26 de jun de 2015

Palavras de Exu Rei

Vocês, irmãos da África, me tratam como um rei.

Como se homem e natureza fossem coisa à parte.

Como se eu não houvesse caminhado faminto e exausto pela mesma planície do tempo.

Como se eu não houvesse resvalado nas mesmas pedras e sufocado nos mesmos desertos sem vida.

Como se nossas tribos fossem diferentes de qualquer outra tribo.

E nossos reinos mais ou menos ilusórios do que as brumas que prometem chuva, e não trazem…

Vocês me saúdam como um deus, mas eu sou apenas antigo.


Tão antigo quanto à luz que ainda hoje ilumina as festas de suas tribos.

E traz a herança de outras moradas na noite infinita.

Há sim, irmãos, muitas áfricas nessa imensidão…

Se sou um deus, saibam que também são!

E quando virem um de nossos irmãos suplicando por pão e água na soleira de suas portas, ajudem-no.

Tratem-no como a um rei.

Que todos somos reis de nossa própria história.

E cabe somente a nós comandar aos exércitos da alma.

E desbravar os territórios desconhecidos de nós mesmos…

Se sou um deus, saibam que também sofro!

E quando ouvirem um de nossos irmãos expirando o último tanto de ar dos pulmões, saúdem sua morte.

Pois é um deus quem vai.

Mais um deus que segue seu caminho, como a água das chuvas e dos rios…

Se sou um deus, saibam que também amo!

E quando ouvirem um de nossos irmãos inspirando o primeiro tanto de ar nos pulmões, saúdem seu nascimento.

Pois é um deus quem chega.

Mais um deus que segue seu caminho, como as estrelas cadentes a bailar pelas galáxias…

Vocês, irmãos da África, me tratam como um rei.

Mas em toda essa imensidão de tribos e estrelas da noite eterna, há somente um Rei.

Aquele que é Pai e é Mãe.

Aquele que joga sua rede no rio do Cosmos, e aguarda pacientemente.

E fisga um tanto de almas de cada vez…

Laroiê Exu Rei, Laroiê Exu Odara!

***

Obs: Acho conveniente citar um breve trecho do artigo de Marcelo Del Debbio sobre Exu:

“Assim como Hermes, Exu é o mensageiro dos deuses, seu poder é o de receber e transportar os pedidos e oferendas dos seres humanos ao Orum, o Mundo dos Deuses. É o Senhor dos Caminhos, das encruzilhadas, das trocas comerciais e de todo tipo de comunicação. Ele representa também a fertilidade da vida, os poderes sexual, reprodutivo e gerativo. Não podemos nos esquecer de que o sexo, diferentemente do que os católicos e evangélicos dizem (uma coisa de luxúria, de pecado), é na verdade um ato sagrado. Talvez por isso, por ele ser o poder sexual, os cristãos o comparem com o Demônio.
A origem do mito de associação de Exu com o Diabo vem dos Jesuítas. Quando os escravos estavam fazendo o sincretismo de suas religiões africanas com os Santos Católicos, os Jesuítas desconfiaram que havia alguma coisa errada… nas religiões africanas, não existe a figura do diabo, apenas de deuses com características humanas. Então eles encontraram um símbolo fálico representando o Exu e tiveram a “brilhante ideia” de associar o pênis ereto com o sexo (pecado) com o diabo para completar o panteão católico.
Adicione dois séculos de deturpação católica e (posteriormente) evangélica e temos a imagem do Exu como ela é nos dias de hoje.
Sem falar que normalmente a figura do Senhor Exu é colocada com chifres, rabo, pintado de vermelho, imagem bem parecida com a que os cristãos “desenham” o Diabo… Então, o Exu verdadeiro das religiões africanas nada tem em comum com o diabo lúdico, e as esquisitas estátuas comercializadas e utilizadas arbitrariamente em terreiros são frutos da imaginação de visionários que não enxergam nada além das manifestações dos baixos sentimentos em formas deprimentes, nos seres que lhes são afins.”


Por: Rafael Arrais