13 de jan de 2014

Umbanda e influências religiosas indígenas, negras e brancas – Vl parte

candomblé, umbanda, orixá, santoPERGUNTA: Historicamente, na África, o indivíduo se destribaliza, deixando nas lembranças de seu passado os cultos e ritos ancestrais quando se transfere para as cidades, adotando rapidamente novos costumes religiosos. No processo de "migração" dos negros para o Brasil isso não ocorreu. Por que essa inversão de comportamento?

RAMATÍS: - A manutenção das crenças nativas africanas pelos grupos raciais que vieram "migrados" (escravos) apresentou-se como uma maneira de sobrevivência inglória. Na verdade, era uma expressão de revolta contra a nova condição imposta pelo dominador branco. O relho nas costas e 'as repetidas chibatadas faziam curvar o corpo físico sob o guante doloroso das muitas horas de trabalho ao sol, mas não curvavam o espírito dos sacerdotes iorubás, angolanos e jejes. Os rituais e cultos de harmonização com as forças vivas da natureza, praticados no interior da África, onde os negros podiam conviver com a força dos orixás e senti-las encontraram forte similitude com a geografia brasileira, rodeada de matas, montanhas, lagos, cachoeiras, rios e mares.

O homem que deixava a tribo para buscar vida nova na cidade, por sua vontade, desejava ser considerado incluído na nova sistemática social, tendo outra religião como fator relevante e de "progresso", o que favoreceria seus contatos e relacionamentos. Ao contrário, no solo verde e amarelo do enorme Brasil a ser conquistado, o escravo não teve opção de escolha exterior, diante da subjugação do escravizador, e se apegou interiormente às suas lembranças, como forma de adquirir ânimo para suportar os males, o que o fez ser radicalmente fiel às suas origens. Dentro das senzalas imundas, as diversas religiões africanas se conectavam com os orixás, por meio dos cânticos velados e transes rituais, servindo como verdadeiros exaustores psicoemocionais da negritude e que, junto com a utilização milenar das ervas, mantinha a saúde de seus membros. Não sabiam todos os envolvidos que as tradições preservadas estavam de acordo com os ditames cósmicos que impunham o enredamento cármico dessas várias tribos negras com a raça branca, em que o excesso de hoje, para muitos, foi a ausência de ontem para outros tantos. O negro dominado e submisso de agora foi o dominador orgulhoso de antigamente, nas conquistas fratricidas de novos territórios; aquele que é perseguido e rejeitado hoje também realizou tal feito no passado. Houve perfeito equilíbrio do calendário divino, ocasionando sábia inversão de papéis que levou espíritos endurecidos à retificação nas leis espirituais, as quais se estendem indistintamente sobre todos, independentemente de raça e cor da pele, pois são aspectos transitórios, em favor da perenidade do amor que perdoa, e não subjuga.

PERGUNTA: O Brasil tem larga tradição católica, originária preponderantemente de Portugal, país de extrema devoção aos santos, com os quais os fiéis estabelecem relação de favor sempre em troca de algo, presumindo "intimidade" com as coisas do sagrado. Isso não é intensificado na umbanda?

RAMATÍS: - A fé católica nos santos e milagres era comum aos portugueses que aportaram no Brasil. Os lusitanos acostumados às "rezadeiras", com promessas aos santos padroeiros, seus intercessores divinizados, acreditavam que seus pedidos eram levados mais rapidamente a Deus. Na luta dos conquistadores contra os índios selvagens e os negros sem alma,[6] pela preservação da povoação dos territórios, invocavam os santos guerreiros, como Santo Antônio, São Jorge, São Sebastião e São Miguel. Contra as doenças de pele, a tuberculose e a hidrocefalia, entre tantas outras enfermidades da época que acometiam seus familiares, reivindicavam apoio dos Céus por meio de ladainhas e autoflagelações a São Roque, São Brás e São Lázaro; das mulheres, como bom comportamento, exigiam que durante as missas intermináveis ficassem ajoelhadas, orando à Virgem Maria, em suas aparições como Nossa Senhora das Dores, da Conceição, do Parto, característica das famílias patriarcais portuguesas que elegiam a pureza de Maria como modelo de comportamento para suas moçoilas e matronas.

[notice][6] Os negros e índios passaram a ter alma, para a Igreja Católica, a partir de 1741, com a bula papal Immensa Pastorum, selada pelo papa Bento XIV, que declarava que essas raças, apesar de infiéis, eram receptivas à conversão como todas as outras. A aceitação das almas dos negros e índios simboliza a imposição da espiritualidade branca do catolicismo sobre as concepções originais dos escravos e silvícolas, que se apresentavam de fé inabalável, profundamente aferrados a seus mitos e rituais milenares, os quais foram combatidos ferrenhamente com muitos assassinatos que "contribuíam" para os "Céus" na extinção dos "endemoniados" da Terra, que não aceitavam a catequização imposta.[/notice]

Na verdade, o catolicismo colonial é profundamente mágico e místico. Mesmo o clero proibindo as superstições pagãs, taxadas de heréticas em plena vigência inquisitorial, o discurso doutrinário não pregava a inexistência dos fenômenos ocultos e milagreiros. De maneira velada, os clérigos incentivavam essas práticas mágicas de apelo ao divino para conseguir benesses materiais, desde que a intervenção ao sobrenatural na vida dos crentes fosse propriedade da Igreja e por ela patrocinada. Assim, bentinhos, figuras, medalhas de santos, depois de benzidos pelos sacerdotes e colocados debaixo de travesseiros e colchões, detinham poderes miraculosos. Quando costurados em pequeno pedaço de pano viravam amuletos poderosos contra as forças maléficas do demônio. Ter em casa um vidro de água benta garantia proteção contra os maus espíritos, bastando espargi- Ia nos cantos, entre cânticos. As fitas cortadas e abençoadas pelos padres nas missas dominicais, se amarradas na cintura do crente, removiam dores, nevralgias e problemas de coluna. Para as almas alcançarem os céus, além da imprescindível extrema-unção, quanto mais velas, novenas e ladainhas fúnebres, maiores seriam os portões de entrada do paraíso.

Todo o fascínio mágico do catolicismo se confundia com a missa dominical: as rezas ritmadas, os sinos e campânulas, o altar com ossos e pedaços de roupas dos santos, a purificação pela fumaça aromática dos incensadores, os anjos e querubins retratados na abóbada celestial nos tetos das capelas, sob os olhos intimidados dos crentes pedintes, tudo isso estabelecia uma fascinação mágica de que as lideranças eclesiais se aproveitam para reprimir fiéis, convertê-los e atraí-los.

Os negros e índios das cidades, proibidos de entrar pela porta principal das igrejas, eram acomodados em pé nas laterais, aos fundos (os melhores lugares eram da nobreza branca), e ficaram totalmente submetidos à religião do conquistador português, sendo convertidos, porém preservando sua religiosidade original, sem perda da fé ancestral. Nos dias atuais, na umbanda, essa relação de troca mágica entre os consulentes pedintes e os espíritos é ainda visível. De fato, a grande aceitação das tradições afro-ameríndias amalgamadas com o espiritismo e os santos católicos penetrou intensamente na alma mística do brasileiro: Existe um infindável número de terreiros umbandistas e centros universalistas em que é possível o estreitamento do contato com os espíritos dos mortos, criando uma relação mágico-religiosa personalizada pelo transe mediúnico. Nela, deságua o carma grupal que envolve as individualidades encarnadas e desencarnadas em busca de redenção espiritual, pois todas estão detidas no orbe terrícola, impedidas momentaneamente de alcançar o passaporte cósmico que as levará a novas paragens espirituais. Como dizem os pretos velhos em suas mensagens simples e de grande sabedoria: "...quando a pedra aperta no sapato, há de se parar um pouco para aliviar a dor no pé, podendo o filho continuar depois a caminhada".

Considerando o mediunismo de forma ampla, o qual não se restringe à umbanda, não vos deixeis enganar, tendo em vista que as preces veladas, as posturas silenciosas e compungidas de muitos espíritas e espiritualistas da "Nova Era" são recheadas de pedidos íntimos e secretos de apelo materialista, além de muito escassos no merecimento, de acordo com as leis de causa e efeito e respeitando o livre-arbítrio do próximo. Na relação individual com o plano espiritual, são inevitáveis os maneirismos e condicionamentos mentais arraigados no inconsciente, como podereis deduzir por vós ao avaliar vosso próprio íntimo.

[important]Por: Ramatis/Norberto Peixoto - do livro: A Missão da Umbanda - Editora do Conhecimento
Fonte: Ramatis - Missão de Luz[/important]