21 de abr de 2015

Umbanda e a Torre de Babel - Parte II

Continuando...

Havia eu dito que reiniciaríamos falando sobre a palavra ORIXÁ, mas como esse tema vai ser comprido com certeza e ainda por cima tendo descoberto outros em debates mais atuais, resolvi dar andamento pelo mais fácil.

Outras duas palavras que estão por aí a criar Torres de Babel são: PROTETOR e GUIA. Por que?


Pelo simples fato de que houve uma aplicação geral e descompromissada com os verdadeiros conceitos iniciais sendo ambas utilizadas agora, quase que sem qualquer diferença, ou seja, passaram a chamar todas as ENTIDADES (vejam bem isso aí) por PROTETORES ou GUIAS. Desta forma, bastou "baixar" no terreiro que já são chamados de protetores e guias.

Na UMBANDA e não no kardecismo (que não usa a palavra GUIA), realmente usamos essas classificações para ALGUMAS entidades, só que, desde que elas estejam realmente capacitadas para serem ou protetores ou guias de fato e direito, havendo, entretanto, algumas diferenças conceituais básicas entre o que é um PROTETOR APENAS e o que é um GUIA, embora estejam embrulhando tudo no mesmo saco.

Vamos aos conceitos:

PROTETOR ou ESPÍRITO PROTETOR.


É qualquer espírito que aja na GUARDA ESPIRITUAL de alguém protegendo-o(a) contra possíveis
ataques do baixo-astral, em princípio.

Aprofundando-nos no tema e observando como atuam os mais diversos espíritos em condição de serem PROTETORES, veremos que costumam ser zelosos em relação a seus médiuns, ajudando-os, inclusive, em muitas causas de cunho material, muito pelo fato de ser importante para eles, que seus médiuns estejam pelo menos relativamente equilibrados, material e psiquicamente, por decorrência, para que eles possam exercer seus trabalhos em ambiente adequado - médium tranquilo, sem muitos problemas na cuca!

É de seus interesses, pelo que foi exposto acima, zelar por essa tranquilidade, já que médium cheio de problemas acaba "dando-lhes trabalho" para bem cumprirem suas missões através de todas as formas de mediunidade.

Um Espírito na qualidade de PROTETOR pode ou não ter feito pactos pré-natais, onde, como costumam falar, assumiriam a proteção do encarnado enquanto estivesse "vivo", mas não necessariamente, pois entre as várias entidades que assumem esse posto (PROTETOR) existem também aquelas que se aproximam do médium, ou por terem sido arregimentadas por sua própria coroa e de acordo com os trabalhos e objetivo a serem alcançados, ou por necessidade delas próprias em usar o médium para seus trabalhos caritativos (às vezes até não e isso vai depender do grupamento em que o médium está), desde que lhes tenha sido dado o direito de usá-lo.

A diferença entre os "pactuados" e os não "pactuados" é muito clara em seus comportamentos. Enquanto os "pactuados" lutam mais por seus médiuns e costumam acompanhá-los até o fim da vida (pelo fato de terem feito pactos pré-natais) os não pactuados o protegem até certo ponto, abandonando-os e indo procurar outros médiuns, assim que o atual desvirtuar seus caminhos ou por qualquer razão, não lhes puder mais deixar usar-lhe o corpo, como nos casos de velhice e/ou doenças impeditivas que não sejam de âmbito espiritual e que por isto não possam resolver.

Quem já não ouviu falar de fulano ou beltrano que trabalhava com o caboclo"X", o exu "Y", o bugre "Z" e que, chegando a uma certa idade, só ficou ao seu lado mesmo o caboclo "B" e/ou o Preto "J", ou até mesmo a criança "M"? Por que isso ocorre?

Porque o corpo do médium não suporta mais a energia que essas entidades movimentam ou trazem em seus corpos espirituais e, tendo eles cumprido suas missões enquanto podiam, ou vão a oló (Orun)* ou vão procurar outros médiuns que lhes faculte darem sequência aos trabalhos aos quais estão afetos. De nada lhes adiantaria ficar ali se mais nada poderiam fazer por seu médium e, como a caminhada pela evolução é longa ...

Esses acima são os PROTETORES EVENTUAIS ou TEMPORÁRIOS. Farão qualquer coisa para defenderem seus médiuns enquanto lhes forem importantes e os deixarão nas mãos dos PROTETORES DE VERDADE (os que fizeram pactos e por isso possuem elos sentimentais) para que sigam por caminhos mais amenos.

Ah, mas você está achando que isso é um absurdo? Ponha-se então você no lugar de um deles e, precisando dar continuidade a seus trabalhos de desobsessão, demandas, magias, etc., SUAS ESPECIALIDADES, pense se vai ficar ali, coladinho no "cavalo" que não suporta mais sua incorporação, principalmente sabendo que junto a ele(a) poderão ficar os "mais amenos" e "pactuados" desde antes do nascimento, amparando-o no que for possível. Pense, mas pense bem, tirando de lado o egocentrismo tão comum a nós encarnados.

Ainda sobre PROTETORES EVENTUAIS ou TEMPORÁRIOS, encontramos algumas entidades que se achegam ao médium, para trabalho, por causa da Cúpula Espiritual do Terreiro ou Centro em que ele está, ou seja, por determinação desta Cúpula Espiritual. Mas você só vai ter experiência para sentir isto se, por algum motivo e durante sua vida mediúnica, vier a trocar de Centro ou Terreiro algumas vezes. Se assim for, poderá perceber que há vezes em que "dava passagem" a algumas entidades em um lugar que, no entanto, deixaram de vir no outro, vindo outra(s) em seu(s) lugar(es). O que acontece nestes casos é que essas entidades que "ficaram pra trás" eram entidades que pertenciam à Egrégora do Terreiro anterior e, por isto, não o(a) acompanharão ao próximo. E acontece que essas "novas entidades" que se apresentarem, muito provavelmente também pertencem à Egrégora da nova casa. Simples assim!

E para aqueles que saem de um Terreiro e não vão para outro, a percepção ainda é maior no fato de que passarão a sentir à sua volta, apenas aqueles que são seus PROTETORES DE FATO E DIREITO e que não vão largá-los nesta vida a menos que lhes façam algo que os magoem por demais como no caso de tratá-los como demônios e quiserem expulsá-los.

Como já expliquei antes, em outra postagem, os Espíritos na categoria de PROTETORES, mesmo os de fato, podem, às vezes, aplicar "corretivos" a seus médiuns, sob várias formas, se eles não lhe derem ouvidos. Primeiro porque, por serem "pactuados" ( e esse pacto é mútuo), assumem direitos de quase pai ou mãe e, nesse caso, depois de avisarem e não serem ouvidos, assumem os "direitos paternos" (ou maternos) armando-lhes certos "castigos". Mas ainda aí temos que observar que, manter o médium "no prumo" lhes é importante também para que suas manifestações mediúnicas possam se fazer da melhor forma. Em síntese: às vezes precisam "domar" seus "cavalinhos" para que lhes sirvam de meio de comunicação (MÉDIUNS) positivos.

E os GUIAS?


Pois é! Espírito que tenha alcançado DE FATO esse potencial - O DE SER GUIA DE ALGUÉM - tem que ser um espírito muito mais preparado, Espiritualmente falando. Tem que ser um Espírito que tenha um conhecimento maior sobre a vida na espiritualidade, que conheça bem mais sobre os caminhos da evolução, seus objetivos e maneiras de serem alcançados e, normalmente, como também já disse antes, NÃO SÃO ESPÍRITOS AFETOS A TRABALHO PESADO mas sim doutrinários ou de encaminhamento de seu médium e de todos os que a ele tiverem acesso, por decorrência.

Não é porque EU cismo e chamo o "Zé Malandrinho das Esquinas da Uca" de GUIA que ele é um GUIA DE VERDADE (se bem que para alguns, talvez ele até possa servir de Guia). O potencial para ser um GUIA DE VERDADE o espírito ganha NA ESPIRITUALIDADE e não somos nós que lhes damos, porque se fosse assim, na visão dos neo-umbandistas, até Exu e Pomba Gira poderiam ser GUIAS.

Espíritos GUIA não deixam de ser PROTETORES, porém em um nível acima dos interesses materiais. Normalmente não castigam ou "domam" seus cavalinhos. Em casos de muitos erros e descaminhos, apenas avisam , avisam, avisam e depois se afastam deixando-os nas mãos, em princípio, de seus PROTETORES (que não são GUIAS DE FATO) e depois, havendo insistência nos erros, nas mãos de quem mais se apresentar para tomar conta, seja quem for e da maneira que for.

E porque se afastam e não tentam "domar" seus "cavalinhos" como os PROTETORES NORMAIS?

Em primeiro lugar porque respeitam o Livre-Arbítrio e partem do pressuposto de que seu filho(a) deve saber o que fazer com o seu. Neste caso, compreendem até mesmo os descaminhos como DA VONTADE PESSOAL E CONSCIENTE, talvez uma forma mais árdua de chegarem às suas próprias conclusões, de livre escolha, desde que já tenham sido alertados sobre as conseqüências.

Em segundo lugar porque espíritos que já alcançaram a verdadeira qualidade de GUIAS, por estarem em condições evolutivas superiores aos demais PROTETORES, ou não encarnam mais ou o fazem apenas por MISSÕES (e não Karmas) a eles designadas, de forma que o médium em si, para eles, não é instrumento importante ou insubstituível para que dêem encaminhamento a essas MISSÕES, tanto quando estão no Plano Astral quanto no caso de terem de vir à Terra. Pelo contrário e diferentemente do caso dos apenas PROTETORES, são os médiuns que deles dependem se pretenderem realmente seguir por caminhos e experiências evolutivas.

E os chamados "Guias de Frente"? Não são GUIAS?

Sintetizando sem hipocrisias: Serão GUIAS ou Guias ou guias ou "guias", em princípio apenas por terminologia aplicada e usual, mas só serão GUIAS DE FATO E DIREITO se assim se mostrarem ao longo de suas "aparições" no tempo e de acordo com o que vierem fazer ou ensinar e não apenas porque assim os chamamos ou que assim se apresentem. Eis a questão!

Aproveitando-me de uma história que já é de domínio público, no caso do senhor Zélio de Moraes vemos com clareza essa distinção de PROTETOR EVENTUAL, PROTETOR DE FATO e GUIA.

Como se sabe, a primeira entidade a chegar pela mediunidade de Zélio foi o Caboclo das Sete Encruzilhadas e após ele Pai Antonio. Somente cinco anos mais tarde houve a chegada de Orixá Malet (ou Malei, ou Malê) que veio, segundo relatos, chamado pelo Caboclo para assumir os trabalhos relativos a demandas e magias enquanto o Caboclo ficava com os trabalhos de orientação e doutrinação - os mais leves, visto por um certo ângulo. Na seqüência, e pelo envelhecimento da matéria do médium, foi também Orixá Malet o primeiro a deixar de incorporar permanecendo ao lado de Zélio, Pai Antonio e o Caboclo das Sete Encruzilhadas até que desencarnasse.

Então, pelo que já expliquei lá em cima, percebamos que PROTETORES DE FATO E DIREITO eram O Caboclo e Pai Antonio que estiveram junto desde o início até o fim. Percebamos também que pelo teor dos trabalhos, tanto do Caboclo, quanto de Pai Antonio (que era bem diversificado em sua essência), o primeiro (que agia mais doutrinariamente) seria seu GUIA DE FATO (além de PROTETOR DE FATO) e o segundo seu PROTETOR DE FATO, enquanto Orixá Malet (e isto sem querer tirar uma vírgula da importância de sua vinda e de seus trabalhos) foi um PROTETOR EVENTUAL ou TEMPORÁRIO, partindo, não sei se por fim da missão com Zélio ou de sua própria missão, assim que o médium já não se sentia tão à vontade com a energia dele como entidade espiritual, por conta da idade avançada.

Esse é apenas um exemplo do que escrevi acima, mas você que chega até aqui, pode muito bem já ter observado isto, ouvido sobre fatos semelhantes ocorridos com outros médiuns ou até mesmo, quem sabe, estar percebendo consigo.

E como citei isto no primeiro post da série, AGÔ não quer dizer PERDÃO. É um pedido de LICENÇA.

A palavra para perdão é MALEIME que já é uma corruptela de VALEI-ME.

* oló (orun) - segundo uma entidade amiga, o termo "ir oló" (ou oró, como dizem os P.Vs.) é uma forma simplificada de "ir ao olo orun" o que significaria "ir ao longínquo orun ou céu".


Por: Cláudio Zeus