23 de dez de 2014

A ganância

Encontramos a capela toda decorada com flores e adornos fúnebres. O caixão, o mais caro do país, e para nossa surpresa, um garçom servia as pessoas que pareciam estar em uma festa. Havia até senhoras de chapéu com véu, muito bem vestidas.

_O que estamos fazendo aqui?

_Mais uma despedida para o irmão narrar em seu livro.

_Mas onde está o “morto”?

Pamela mostrou os encarnados.

_Todos estes.

_Quantos defuntos lindos! Brinquei.

Enrico lançou-me um olhar muito parecido com o de alguém que conheço.

_Desculpe, é que me assustei com esta cerimônia.

_Olhe o que diz O Livro Dos Espíritos, Luiz Sérgio!

_Não está mais aqui quem falou.


Por falar em o O Livro Dos Espíritos, a questão 841 bis ensina:

Para respeitar a liberdade de consciência, dever-se-á deixar que se propaguem doutrinas perniciosas, ou poder-se-á, sem atentar contra aquela liberdade, procurar trazer ao caminho da verdade os que se transviaram obedecendo a falsos princípios?

“Certamente que podeis e até deveis; mas, ensinai, a exemplo de Jesus, servindo-vos da brandura e da persuasão e não da força, o que seria pior do que a crença daquele a quem desejaríeis convencer. Se alguma coisa se pode impor, é o bem e a fraternidade. Mas não cremos que o melhor meio de fazê-los admitidos seja obrar com violência. A convicção não se impõe.”

_Gente, não estou condenando nada, nem sei a religião dessa família...

_Nós sabemos, Luiz, é que estamos conversando sobre as brigas religiosas e recordamos desse lindo trecho de O Livro Dos Espíritos. Recordemos também a questão 842, que é um puxão de orelha naqueles donos da verdade, mas que vêm não só atacando as outras religiões como os próprios confrades.

Enrico foi-se aproximando da mesa, onde um senhor de seus cinquenta anos “descansava” o seu corpo físico. Busquei seu espírito que, todo embaralhado nos laços fluídicos, xingava muito.

Junto a ele uns quarenta espíritos de aparência trevosa gritavam-lhe palavras duras de vingança. Eric esforçava-se para sair de junto do corpo físico, mas o ódio dos seus inimigos era tanto, que ele cada vez se embaraçava mais. Junto àqueles trevosos, uma figura angelical tentava ajuda-lo.

_Quem é, Enrico?

_Sua filha, que desencarnou aos doze anos.

_Nós podemos ajuda-lo?

_Como, Luiz, se ele é dona da sua consciência?

_Que fez Eric?

_Dono de uma imensa fortuna, sempre lesou seus operários e algumas vezes os levou ao suicídio. Era implacável com os pobres, chegava mesmo a ter-lhes horror; tinha psicose por limpeza, nenhum operário podia aproximar-se dele, temia contagiar-se.

_Existe gente assim?

_E como, Luiz Sérgio! Temos encontrado pessoas que sentem pavor do humilde, do pobre. Tratam-nos como se fosse portadores de doenças contagiosas, não sabendo que o orgulhoso é que carrega no coração a lepra do egoísmo.

A festa estava sendo regada a champanhe e os mais finos canapés e salgadinhos eram servidos. A esposa de Eric, toda de negro, recebia os pêsames como se estivesse em uma recepção. Enquanto isso, Eric estava sendo vampirizado por suas vítimas.

_Coitado! falou Pamela. E aqui ainda têm poucos, depois é que vai ser terrível!

_Ele tem mais inimigos?

_Se tem! Exclamou Plácido. Passou a vida só prejudicando os outros. Acumulou uma fortuna incontável, mas olha o seu fim, igual ao de todos os mortais. Ninguém traz roupas, obras de arte, cartão de crédito, fortuna; nem a carteira de identidade traz. Por que brigar tanto em prol da fortuna?

Alguns técnicos, com dificuldade, separaram Eric do corpo carnal, mas ninguém conseguia retirá-lo dos verdugos.

_E o seu mentor, onde está?

_Eric jamais respeitou o seu mentor, Luiz. Ele era só ele, e ninguém mais.

_Até quando irá sofrer?

_Só depende dele.

Quando os verdugos lhe batia, ele gritava e partia para cima deles, dizendo as piores palavras, o que os enfurecia ainda mais.

_Enrico, não existe um meio de ajuda-lo?

_Luiz, logo Eric será socorrido, mas o umbral o espera, não tem como se livrar dele. Em toda sua existência Eric gozou de sua fortuna, mas na hora de beneficiar um operário, lutava para prejudica-lo. Ele ganhou de Deus a fortuna para dar emprego aos pobres, mas fez dela uma arma contra si mesmo.

_Mas Enrico, ele não sabia.

_Como não, Luiz? Todos os que vêm à Terra com tarefa de contato com o povo são elucidados sobre a responsabilidade dos deveres e dos exemplos. Mas ao aqui chegarem iniciam a fuga das responsabilidades. Eric sempre foi terrível, mesmo com as suas babás não tinha sequer um pouco de carinho. Elas eram sempre maltratadas por ele.

_Que diabinho! Falei.

_Não, Eric não é um diabinho, é um homem que não escolheu o caminho que nos leva à perfeição: o caminho do Cristo.

_Ele tinha religião?

_Tinham, como muitos têm: apenas nos lábios. É por isso, Luiz, que não podemos atacar esta ou aquela religião, pois todas são dignas, apenas os homens são falhos nas suas atitudes.

Ainda olhamos Eric lutando com seus verdugos, enquanto a capela lindamente decorada era um salão de festa. Comecei a sorrir. Pamela indagou?

_Por que o sorriso?

_Como seria bom se alguns desses materialistas pudessem ver o que está acontecendo ao Eric! Já pensou nos gritos e nas correrias?

Enrico não pôde deixar de sorrir.

_Tem razão, Luiz, Deus é tão sábio que não deu vidência a todos os encarnados.

_Mas não seria melhor?

_Não, o homem tem de lutar para ser bom e buscar Deus, não por medo, sim por amor. A dignidade é uma conquista própria.

Nós nunca seremos dignos porque alguém assim o deseja, mas porque nós o desejamos. Eric tinha tudo para ser feliz. Se ele tivesse tirado uma parte somente do seu império e dado conforto aos seus empregados, tudo seria diferente. Mas muitos homens julgam que a riqueza lhes pertence, não sabendo que tudo é empréstimo de Deus. O homem só possui a consciência, o banco onde deposita iniquidades ou valores.

Um corpo bem vestido, a fina sociedade ali presente, mas por detrás da morte um espírito sofrendo muito. Assim é a vida. Notei uma irmã um pouco gordinha que não parava de comer. Tive de me conter para não lhe pregar uma peça. Mas confesso que gostaria que quando ela fosse pegar um canapé, nós o fizéssemos sumir. Acho que ela nem iria precisar de spa nem de regime. Só o susto iria livra-la de alguns quilinhos.

_Luiz, Luiz, vamos ao trabalho, chamou-me Enrico com um sorriso.

_Mas nem ajudamos Eric...

_Não temos condição, e depois você só está narrando o que acontece nas capelas.

Dali fomos para outra cidade, onde um pai tinha assassinado o próprio filho.


Por: Luiz Sérgio/Irene Pacheco Machado - do livro: “Na Hora Do Adeus”  – Editora Recanto