31 de out de 2014

Fios de conta são sinônimo de poder?



Em Fevereiro deste ano eu completei 10 anos de meu reencontro com a Umbanda e, não a toa, ela continua me ensinando coisas sobre a vida das mais diversas maneiras e a minha descoberta mais recente veio através de um comentário em meu vídeo no Youtube sobre a chagada do Sr. Zé Pelintra no terreiro, em 2010, durante nossa festa de Pretos Velhos. Não foi o vídeo em si que me revelou algo, mas um comentário de um usuário, que me indagou sobre a quantidade de guias (fios de conta) em meu pescoço e se isso me tornava mais poderoso. Revi o vídeo e, de fato, havia ali uma porção de fios de conta, foi o que bastou para uma viagem ao passado...

Me lembrei que uma das primeiras coisas que fiz quando comecei a me desenvolver foi comprar os materiais meus fios de conta, eu queria um para cada Orixá. Por mais que minha Mãe de Santo dissesse que apenas uma guia de sete linhas me bastaria, eu queria agradar a todos os guias. Fiz as coloridas, comprei uma de coquinho para o baiano, uma de olho de boi (semente) para o boiadeiro e um rosário de madeira - enorme, diga-se - para o preto velho, eu também tinha uma grossa guia de palha que dei ao Sr. Omolu. Eu ficava me olhando no espelho com elas, as cruzava no peito pela esquerda, pela direita, em X também. Me achava bonito com aqueles fios. Perdi a conta das vezes em que eles bateram na cara de alguém enquanto algum Guia girava pelo salão, eram muitas guias em meu pescoço.

Quando virei Pai-Pequeno na casa e comecei a usar os brajás de três fios, mantive a mesma
quantidade em meu pescoço. Só que com os estudos e as porradas que a vida me deu, fui me desapegando daquilo tudo. Na medida em que eu ia me dando conta de que as orações sinceras e meu amor pelos Orixás eram mais fortes do que as ferramentas que eu lhes oferecia, fui perdendo o apreço pelos materiais e cheguei à conclusão de que aqueles fios de conta eram, na verdade, meus e não dos Mentores. Eram uma forma de eu me destacar na multidão, de me sentir único e especial dentre meus irmãos. Vaidade pura.

Voltei a olhar o vídeo e vi que aquele pescoço cheio de fios de conta, hoje só tem três: um branco para Oxalá, um branco e vermelho utilizado pelo Sr. Zé Pelintra e um do Pereira, azul e branco como ele gosta. Em giras de esquerda eu uso um preto, do Sr. Marabô e um preto e vermelho, do Sr. Coroado. Nada além disso e me sinto muito melhor comigo mesmo do que há 5, 10 anos.

Quando me livrei do desejo de ser especial, passei a me preocupar mais com o imaterial, com aquilo que minha alma levará daqui para a eternidade e com o legado moral que deixarei aos meus filhos e amigos. e é isso o que realmente importa, não é? O conteúdo acima da forma, o propósito precedendo o processo. a mensagem se sobressaindo em detrimento da indumentária.

É esse desapego todo que eu tento passar aos meus filhos e a você, leitor do blog. Hoje meu terreiro trabalha mais com as causas imateriais do que com as terrenas, ajudando as pessoas a se encontrarem no mundo e a refletirem sobre seus erros e as formas de corrigi-los. Sequer temo um templo físico para a realização de nossas giras, fazemos tudo num círculo de pessoas, no mato e sob o sol da manhã.

Mas isto é assunto para um outro dia.

Axé!


Por: Cláudio Correa
Fonte: Ser Umbandista