9 de jul de 2015

Ciranda cirandinha


Zambi nos olha e o Verbo pronuncia:

"Tsc, tsc, tsc... Os pequenos continuam com suas travessuras sem fim".

Estamos parados?

Estamos letárgicos?

Vivemos ad eternum o mito da Caverna de Platão?

Continuamos acorrentados vendo os vultos e sombras na parede da caverna?

Estaticidade...

Desde que li e ouvi essa palavra pela primeira vez que ela assombra o meu viver religioso.

Estaticidade é o mesmo que uma mosca presa na teia de aranha, querendo se libertar e por mais que tente, a teia a impede de alçar voo.

Existe também uma parábola que conta a seguinte estória:

"Era uma vez uma mosca, que ao fazer seu passeio matinal se aproxima de uma teia de aranha. A senhora aranha não se faz de rogada e convida-a a pousar e descansar na sua casa. A mosca esperta diz: 'Não farei isso, pois não vejo outras moscas em sua casa'. Continuando seu voo olha para chão e vê uma quantidade muito grande de moscas descansando sobre um pedaço de papel. Alegre por encontrar as companheiras começou a descer para se juntar a elas. Uma borboleta que passava disse para mosca: 'Não faça isso amiga mosca, não está vendo que aquilo é um papel mata-mosca?'. 'Que papel mata-mosca que nada! Não está vendo que elas estão dançando', replicou a mosca. A mosca então desceu, posou no mata-mosca e ficou prisioneira junto com as outras. Pobre mosca ela queria apenas se identificar com a multidão".

O cantor e compositor Belchior é que tem razão:

"Minha dor é perceber 
Que apesar de termos 
Feito tudo, tudo, 
Tudo o que fizemos 
Nós ainda somos 
Os mesmos e vivemos 
Como os nossos pais..."

Repetimos histórias, ou melhor damos sequência as histórias que nos antecederam. Seguimos pelo mesmo caminho que outros já seguiram, é mais seguro, é mais confortável. Para que mudar as coisas? Para que fazer diferente? Nada é mais estável que a boa e velha vida de gado.

Andamos em círculo e não é por causa do xirê!

Se xirê remete a brincadeira, festa, roda etc, estamos brincando de quê? Brincando de macumba?

Para mim Umbanda é trabalho, trabalho, trabalho, a palavra (estudo e preleção), atendimento, atendimento e atendimento.

O resto é adereço, alegoria, fantasia e festa. Enfim o periférico não pode obnubilar a essência. É por isso que tem terreiros, que vivenciam situações difíceis. Esmagados pelo peso de manterem suas portas abertas, preocupados em serem reconhecidos pela coletividade umbandista local e esgotados por tentarem atender em vão as prioridades (geralmente periféricas) dos seus filhos espirituais. Extenuados, por esses motivos acabam, sem querer, não conseguindo fazer a lição de casa. Com isto, a simplicidade de ter o seu povo reunido pelo prazer, alegria, o amor e a congregação da fé ao realizar uma gira de caboclos, de pretos-velhos, de criança, exú e pombagira entre outras falanges, que sem outro objetivo vem a terra para trabalhar, fica quase que obstruída ou sem chance para acontecer pelos motivos certos.

Eu poderia enumerar um rol sem fim de coisas que nos enredam cada vez mais na estaticidade.

Mas ando cansado de ser uma voz perdida em um deserto árido. Na verdade muito cansado!

Estou quase me rendendo ao papel mata-mosca, ou talvez, tenha sido melhor eu ter aceitado o convite da aranha e ficado em sua teia sozinho como era o desejo dela.

Enfim, eu tô ficando velho e um velho rabugento e resmungão.

Vocês que são mais novos façam diferente, façam acontecer!

Brinquem, mas brinquem com fé!

Jesus disse: "Vinde a mim todas as criancinhas, porque delas é o Reino de Deus" (MT 19:14).

Precisamos voltar a ter o espírito das crianças em sua simplicidade, pureza e alegria pelo prazer da fé.

Deixemos todo resto para o mercado e seus mercadores, para os portadores da Síndrome da Mosca Azul(apego ao poder e a vaidade), eles sim já exaltados e auto-recompensados aqui deste lado da vida conhecerão o ‘ranger dos dentes’ do outro lado.

Portanto, boa sorte aos novos! Zambi que abençoe a todos!

Enquanto vocês tentam, eu fico por aqui, cantando:


CIRANDA, CIRANDINHA, 
VAMOS TODOS CIRANDAR, 
VAMOS DAR A MEIA VOLTA, 
VOLTA E MEIA VAMOS DAR.


Por: Pai Caio de Omulu