16 de mai de 2014

No divã da Umbanda

Já estava querendo escrever algo sobre a impaciência dos consulentes nas casas de umbanda e até mesmo nos centros espíritas, até ser totalmente encorajada pelos últimos posts que li em blogs religiosos, os quais eu sigo e estudo. A inspiração para escrever algo, vem daí! Mas como analisar os “divãs” umbandistas espalhados pelo Brasil, cujos consulentes estão à beira dum ataque de nervos? Hoje podemos dizer que as casas religiosas são a extensão dos hospitais tradicionais, pois os consulentes que aí chegam o fazem pelas enormes enfermidades físicas e psíquicas que o sistema de saúde brasileiro não consegue atender a contento.

Então, muitos irmãos ou pelo menos os mais afoitos podem pensar que o templo religioso umbandista ou de qualquer outra filosofia religiosa, trata-se do “segmento” do Sistema único de saúde (SUS), será?
Entram pela porta da frente, são bem recebidos e orientados, assentam-se nos bancos de madeira ou plástico, ouvem músicas agradáveis que acalmam, escutam as palestras elucidativas enquanto esperam à consulta, são nesse mesmo tempo tratados pelos espíritos guias que atuam na casa em nome da caridade com Jesus... Claro que a procura tem sido enorme pelas boas casas de umbanda e kardecistas, já que os hospitais convencionais e os médicos da Terra não querem ou não podem prestar bem o devido socorro aos seus pacientes, então, essas abençoadas casas religiosas ficam abarrotadas de gente.

As cadeiras são poucas para tanta gente sentar, os corredores ficam cheios e muitos ficam de pé mesmo aguardando sua vez de serem atendidos. Os ventiladores já não são mais suficientes, a espera passa a ser longa e aí, os consulentes irritam-se!

O Grupo de Umbanda Triângulo da Fraternidade, que tem sua sede em Porto Alegre – RS, postou um texto interessante sobre a impaciência de alguns irmãos de caminhada (consulentes), que infelizmente não aproveitam bem a estada na casa.

Minha gente, esta também tem sido a realidade de milhares de templos há anos! Tem um que já frequentei e que sempre ficou lotado de gente, todas as quartas e sextas-feiras, muita gente fica de pé no longo corredor, esperando o momento de entrar no salão principal para assentar-se nos bancos de madeira com encosto para receber o tratamento espiritual.

Cada casa tem uma política de atendimento, umas precisam de senha, outras recebem seus consulentes pela ordem de chegada ou preenchimento de ficha no atendimento fraterno que vai para o guia, que definirá quem precisa ser atendido primeiro, etc.

Estas casas abençoadas que estão espalhadas pelo Brasil têm recebido irmãos enceguecidos pelo sofrimento, pelas desilusões amorosas, pelas paixões e enfermidades de todo tipo, portadores de mágoas antigas, ódios, antipatias, preconceitos entre outros, orgulhos entre outros. Os tempos estão mudados, pois antigamente, na minha infância, as mesmas casas umbandistas ou kardecistas, recebiam um contingente “x” de consulentes e a época em si era outra. Os problemas e as exigências eram bem diferentes das de hoje. No tempo atual, com tanta tecnologia e competição em todos os setores da vida, o mercado de trabalho está mais exigente, as pessoas mais consumistas, a juventude está mais atrevida, os crimes aumentaram, o sexo é mais discutido... a Aids mata milhares por ano, etc. Temos aí as reclamações e as doenças, os problemas psiquiátricos e os traumas, a depressão e o suicídio entre tantos outros problemas, são os temas mais comuns e costumeiros nos templos religiosos, onde os trabalhadores das casas hoje em dia, precisam estudar psicologia (na informalidade) para conseguir auxiliar mais e melhor os consulentes.

Alguns milhares de irmãos de caminhada (que nestes ambientes tornam-se consulentes) diferentemente dos de antigamente (de uns quarentas anos atrás), vão à estes locais em busca não do êxito espiritual, da reforma íntima pelo conhecimento, humildade, caridade, doação e mediunidade, mas sim da ajuda que os tratamentos espirituais podem surtir em seus corpos físicos e em sua psique, através do amparo dos bons espíritos e de seus médiuns.

Os hospitais tradicionais como alhures dissemos, não tratam mais seus doentes, não lhes solucionam os mistérios das dores físicas e psíquicas com a alopatia exata e os exames nas máquinas de última geração, não lhes socorrem a contento, não disponibilizam como é necessário profissionais sérios, competentes e dispostos sinceramente em contribuir com o melhoramento da saúde pública ou pelo menos em suavizar a dor de seus enfermos, oferecendo-lhes o direito a um tratamento digno e que caiba nos bolsos, por isso e só por isso, nossos companheiros de caminhada vão em busca dos “milagres”, das beberagens e da cura para seus males. Mas tem que ser para ontem!!!

Infelizmente muitos desses não preocupam-se com o estudo da doutrina espírita, mesmo porque eles nestes espaços físicos, não estão por vontade própria ou por simpatia e sim para que os Pretos Velhos, lhes acudam! Então meus irmãos, muitos chegam e não querem esperar, não gostam do ambiente, embora não falem, não simpatizam-se com a simplicidade do lugar, não querem ouvir com atenção a palestra, não querem estudar nem entender o que é “essa tal de reforma íntima”.

Não estamos generalizando, mas apontando respeitosamente para a realidade de muitas casas umbandistas que tiveram amorosamente que transformar-se em divã, pois os guias de luz e amor sabem que a cada tempo, as mudanças são necessárias se quisermos realmente ajudar o nosso irmão que sofre.
É exigido dos médiuns por outro lado mais estudos, mais comprometimento e paciência para lidar com os afoitos, egoístas e mal educados.

Mas porque são justamente os Pretos Velhos os que mais escutam reclamações? 

Olha só, é ruim de um consulente aproximar-se de um médium sob a vibração de um Exu para reclamar injustamente. Sai com as orelhas quentes, viu pessoal? Pois Exu não deixa por menos. Os Caboclos então, falam com a simplicidade desse povo tão lindo, mas que tem pontaria certeira! A flecha atinge “na mosca”... Eles falam e o consulente atrevido e mal agradecido, muitas vezes não sai dessas consultas sem também ouvir o que não quer!

Já os Pretos Velhos, são os pais, os avôs, avós e Mães da paciência e da humildade! Guias muito amorosos, psicólogos da alma e por isso, nesses casos, são todo ouvidos. O que não quer dizer que os Exus, as pombagiras e os caboclos não sejam, entretanto é da natureza deles certos procedimentos, que em muito boa hora nos chegam através dos ensinamentos (puxões de orelha quando necessários), doa a quem doer!Os pais velhos ouvem e medicam cada filho de fé de acordo com a sua necessidade, mas por favor não se enganem aqueles que nunca receberam merecidamente um puxão de orelhas de um pai ou de uma mãe velha. Às vezes dói mais do que as dos exus!

Aos impacientes como já sabemos, a dor é o medicamento que trata. Ela nos deixa mais humildes e reflexivos, faz-nos curvar diante da vida, menos orgulhosos e pretensiosos. A dor é talvez, na minha humilde opinião, a única forma da criatura parar para ouvir, ver, sentir e a gradecer! Salve os guias da Umbanda! 

Reflitamos.

Axé!


Por: Letícia Gonçalves