22 de abr de 2015

Umbanda e a torre e Babel - Parte III


CONCEITOS SOBRE OS ORIXÁS

Falando sério, esse assunto é por demais confuso na cabeça da grande maioria de umbandistas, não umbandistas e até mesmo candomblecistas que ora dizem ser orixás uma coisa, ora outra ... O que acontece, na verdade, é que o termo, o vocábulo, a palavra O – RI - XÁ, antes de domínio Iorubá (Nagô) apenas, com o advento, principalmente dos Candomblés e das Umbandomblés acabou se popularizando e, de uma forma tal, que hoje em dia possui diversos significados.
E aí ... pra quem frequenta a Internet, em diversas Comunidades de debate, onde se apresentam pessoas com as mais diversificadas "conclusões" sobre terminologia aplicada e suas pseudo-raízes, quando o tema a se debater é "ORIXÁ", percebe-se que enquanto uns estão tentando escrever sobre as entidades que "baixam" nos "blés", outros estão tentando fazer o mesmo sobre os elementos e elementais da natureza, outros ainda sobre as energias cósmicas que seriam as responsáveis pela vida na Terra, de forma que se criam verdadeiras Torres de Babel, nesses debates em que ninguém se entende.

Como disse antes, a palavra ORIXÁ, no Brasil, foi trazida pelos Nagôs com o significado de DIVINDADES A SEREM CULTUADAS, em princípio, sendo possível depois, por ritualísticas próprias, marcarem presença através do que chamam de "feitura", junto a seus eleguns (os que são montados) e/ou vodunsis, acompanhando-os, então, até o final da vida.

Mas mesmo entre os Nagôs essa palavra designa "coisas diferentes, pois enquanto uns os têm como DIVINDADES NUNCA ANTES ENCARNADAS, outros os têm como ANCESTRAIS DIVINIZADOS, ou seja, para esses últimos os "orixás" seriam Espíritos Ancestrais que teriam se ENCANTADO e alcançado esse posto – "Orixá".

Vejamos este trecho de Verger em seu livro "Orixás": "O orixá seria, em princípio, um ancestral(1)
divinizado, que, em vida, estabelecera vínculos que lhe garantiam um controle sobre certas forças da natureza, como o trovão, o vento, as águas doces ou salgadas, ou, então, assegurando-lhe a possibilidade de exercer certas atividades como a caça, o trabalho com metais ou, ainda, adquirindo o conhecimento das propriedades das plantas e de sua utilização o poder, axé, do ancestral-orixá teria, após a sua morte, a faculdade de encarnar-se momentaneamente em um de seus descendentes durante um fenômeno de possessão por ele provocada.

Observamos acima que os Orixás seriam SERES HUMANOS capazes de controlar as Forças da Natureza, mas NÃO SERIAM AS FORÇAS DA NATUREZA em si.

Observemos abaixo mais esse trecho porque percebemos também, nas "rodas de debate" uma confusão incrível quando alguns pretendem ser o Candomblé uma Seita ou Religião de Origem Africana quando é "brasileirinho da Silva".

Observe, principalmente, que esse panteão de "Orixás" reivindicado pelos Candomblés Keto foi criado aqui mesmo, já que lá na África, até os dias de hoje, grupamentos que cultuam Oxum, por exemplo, sequer conhecem Yemanjá ou, como afirma Verger logo abaixo, Xangô, festejado como o Rei do trovão no Candomblé, assim é por escolha, já que em grupamentos como de Ifé ele sequer é conhecido, assumindo o lugar de Deus do Trovão outro "Orixá" de nome Oramfé.
"...ainda não há, em todos os pontos do território chamado Iorubá, um panteão dos orixás bem hierarquizado, único e idêntico. As variações locais demonstram que certos orixás, que ocupam uma posição dominante em alguns lugares, estão totalmente ausentes em outros. O culto de Xangô, que ocupa o primeiro lugar em Oyó, é oficialmente inexistente em Ifé, ou de um deus local, Oramfé, está em seu lugar com o poder do trovão. Oxum, cujo culto é muito marcante na região de Ijexá, é totalmente ausente na região de Egbá. Iemanjá, que é soberana na região de Egbá, não é sequer conhecida da região de Ijexá.

A posição de todos estes orixás é profundamente dependente da história da cidade onde figuram como protetores. Xangô era, em vida, o terceiro rei de Oyó. Oxum, em Oxogbô, fez um pacto com Larô, o fundador da dinastia dos reis locais, e em consequência a água nessa região é sempre abundante. Odudua, fundador da cidade de Ifé, cujos filhos tornaram-se reis das outras cidades iorubás, conservou um caráter mais histórico e até mesmo mais político que divino.

Alguns orixás constituem o objeto de um culto que abrange quase todo o conjunto dos territórios iorubás, como, por exemplo, Òrìsàálá, também chamado Obàtálá, divindade da criação, estende-se até o vizinho território do Daomé, onde Òrìsàálá torna-se Lisa, e cuja mulher Yemowo tornou-se Mawu, o "deus supremo" entre os Fon, ou então Ògún, deus dos ferreiros e de todos aqueles que trabalham com o ferro, cuja importância das funções ultrapassa o quadro familiar de origem. Algumas divindades reivindicam as mesmas atribuições em lugares diferentes Sàngó, em Oyó; Oramfè, em Ifé; Airá, em Savé. São todos senhores do trovão. Ògún tem competidores, guerreiros e caçadores em diversos lugares, tais como: Ija em torno de Oyó, Òsóòsi em Kêto, Òre em Ifé, assim como Lógunéde, Ibùalámo e Erinlè na região de Ijexá. Osanyìn entre os oyó desempenha o mesmo papel de curandeiro que Elésije em Ifé. Aje Saluga em Ifé e Òsúmáré mais a oeste são divindades da riqueza."(2)
E se esse assunto já é meio complicado para quem nos trouxe o vocábulo Òrìsà (que aqui virou Orixá), imaginemos então entre aqueles que acabaram se apropriando do vocábulo – e apenas dele – dando-lhes outros diversos significados.

Vamos voltar a 100 anos atrás (1908), quando o Culto de Umbanda foi criado (ou anunciado) pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas e, apelando para o que se tem de testemunhos escritos e gravados, vamos ver que na UMBANDA ORIGINAL não havia qualquer tipo de Culto a "Orixás" - como não existe até hoje na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, a primeira Tenda de Umbanda fundada pelo Caboclo e que se mantém até hoje trabalhando nos mesmos moldes.

Em 1933 o escritor Leal de Souza, aquele que primeiro escreveu e publicou qualquer coisa sobre UMBANDA, já dividia os grupamentos de Espíritos trabalhadores da Umbanda em Espíritos de SETE LINHAS, como já foi explicado em outro volume, inclusive uma dessas LINHAS chamando-se LINHA DAS ALMAS (ou DE SANTO), absolutamente nada tendo de semelhança ao culto a Obaluaiê/Omolu que foi inserido muito após por aqueles que se auto-rotularam de Umbandas mesmo mantendo em seus cultos as práticas e princípios das ritualísticas de cunho africano.

Nesta época assim nos explicava Leal de Souza sobre o que seriam Orixás para a Umbanda Original que também era chamada de Linha Branca de Umbanda e Demanda:

"O Orixá é uma entidade de hierarquia superior e representa, em missões especiais, de prazo variável, o alto chefe de sua linha. É pelos seus encargos, comparável a um general, ora incumbido da inspeção das falanges, ora encarregado de auxiliar a atividade de centros necessitados de amparo, e, nesta hipótese fica subordinado ao guia geral do agrupamento a que pertencem tais centros.

Os Orixás não baixam sempre, sendo poucos os núcleos espíritas que os conhecem. São espíritos dotados de faculdades e poderes que seriam terríficos, se não fossem usados exclusivamente em beneficio do homem. Em oito anos de trabalhos e pesquisas, só tive ocasião de ver dois Orixás, um de Euxoce (Oxóssi), o outro de Ogum, o Orixá Mallet."\
Repare bem você que para a Umbanda Original, Orixás eram ESPÍRITOS HUMANOS com certas
peculiaridades em essência e não ELEMENTOS ou ELEMENTAIS da Natureza, e sequer ANCESTRAIS DIVINIZADOS, conceito este que se estende até hoje em boa parte das Umbandas NÃO AFRICANIZADAS.

Uma outra Corrente entende como Orixás, não qualquer tipo de Espírito seja ele humano ou elemental, mas sim ENERGIAS criadas pelo desdobramento ou divisão da Energia-Mãe ou DEUS, como queiram e mesmo usando o termo Orixá para a elas se referirem (por ser o mais comum) compreendem-nos como ENERGIAS DE RAÍZ ou VIBRAÇÕES ORIGINAIS, ambos os termos tendo como significado essas energias provenientes de DEUS, atuantes diretamente sobre todos, ou parte constitutiva da essência de todas as formas de vida, não só da Terra como do Universo.

Só por esses conceitos totalmente díspares, já dá pra perceber o porquê de não se poder discutir ORIXÁS tendo conhecimento de apenas "um lado do prisma". Mas vamos TENTAR esmiuçar um pouquinho mais, tentando também dar subsídios aos seguidores dessas correntes de diferentes pensamentos para que entendam, finalmente, que, sendo os conceitos para Orixá totalmente subjetivos (assim como o conceito sobre o próprio DEUS ou DEUSA, quem sabe?), a aceitação final será sempre PARTICULAR e de acordo com o que mais se adaptar a cada mente pensante.

Continua...

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(1) e (2) Trechos do Livro "Orixás" de Pierre Fatumbi Verger
(3) Trechos do livro "O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda" do escritor Leal de Souza


Por: Cláudio Zeus
Fonte: Umbanda sem medo