27 de nov de 2014

Pai João!

A tarde era agradável e o trabalho no Templo já estava iniciado, os cantos entoados, o cheiro do defumador apreciado, os consulentes agoniados, muitos cansados, outros calados. Aquela mulher no canto sentada, estava muito incomodada.

Os pretos velhos já estavam em Terra, o atendimento ia ter seguimento e a mulher foi dirigida para falar com pai João, que segurando a sua mão, pede para ela, de Deus a benção. O que traz a filha aqui nesse dia? Por que essa mão tão fria?

Pai João que Deus de mim tenha misericórdia, estou cada dia mais infeliz, quisera ter coragem para na minha vida fazer sabotagem, queria cessar essa viagem. Não durmo direito, sinto dor no meu peito, o choro é meu parceiro desde que cai em erro.



Pai João olhava para a mulher ali sentada em sua frente, parecia muito descrente, tinha o semblante pala dor dilacerado e o coração muito angustiado. Baforou o seu cachimbo, dispersando companhia que só aumentava da mulher a agonia. Continua fia.

Sou casada há vinte e cinco anos e nunca cometi nenhum engano, sempre fui casta e fiel, embora minha vida seja amarga como fel. Nunca amei o meu marido, casei por imposição do meu pai, que negociou com homem rico o pedido.

Tive meus filhos, que são para mim mais que sagrado, mas, nunca tive do amor qualquer regalo. Achava que o casamento era assim mesmo, que amor vinha com o tempo, mas o que vivi até aqui foi sofrimento, fora meus filhos, o restante eu lamento.

Pai João olhava enternecido, para aquela filha que até ali tinha tanto sofrido. Esperando que ela desabafasse, que de toda sua dor ela falasse. Pai João dizia: Que Terreiro era buscado e se o consulente não saísse aliviado, de nada adiantava ele ali, ter estado.

Pai João mesmo infeliz, eu fiz uma promessa, carregar minha cruz e sempre seguir Jesus. A igreja me ajudou até aqui, mas me fiz dele escrava, mesmo quando ele me castigava. Não quero muito me alongar, é que preciso desabafar, porque temo infartar.

Fale filha, o velho está aqui para ouvir, para ajudar. Não importa quantos atenda, mas o que bem eu atenda. Fale de sua dor, deixe que as lágrimas da filha lave sua alma. Mas também perceba que Deus a ninguém condena, que nos ama de forma serena.

Hoje depois de tanto tempo, conheci um moço, mais jovem do que eu e que tem roubado o sono meu. Amo esse moço de todo meu coração e ele tem feito encontrar na minha vida mais razão, mas, tenho medo de me separar e perder de Deus a salvação.

Escute bem o que esse velho vai lhe falar filha. Deus não nos condena por querer ser feliz com essa ou aquela pessoa, Deus a nem um filho seu amaldiçoa. Consulte seu coração e fale com Deus, como sua criação.

O casamento é para nos dar alegria, para nos conduzir na vida com harmonia, Deus não nos quer de alma fria e vazia. O pecado maior é a infelicidade, o ódio e a vaidade que tem destruído a humanidade. Deus nos ama com igualdade.

A morte que separa não é somente a que o corpo dilacera, mas quando também o amor na alma se encerra. A filha pode se analisar, pode decidir qual caminho quer seguir, somos feitos com livre arbítrio, quem tiver sem pecado que dê o primeiro grito.

A mulher ainda jovem e bela, ali na frente de pai João sorria, ela entendia cada palavra que o velho dizia. Deus não era cruel, não estava condenada a viver tão desamada, queria seguir em outra estrada. Seu olhar estava sereno, cessou o lamento.

Eu entendi meu pai João, tomando sua mão ela osculou e levantou, tudo que conversou com aquele preto velho, a ajudou, a venda dos seus olhos, com amor, ele tirou e aliviada a mulher respirou. Cabeça erguida ela sabia bem o que queria de sua vida.


Por: Edleusa Tavares - médium do Cantinho de Francisco de Assis