20 de abr de 2015

A Umbanda e a Torre de Babel - Parte I

Como sobre a famosa Torre de Babel já deve ter sido lido por, senão a maioria, pelo menos uma grande parte dos humanos ditos Cristãos, para iniciar esse tema vou fazer apena uma breve explanação sobre A LENDA para que todos possam acompanhar os raciocínios que daí advirão a partir do momento em que a adaptarmos ao que hoje acontece entre os umbandistas em função dessa imensa diversidade de ritos e outras práticas que se criaram, todos tomando para si o nome geral de UMBANDAS, simplesmente Umbandas.

Segundo o Antigo Testamento (Gênesis 11, 1-9), A TORRE DE BABEL foi uma torre construída na Babilônia pelos descendentes de Noé, com a intenção de eternizar seus nomes. A ideia era a de fazê-la tão alta que alcançasse o céu, tendo essa soberba provocado "a ira de Deus" que, para castigá-los, confundiu-lhes as línguas e os espalhou por toda a Terra.

Este mito é, provavelmente, inspirado na torre do templo de Marduk, nome cuja forma em hebraico é Babel ou Bavel e significa "porta de Deus". Hoje, entende-se esta história como uma tentativa dos povos antigos de explicarem a DIVERSIDADE DE IDIOMAS.

Pois muito bem. Quantos de vocês que aqui chegam e leem os textos já não participaram de debates virtuais ou mesmo pessoais em que pessoas tentam chegar às conclusões sobre o significado de determinados vocábulos e, como o mesmo vocábulo significa uma coisa para uns e outra para outros, a discussão acaba girando em torno de uma discordância total sem que alguém chegue a qualquer conclusão? Se não participou, é só entrar para qualquer Comunidade, seja do Yahoo, Orkut, etc. e observar, pois mais cedo ou mais tarde terá a oportunidade, ou de participar diretamente ou pelo menos observar o que lhes relato.

Mas por que isso acontece?

Isso acontece por "N" motivos, mas quase todos baseados no comportamento inadequado dos mais novos na Lei que, desconhecendo os significados que eram padrão vão, por eles mesmos, "descobrindo" novos significados e os divulgando da forma que bem entendem. Daí, os mais novos ainda, os que tentam aprender através de livros ou mesmo de mais novos com conceitos já corrompidos, apreendem e aprendem esse significados como "padrões", a ponto de acharem por bem discutirem com os mais antigos que seus próprios orientadores que, por exemplo, AGÔ quer dizer perdão, num exemplo bem "simplesinho".

Esses "novos significados" e a clara demonstração de muitos de que NUNCA FORAM ÀS FONTES para saberem em que águas estão bebendo, preferindo analisar as fontes através dos rios já formados (e misturados por causa disto), acaba gerando uma grande TORRE DE BABEL entre os umbandistas, com o mesmo objetivo bíblico - DESENTENDIMENTOS - já que em determinados debates parece até que todos falam por idiomas diferentes, tal é a desconexão com o significado raiz de cada palavra. E há alguns (acreditem) que mesmo percebendo haver disparidade entre o que entendem por certo vocábulo e a realidade mais antiga, ainda insistem em dizer que o entendimento atual existe porque "a umbanda evoluiu", como se a evolução de uma religião envolvesse até a MUDANÇA NOS SIGNIFICADOS DAS PALAVRAS antes utilizadas (não estou falando das práticas ritualísticas, vejam bem).

Vamos citar aqui algumas palavras ou termos apenas, dando-lhes os significados mais antigos porque se fôssemos falar de todas as que entram nessa Torre de Babel, esse texto viraria um livro.

Comecemos com o já famoso MÉDIUM DE TRANSPORTE.

O termo Médium de Transporte é mais um dos muitos CAPTURADOS no ESPIRITISMO (que muitos umbandistas acham que nada tem a ver com a Umbanda, coitados), só que, adotado erradamente. Se fossem ver o que significa esse termo dentro do Espiritismo Kardecista antes de adotá-lo, jamais o empregariam para o que empregam hoje.

Mediunidade de Transporte, fenômeno estudado e devidamente batizado pelos nossos irmãos Espíritas (assim como a própria mediunidade em geral), é aquela em que o médium possui a capacidade (em potencial) de TRANSPORTAR objetos de um local para outro, de fora para dentro, os que (antigamente era mais comum) são capazes de trazerem os "trabalhos feitos", desmaterializando-os do local onde foram colocados e rematerializando-os dentro do Terreiro ou local de reunião, eram os MEDIUNS DE TRANSPORTE, numa explicação bem simplificada (para melhor explicação, acessem: http://www.cvdee.org.br/duv_resptexto.asp?cat=01&id=425 .

É claro que esse potencial é ativado pela presença da ENTIDADE (outra palavrinha da Torre) que consegue, por diversos meios, usar parte do ectoplasma (energia vital) do médium e dos assistentes para esse "milagre".

Mas aí... os novos umbandistas que trabalham atraindo obsessores com o fito de encaminhá-los, parece que gostaram do termo e "ZAZ", adotaram-no dando-lhe novo significado. Nas "Umbandas Modernas", o Médium de Transporte "se tornou" aquele que antes era chamado de MEDIUM DE ATRAÇÃO ou MÉDIUM PONTE, significando o primeiro termo aquele que é capaz de atrair para si, sob comando e orientação, possíveis obsessores para que sejam encaminhados e o segundo termo, aquele que é capaz de servir de ponte, de passagem, para que o obsessor também seja encaminhado.

Esse é apenas UM exemplo dentre os muitos vocábulos "capturados" de outros grupamentos espiritualistas que tiveram seus significados adulterados por conta de sei lá o que. Mas ainda bem que este termo ainda não é um dos que mais criam Torres de Babel.

Como já citei acima, um outro termo que gera desentendimentos e que não deveria, é o termo ENTIDADE.

Caramba (é, eu sou velho mesmo e ainda uso essas gírias)! Será que ninguém conhece o dicionário e nunca foi lá saber o que significa UMA ENTIDADE? Uma grande maioria acho que não, porque, a seus "bels prazeres" dão significados de acordo com suas próprias formas de ver, muitas vezes fantasiosas.

Vamos lá, segundo o Houaiss:

Substantivo feminino .

1. aquilo que constitui a existência de algo real; essência 1.1. essa existência considerada à parte, independentemente dos atributos da coisa
2. Derivação: por extensão de sentido, o ser humano; ente, indivíduo. Ex.: uma turma de alunos constituída de entidades diferentes.
3 Derivação: por extensão de sentido. Tudo o que tem existência, tudo o que existe, na realidade ou na ficção.

Vamos ver agora segundo o Aurélio:

Substantivo feminino.
1. Aquele ou aquilo que tem existência distinta e independente; ente, ser.
2. Empresa, organização, instituição.

E vamos ver mais ainda no Michaelis:

en.ti.da.de (s. f.)

1. Existência independente, separada, ou autônoma; realidade.
2. Aquilo que constitui a natureza fundamental ou a essência de uma coisa.
3. Aquilo que existe ou imaginamos que existe; ente, ser.
4. Individualidade.
5. Indivíduo de importância.
6. Sociedade ou grupo que dirige as atividades de uma classe.

Pois bem. Se você observar o que realcei em azul, perceberá que, a despeito de alguns dizerem que ENTIDADE se refere apenas a Espíritos desencarnados e nunca a "Orixás" (outra palavrinha da Torre de Babel), ou como também já li, que ENTIDADE é apenas aquele "Espírito de Luz" e que os outros são EGUNS (outra palavrinha pra nossa Torre), o termo se aplica, espiritualmente, desde ao mais trevoso kiumba, até mesmo ao próprio DEUS, segundo a compreensão de alguns que o vêem como "aquele senhor de barbas longas que vive no céu e que vai resolver todas as questões pendentes dos mortais encarnados", incluindo-se nessa gama, tudo o que se entende por "orixá" e que chega à Terra através de seus MÉDIUNS (Essa palavra também nos vem do Espiritismo, viram, umbandistas? Ainda bem que não a deformaram), de forma que chega a ser até interessante (pra não dizer jocoso) quando vemos alguns dizerem que os "orixás" do Candomblé (e isto dito por "umbandistas"), que muitos "umbandistas" acreditam que incorporam e nisso se vangloriam, não são entidades ou, complementando, ENTIDADES ESPIRITUAIS. Ora, se incorporam de fato é porque têm existência individual e se é assim, é porque são ENTIDADES e não apenas energias voláteis da Natureza sem personalidade, sem individualidade.

"Resumo da História", como falava um antigo amigo que já se foi: Espírito é ENTIDADE, orixá incorporante é ENTIDADE, kiumba é ENTIDADE, seu GUIA é uma ENTIDADE, seu protetor é uma ENTIDADE, seu Terreiro é uma outra ENTIDADE, você mesmo(a) é uma ENTIDADE e por aí vai ... A palavra tem um significado bastante extenso e ficar tentando particularizá-la para este ou aquele "evento espiritual" é obra de quem quer complicar mais que explicar.

E aí ... chegou a hora dos EGUNS. 

Nunca vi tantas controvérsias quando acontece de alguém perguntar sobre EGUNS porque uns ACHAM que essa palavra se refere a ESPÍRITOS ATRASADOS (obsessores) e outros a TODOS OS ESPÍRITOS QUE JA VIVERAM. É o que dá irem "capturar" palavras em outros grupos e, sem lhes saber o real significado, sairem por aí "gastando africanismo" e "pagando micos", por decorrência.
Vamos ao REAL SIGNIFICADO e às suas adaptações "umbandísticas".

A palavra EGUN, de raíz Yorubá (Nagô), era e ainda é usada pelos irmãos Candomblecistas para significar a ALMA DE PESSOAS IMPORTANTES QUE JÁ MORRERAM E QUE VIRIAM À TERRA COM FINS DE ORIENTAÇÕES AOS MEMBROS DE SUAS TRIBOS ou NAÇÕES. Os EGUNS eram e são cultuados numa ramificação de culto dos Candomblés chamada LESSE EGUN (os lesse orixás são os que cultuam orixás), o CULTO AOS ANTEPASSADOS. Os que quiserem se aprofundar no tema, sugiro que CLIQUEM e leiam: O CULTO DOS EGUNS NO CANDOMBLÉ e também EGUNGUN

Mas aíííííííí, como muitos umbandistas adoram usar a terminologia africana, ainda que não lhes saibam os significados, passaram a usar e "distribuir" a palavra EGUN como se fosse uma classificação para Espíritos de mortos que se colam nos vivos e lhes causam vários problemas. Espíritos atrasados, portanto, o mesmo que KIUMBA, obsessor por decorrência. E aí também, se alguém começa a discorrer sobre Egun da forma que aprendeu mais recentemente (a forma errada), sobre si lhes caem montes de críticas e com toda a razão, já que, na raiz, Eguns ou Egunguns seriam ANTEPASSADOS, ANCESTRAIS e não OBSESSORES. Mas o pior é que, condicionados como estão, continuam insistindo que um Egun é, forçosamente, um Obsessor.

Quem for às páginas indicadas, perceberá inclusive, que o Culto aos Eguns é particular aos homens e só podem estar presentes nos locais de culto fechados, mulheres que sejam de algumas qualidades de OIÁ (Igbale, Zagan, Messe Egun, Tolú ...). Por que seria?

Numa adaptação do termo menos destrutiva, ainda podemos considerar a palavra EGUN PARA A UMBANDA, sem jamais querermos traçar paralelos com seu valor no Candomblé, significando "Espíritos de Mortos" (a única relação existente) ou simplesmente ESPÍRITOS que é o que quase todas as ENTIDADES que trabalham nas UMBANDAS são em verdade. Nesse caso, mais certo é dizer que "seu" Preto velho ou Preta Velha é um Egun, "seu" Caboclo ou Cabocla é um Egun, "sua Mariazinha" e "seu Zezinho" são Eguns e não somente os Espíritos trevosos o são.

Vou ficando por aqui por enquanto, porque a próxima palavra (ORIXÁ) é a que mais Torres de Babel cria, sendo por isto que vou deixá-la para a próxima postagem, ocasião em que tentarei analisar essa palavra sob os mais diversos significados, alguns deles até antagônicos em função do conhecimento e da compreensão mais atual.

Paz e harmonia em suas Vidas.


Por: Cláudio Zeus