13 de fev de 2015

Por que não vês a trave em vosso olho?

Alberto, nosso personagem principal, fazia parte do grupo de médiuns de uma frequentada casa espírita. Era um dos mais requisitados, pois trabalhava com entidades que aos olhos dos mais ingênuos ou se preferirem, dos consulentes, eram ais mais fortes...

Isso tudo é uma grande ilusão, pois todos os trabalhadores do lado de lá (guias) estão capacitados a auxiliar os encarnados, desde que estejam atuando na caridade com Jesus!

Alberto não parava um minuto desde o momento que adentrava seu local de trabalhos caritativos, onde se entregava com boa vontade. Eram aconselhamentos na salinha do “atendimento fraterno”, entre tantas outras tarefas que assim como vários outros médiuns ele executava.

Depois de mais de dezoito anos naquele templo, servindo, aprendendo e doando-se, um dia sentiu-se extenuado, triste e mecânico como um robô! Eram os mesmos problemas, as mesmas reclamações, as mesmas doenças, as mesmas caras de infelicidade... um entra e sai de pessoas tão diferentes entre si, mas com os mesmos dramas, sofrimentos e dores. As culpas, os arrependimentos e os ódios de sempre... Ele até “adivinhava” só de olhar para a face do consulente; “já sei” pensava ele consigo mesmo “pelo semblante e postura, isso é caso de coração partido!”... Não demorava muito para que confirmasse suas intuições, através da confissão discreta do consulente!

Ele não ligava mais para os agradecimentos e elogios perigosos dos irmãos de caminhada nem para a inveja dos colegas médiuns incautos, seus irmãos em Cristo. Ligava mesmo era para a indiferença de alguns que passavam por ali como quem passa por um parque de diversões!

Uma fila interminável de consulentes desalentados que ouviram falar do médium Alberto, que recebia entidades fortes e dava conselhos fantásticos aos irmãos aflitos, que parecia ler os pensamentos das pessoas e “adivinhar-lhes” os dramas. Por isso era tão comentado e procurado por muitos. Conseguia dar o conselho certo de acordo com o pedido, desabafo ou reclamação de um consulente, o mesmo saía daquele lugar sentindo-se renovado e disposto a mudar a vida... até que um dia, foi ele quem precisou de aconselhamentos e muita ajuda!

Aos pés da entidade espiritual, que atuava através de seu médium, Alberto desabafou, chorou e como qualquer mortal pediu ajuda.

Alberto: _Meu pai, não aguento mais minha vida, sinto um peso enorme em meus ombros. Uma tristeza enorme me invade e não tenho prazer... será que isso é carma? Gosto de estar aqui, mas tem gente que pensa que sou “Jesus” coitados! Eles acham que sou capaz de dar respostas, assim como os guias que incorporam em mim! Eu tento explicar, mas não adianta eles sempre me veem como alguém especial! O que eu estou longe de ser! O tempo da vaidade em mim se foi com as decepções e aquela ansiedade dos primeiros tempos também... o que eu fiz de errado? Por que me sinto assim?

Pai Velho: _Zin fio, seu problema é o mesmo de todo mundo que vem aqui. Esqueceu de cuidar da própria vida e de usar seus bons conselhos para resolver os próprios problemas. Vou te dar um conselho simples, mas eficaz para quem o escuta; tira a trave que está no teu olho antes mesmo de querer retirar o cisco no olho alheio! Não deixe de ajudar o teu irmão que te procura em segredo, porque a caridade pra ser, tem que ser dada de graça e com amor, mas não deixe de fazer a caridade pra si!

Alberto fez breve pausa, respirou fundo e mergulhou pra dentro de si... fechou os olhos e sentiu o coração bater forte e acelerado, viu os filhos em casa cada um para um canto, largados, infelizes e carentes de atenção, viu os mesmos ilhados por brinquedos caros, alta tecnologia, computador, tablets, celulares, entre outras infinidades de “brinquedinhos” tecnológicos, mas com os mesmos semblantes tristes dos que iam até o templo espiritualista.

Viu a imagem da esposa formar-se em sua frente mais rápida do que a velocidade da luz, triste e reclamando de tudo, fazendo cobranças e jogando-lhe na cara as mágoas e culpas. Lembrou-se que tratava sua esposa como uma irmã, ausentando-se das obrigações de marido. Estava ofendido pelas cobranças “injustas” que lhe fizera. Recordou-se num átimo de tempo das formas sensuais da amante e de seu semblante jovial e belo, onde se perdera com paixão...

Os pensamentos e imagens surgiam e se fragmentavam em sua tela mental, recordou que estava em falta com os pais idosos, pois não os visitava há meses e percebeu pouco a pouco, enquanto abria os olhos lacrimejantes, que havia esquecido de si mesmo, responsabilizava a vida, os outros, nunca a si mesmo.

Alberto: _ Verdade paisinho, quantas plantinhas venenosas deixei que se alastrassem no canteiro de meu espírito, não cuidei de mim mesmo! Sou um miserável!

Pai velho: _ Não se puna assim, zin fio! O auto perdão é sua maior fortaleza e proteção. Agora é o momento de suncê retirar a trave do teu olho, vai enquanto tem tempo e pode! Que Oxalá te guie!
Os médiuns são pessoas comuns como quaisquer outras. Nem mais nem menos! Têm problemas, dificuldades, fragilidades e imperfeições! Não se tratam de “santos” nem de “seres especiais”, mas sim de humanos que como qualquer pessoa, que também precisam fazer a reforma íntima!
Axé!


Por: Letícia Gonçalves