29 de mai de 2015

Exu e o ego

Dois amigos se orgulhavam muito de sua amizade e lealdade, eram vizinhos.

Viviam bem, mas não realizavam oferenda a Exu.

Certa tarde, se encontravam os dois, como de costume, conversando nos limites de sua propriedade, quando Exu passou por entre eles, usando um chapéu metade branco e metade vermelho.

Estranhando aquela figura entre eles, um comentou com outro:

- Muito estranho aquele homem de chapéu vermelho.

- Chapéu vermelho, não. O chapéu era branco.

E assim passaram a discutir a cor do chapéu entrando em briga e inimizade.

Esta é uma das lendas mais populares e conhecidas de Exu.

Muitas vezes, Exu parece ser “o espírito de porco” na mitologia nagô-yorubá, mas o que não nos damos conta é que ele vem, também, para mexer e cutucar o nosso ego.

O fato dos homens não fazerem oferenda a exu diz muito a seu respeito, pois quem não oferenda exu, não oferenda a ninguém, que passa uma ideia de auto-suficiência com relação ao sagrado. Neste universo, dos Orixás, dizer que não se oferenda Exu, culturalmente em sua origem Nagô (Yorubá) é o mesmo que afirmar não ter religião. Seria o mesmo que um católico dizer que não vai à missa ou que um muçulmano afirmar que não segue os preceitos dos cinco pilares de sua fé. Deste contexto é que vem o fato de estar desprotegido e mitologicamente isto ser visto como uma afronta a exu que aqui representa as forças do destino em relação ao seu Ego.

O “outro”, este “amigo”, também pode representar o alter ego daquele que tem apenas a si mesmo como amigo e não faz oferenda a Exu. Esta situação aparece bem figurada no filme “Besouro” em que Exu aparece para o personagem principal, que lhe pergunta: “O que você quer?”. Exu lhe chama de orgulhoso, vaidoso e diz que quer reverência. Ou seja, para exu bastava bater cabeça, curvar-se, e se colocar em gesto de humildade perante ele para receber sua proteção. Enquanto o outro personagem, Chico, revoltado com seu destino chuta a oferenda de Exu. Ali Chico não está chutando apenas algo de Exu, está chutando todos os valores sagrados de sua cultura, está chutando todos os valores de seus ancestrais, está chutando a fé de um povo. Algo bem parecido com o pastor que anos atrás chutou Nossa Senhora Aparecida em rede nacional. Lembrando que no filme o que se relata é um tempo em que não havia televisão, talvez a feira fosse o maior encontro social no contexto e Chico estava indo para a feira.

Exu nos lembra o tempo todo que vivemos em sociedade e precisamos uns dos outros, para bem viver, já que o ser humano é um ser relacional, que não existe fora da malha dos relacionamentos.

Por isso, se diz que “na Umbanda, sem Exu não se faz nada”, o que não se limita a ele apenas, pois é Exu que abre a porta de comunicação deste mundo para outro mundo, entre o ayê (a terra) e o orun (o céu).

Quanto aos dois amigos, o orgulho de uma amizade também pode ser elemento da vaidade humana que é colocada em xeque quando é questionada a verdade de cada um.

O que vale mais: Estar certo, ter razão ou ser feliz?

Ser feliz é sempre um desprendimento do ego, e sempre que falamos de exu os egos alheios se exaltam, principalmente quando dizemos que Exu faz o BEM.

Sabemos que Exu é Justo, que está acima do bem e do mal, mas ainda assim sabemos que na Lei de Umbanda, e é o que nos interessa, Exu só deve ser evocado, invocado, clamado e chamado de bom coração e com boas intenções. Durante uma gira de Umbanda, quando exu está incorporado dando consulta o seu trabalho é sempre no sentido de ajudar, amparar e esclarecer. Alguém que chega mal intencionado e procura exu para prejudicar o próximo é alguém que está preso, acorrentado e escravizado no próprio EGO. E na Umbanda Exu também informa, esclarece e conscientiza de que tudo o que desejamos e fazemos ao próximo volta para nós mesmos.

Exu é o meu melhor amigo!

É ele que me ampara na subida e na descida! Com Exu não importa se vamos ao céu ou ao inferno, importa apenas que estamos caminhando com fé em nosso próprio destino! No céu ou no inferno com Exu, estamos servindo a Deus! Exu pode sim descer nas trevas, pode até se instalar nas trevas, mas Exu não é trevas em hipótese alguma. Quando Exu desce nas trevas é para levar a Lei e a Luz, falando a mesma língua e se manifestado no mesmo universo da realidade em que se encontrar.

Quanto às lendas, são metáforas da vida que apresentam arquétipos semelhantes aos nossos e repetem as situações pelas quais nos deparamos nas nossas vidas. Cabe a nós, Ler, interpretar e compreender o seu simbolismo.

Para saber mais vamos estudar, aprender, interpretar e não falar mais bobagem sobre a nossa religião e também sobre a religião alheia. Sabemos que língua não tem osso cada um fala o que quer, no entanto quem fala o que quer ouve o que não quer. A semeadura é livre e a colheita obrigatória. Que cada um se coloque de frente com seu exu, com sua verdade, antes de questionar a verdade alheia e o que Exu fala por meio de outros que não o seu próprio ego.