenvolvimento vai caminhar conforme o seu interesse e dedicação. Há quem chegue no dia da Gira, coloque a roupinha branca, participe dos rituais e logo a seguir vai embora. Há quem faça tudo isso e, para além, se preocupa em chegar mais cedo para limpar o chão e o Congá, arrumar as flores, organizar a assistência, fazer a sustentação energética durante a Gira, ler e estudar a religião de Umbanda, propor matérias interessantes para serem estudadas no Terreiro, etc. O certo e errado, melhor ou pior em tudo isso, caberá à consciência e coração de cada um dizer.

2 – O que fazer parte de um Terreiro de Umbanda vai mudar na minha vida?

Passar a fazer parte de um Terreiro de Umbanda não significa que você vai ter que fazer dezenas de oferendas por semana, mudar a forma como se veste no dia-a-dia, andar por aí com 50 guias no pescoço, deixar de ter vida social ou passar a incorporar espíritos sem nenhum controle, em qualquer lugar. Não é nada disso. Quando fazemos parte de um Terreiro de Umbanda, temos a oportunidade de vivenciar mais intensamente os fundamentos desta religião e o intercâmbio entre o mundo físico e o mundo espiritual, que nos proporciona uma enorme ampliação da consciência. Mais do que qualquer outra coisa, a Umbanda tem como objetivo auxiliar os seus seguidores a compreender e aceitar que todos os espíritos são uma expressão divina, que a vida é muito mais do que isso que vemos e tocamos no plano físico, que a caridade é uma forma de redenção e de perdão, que é possível e desejável agirmos sempre com amor, respeito e entendimento do próximo e de nós mesmos/as.

Fazer parte de um Terreiro de Umbanda é tentar, todos os dias, ir para o trabalho e não pensar mal do colega, é perdoar a ofensa que um amigo lhe dirigiu, é ir para a Gira e não fazer fofoca dos irmãos de Terreiro, é compreender e respeitar os problemas que as pessoas da assistência trazem e para os quais pedem ajuda. Se, para além disso, você quiser realizar as oferendas, andar com uma ou outra guia, optar (sim, optar, não ser obrigado) a vestir sempre uma peça de roupa branca, ou parar de fumar, ou de beber álcool, excelente, tudo isso vai contribuir para o seu crescimento! Mas não sinta que tudo isso seja uma obrigação.

Isso tudo parece muito clichê, mas não se pode fugir disso. Seguir os fundamentos da Umbanda significa trabalhar para ser uma pessoa melhor nesta encarnação, com a ajuda daquilo que se vivencia no Terreiro, das experiências de incorporação, do aprendizado da religião, das mensagens das entidades espirituais, e assim por diante.

3 – Como saber se o Terreiro que eu frequento é o certo para mim?

Esta questão é muitíssimo frequente. Sobretudo no início, as pessoas sentem muita dificuldade em identificar o que é bom e o que pode ser censurável num Terreiro.

O primeiro aspecto a ter em conta é que os Terreiros de Umbanda podem seguir os mesmo fundamentos religiosos, mas apresentarem grandes diferenças entre si. Alguns podem ser mais africanizados, incorporando fundamentos do Candomblé, outros mais esotéricos, ou com alguns fundamentos do Xamanismo, e assim por diante. Não há certo ou errado em cada um destes exemplos, são todos válidos e a decisão de frequentar um Terreiro mais para um lado ou mais para o outro é de cada um. A Umbanda é uma religião em formação e não existe uma norma a que todos os Terreiros devem seguir, isto dependerá de cada dirigente e do corpo mediúnico.

Para entender o que é importante num Terreiro de Umbanda, é fundamental saber o que é Umbanda. Por isso, estudar os fundamentos da Religião é fundamental e nos ajuda a decidir se queremos seguir as práticas adotadas num ou noutro Terreiro.

Apesar de haver muitas opiniões divergentes, vou enumerar alguns aspectos que, na minha opinião, são censuráveis e sobre os quais você deve ter atenção:

• Umbanda é a manifestação do espírito para a prática da caridade. Por isso, os trabalhos espirituais não são cobrados dos consulentes. Se o Terreiro que você frequenta ou pretende frequentar cobra entrada das pessoas, ou cobra pelos tratamentos, tenha atenção e analise esta questão de acordo com os fundamentos da religião.

• A Umbanda não realiza trabalhos de amarração amorosa, de magia negativa, de fechamento de caminhos, de vingança ou similares. Existem trabalhos espirituais nestas linhas, são todos possíveis e trazem resultados (mas estarão sujeitos às Leis de Causa e Efeito), mas definitivamente não fazem parte da religião de Umbanda.

• Os médiuns são livres para escolher entrar e permanecer num determinado Terreiro. Se no seu Terreiro existem histórias de pessoas que sofreram represálias por manifestarem a vontade de sair, ou que os médiuns ou dirigentes fizeram trabalhos de magia negativa contra as pessoas que saíram ou se recusaram a entrar, fique alerta e pondere se quer fazer parte deste ambiente.

• A Umbanda não determina que os dirigentes espirituais (Pais e Mães de Terreiro) guardem para si os seus conhecimentos sobre a religião. Dirigentes que se recusam a explicar os rituais, que exigem trabalhos e oferendas dos médiuns sem razão aparente e que se colocam numa posição de superioridade adotam uma postura censurável. Apesar de poderem ter a sua mediunidade mais desenvolvida, ou de terem mais experiência na prática da religião, os dirigentes não são superiores a nenhum médium e é desejável que adotem uma postura de humildade, acolhimento e compreensão quanto a estes, ajudando-os a evoluir no seu caminho e não tentando bloquear o seu crescimento espiritual plantando a ignorância e o secretismo dos rituais.

4 – Onde posso buscar informação sobre a Umbanda?

O estudo da Umbanda é fundamental. Estando no Brasil ou fora, há uma série de cursos, livros, vídeos no Youtube, jornais e revistas online e uma série de outros recursos aos quais podemos recorrer. Procure, vá atrás, hoje em dia não há desculpas!

Compreender o básico das manifestações espirituais também é bastante importante. Por isso, é recomendável, para começar, o estudo das obras de Allan Kardec (especialmente o Livro dos Médiuns e o Livro dos Espíritos), mas sempre tendo em atenção que estes livros falam de alguns aspectos aceitos pela doutrina Espírita, e não pela doutrina Umbandista. É preciso ler com algum juízo crítico e, em caso de dúvida, falar com pessoas mais experientes.

Deixo aqui algumas dicas de estudo:


  • Livros de Allan Kardec, que nos ajudam a compreender fenômenos como a mediunidade, a manifestação de espíritos através da matérias, a reencarnação, dentre outros;
  • Romances espíritas ou psicografados, que sempre nos dão uma valiosa lição de vida;
  • Cursos de doutrina umbandista, como o Curso de Teologia de Umbanda Sagrada do Mestre Alexandre Cumino, trazem um conhecimento muitíssimo profundo sobre a religião;
  • Livros do Mestre Rubens Saraceni, todos, sem exceção!
Estes recursos já têm informação para uma vida inteira de aprendizado!

5 – Não sei se quero incorporar, tenho algum receio. Posso ser Umbandista?

Incorporar, incorporar, incorporar. Esta é a grande questão para quem quer fazer parte do mundo umbandista. Ou porque não quer incorporar, ou porque quer incorporar já, agora, sem demora, e quanto mais melhor.

A mediunidade de incorporação é fundamento e parte inseparável da religião de Umbanda, mas não é o seu único recurso. Eu, por exemplo, tenho irmãos de Terreiro que nunca incorporaram, não querem desenvolver a mediunidade de incorporação, e ainda assim realizam um trabalho exemplar nas Giras. Como? Aqui vão alguns exemplos:

  • Trabalhos de organização, que são absolutamente essenciais: limpeza, compra de materiais, organização da agenda de trabalhos, organização da assistência e do atendimento dos consulentes. Não tem como fazer um bom trabalho num Terreiro sujo e desorganizado, por isso essas tarefas são importantíssimas. E através da sua dedicação e participação dos trabalhos realizados nas Giras estes irmãos também aprendem muito e crescem espiritualmente.
  • Sustentação energética dos trabalhos espirituais, como fazer a sustentação na Tronqueira ou dos consulentes enquanto os médiuns incorporados realizam o seu trabalho de limpeza e aconselhamento.
  • Cambonar (auxiliar os médiuns que estão incorporados), que é um trabalho indispensável. Os cambonos auxiliam os médiuns incorporados providenciando aquilo que eles necessitam para trabalhar (pegar as velas, acender o charuto, entregar a pemba) e também ajudam com a sustentação energética do trabalho da Entidade incorporada. Os cambonos acompanham de perto o trabalho das Entidades e conseguem aprender muito sobre a ritualística da Umbanda e sobre a vida como um todo, através dos trabalhos e aconselhamentos que são passados aos consulentes.