28 de fev de 2014

Umbanda e os Quatro Caminhos para Deus

Podemos dizer, inspirados pela doutrina hindu, que quatro são os caminhos que levam a Deus: o conhecimento, o amor, a ação e o exercício espiritual. Creio que esse tipo de consideração é de extrema importância e possa ser utilizado como base para pensarmos o caminho umbandista. Mas, primeiramente, apresentemos resumidamente esses quatro caminhos:
  • O CAMINHO DO CONHECIMENTO (jnana): é o caminho do filósofo místico. Através do discernimento espiritual o Ser rompe a ilusão da identificação com o eu ilusório (ego) e identifica-se com sua natureza infinita, vasta e verdadeira. O Deus pessoal se torna impessoal e o praticante se reconhece Nele.
  • O CAMINHO DO AMOR (bhakti): é devocional. Devota-se a uma divindade pessoal, com tanto amor, que se perde o ego nessa imensa louvação. Ama-se Deus acima de tudo e todos os nossos outros amores são frutos desse amor primordial. Aqui, Deus é pessoal e o praticante não tem a intenção de se fundir nele, mas sim de viver nesse amor, o que é tradicionalmente representado da seguinte forma: “quero sentir o doce do açúcar, não ser o açúcar”.
  • O CAMINHO DA AÇÃO (karma): é aquele onde o ser atua no mundo, trabalha e realiza, mas desapega-se do fruto de seu trabalho. Basicamente, essa prática “mata o ego de fome”, utilizando-o para viver bem colocado no mundo, mas recusando todo fruto e benefício pessoal adquirido. É o caminho da caridade.
  • O último CAMINHO É O DO EXERCÍCIO ESPIRITUAL (raja): do empirismo místico. Nele, praticam-se exercícios espirituais tendo o objetivo de ir além da mente racional e do nosso eu pessoal, conhecendo, integrando e vivendo nosso eu transpessoal ou divino. O exercício espiritual pode ser bem exemplificado com a prática da yoga, o zazen, a prece contemplativa do cristianismo, a dança dervixe sufi etc. Esse caminho trespassa pelos outros três. 
Bom, mas o que isso tem a ver com Umbanda? Tudo! Vejamos a palavra de seu fundador, o senhor caboclo das Sete Encruzilhadas: “Umbanda é amor e caridade”. Ora, o que aqui ele nos diz claramente é: a Umbanda é uma religião baseada em uma síntese do caminho da devoção (amor) com o caminho da caridade (ação).

Simples, muito simples. Mas, apesar dessas palavras serem muito conhecidas dentro da Umbanda, poucos realmente entendem com profundidade o que elas representam. Tentarei ser o mais claro possível a esse respeito.

Peguemos os grandes representantes da Umbanda, seus verdadeiros mestres. Falo, claro, dos caboclos e pretos-velhos. Toda prática espiritual deles é baseada nesses dois princípios: amor (devoção) e caridade (ação). Devoção ao Orixá a quem respondem, ao ponto de não trabalharem nunca com seus nomes pessoais (símbolo do ego), mas sim, com nomes simbólicos, pois se sentem e atuam unidos pelo amor do Orixá. Um guia dentro da Umbanda realiza o trabalho pelo Orixá, com a consciência do Orixá, no axé do Orixá. É um devoto como os médiuns também são.

Caridade, ou ação, é a palavra de ordem e por isso dizemos que o guia vem trabalhar. E nesse trabalho eles não recebem nada em troca, ou talvez até recebam, mas isso pouco ou nada importa. E quando os agradecemos, as palavras normalmente escutadas são: “agradece a Deus, filho; nêgo apenas cumpre sua obrigação”; ou ainda um simples sorriso sereno.

O que eu gostaria de chamar atenção é para o fato de que se os guias espirituais são mestres ou caminhantes espirituais, a maioria dos médiuns não o são!

Simplesmente, temos um déficit muito grande do entendimento real que se deve ter ao se dedicar à disciplina umbandista.

Em última análise, a Umbanda deveria ser um caminho para que seus praticantes se tornassem como os caboclos e pretos-velhos. Sim, a Umbanda é uma religião de transformação e essa transformação deve ser calcada no exemplo deles. Só então o caminho se abre para o médium, para que ele realmente entenda os fundamentos, princípios e objetivos mais importantes de sua prática.

Vejamos:
  • A caridade do trabalho mediúnico deve ser utilizada para “matar o ego de fome”. De grande auxílio é a indiferença ou a ingratidão daquelas pessoas as quais seus guias tanto ajudaram. Elas te ensinam a única coisa importante desse caminho: Trabalhar e agir, simplesmente. Sem a prensa da eficiência, sem o apego aos frutos. Os frutos são sempre dos Orixás.
  • Agir não apenas no terreiro, mas no mundo. Ética e moralidade são pressupostos básicos dentro de qualquer religião. Desapego também. Caridade é agir desinteressadamente no terreiro, na empresa onde você trabalha ou em qualquer lugar do mundo. É um estado de ser. Leve isso para onde você for. Não se esqueça: um caboclo ou preto-velho se comporta da mesma forma em seu terreiro, em sua casa, ou no terreiro do amigo, pois essa é a natureza dele, seu estado de espírito constante.
  • “O caminho da magia é como andar sobre uma navalha”. O velho axioma hermético alerta-nos sobre o perigo do ego. A magia não é um fim, apenas um meio. Além disso, o que o ego pode fazer por si? A prática magística verdadeira derivaria de um estado de consciência maior, onde o Todo-Orixá age, não o eu relativo. Na Umbanda, a magia deve ter como mestre e condutora a noção de ação desapegada, ou não ação.
  • Deve-se aprender a amar e louvar os Orixás de coração. A dor, as perdas e dificuldades podem ajudar a despertar esse amor. Porém, não faça do Orixá uma entidade superior com a qual você barganha favores e pedidos. Essa é apenas a fase inicial. Quando o amor verdadeiro surgir, o Orixá transforma-se em seu amante, em seu irmão, em seu melhor amigo, ou seu pai/mãe infinitamente bondoso. O médium em seus cantos, giras, firmezas, trabalhos e manifestações deve aprender a sentir a unidade no amor do Orixá. Sua natureza infinita, vasta, original. Orixá é Deus manifestado. Mergulhe, experimente, dance junto Deles. Quando isso acontece o médium finalmente entende o que é o Orixá.
  • Leve o bem amado por onde for. Não apenas no terreiro, pois se apaixonar pelos Orixás é se apaixonar pela Vida. Viva Neles, por Eles e com Eles. Perca-se e se ache Neles. Chore e sorria com Eles. Durma, acorde e se alimente Deles. Esse é o ideal de devoção. Um amor sutil como os lírios de Oxum, mas forte e determinado como os olhos de Ogum.
  • DOIS ALERTAS: Cuidado com o fanatismo e principalmente com o erro de confundir a realidade infinita com seus símbolos. Os rituais, oferendas, imagens etc. não são fins últimos. Eles são apenas trampolins para a realidade que não é tangível. Potencializadores do axé, mas não o próprio axé. Como diz a conhecida oração: “Deus, perdoa três pecados que se devem às minhas limitações humanas; Tu estás em toda parte, mas eu Te adoro aqui neste templo; Tu não tens forma, mas eu Te adoro nestas formas; Tu não precisas de louvor, mas eu te ofereço estas preces e louvores. Senhor, perdoa três pecados que se devem às minhas limitações humanas”.

Creio que essa rápida e superficial introdução ao assunto já dá aos umbandistas uma ideia do comprometimento real que a Umbanda espera de seu praticante. Literalmente, ela funciona como uma escola que tem como objetivo fazer com que os médiuns alcancem as qualidades morais e éticas dos caboclos e pretos-velhos, assim como sua lucidez e iluminação espiritual. Com isso, a compaixão surge e o caminho deixa de ser um fim, para ser o começo do trabalho incansável de auxílio a todos os seres sencientes desse ou de outros mundos e planos de manifestação. Porém, para tanto, deve-se refletir e praticar aquilo que é o objetivo da Umbanda – amor e caridade – ou: união mística amorosa com Deus através de suas manifestações Orixás e trabalho desapegado. É assim que um caboclo ou preto-velho nasce.

É por isso que um caboclo e preto-velho vive…


Por: Fernando Sepe