31 de jan de 2014

Exu, o grande paradoxo na caridade umbandística

Seria possível aprofundar essa questão, polêmica por si, como, por exemplo, refletindo sobre as múltiplas facetas de exu e a diversidade de interpretações existentes nos cultos.

Desde os idos da antiga África que exu deixa estupefatos os circunstantes. Para alguns umbandistas, mais ligados à tendência católico espirítica, é um grande incômodo, e não são permitidas suas manifestações. Para outros, liberados de constrições culposas, exu ainda é vestido pelo inconsciente do imaginário popular com capa vermelha, tridente, pé-de-bode, sorridente entrelabaredas. Há ainda os que "despacham" exu para não incomodar o culto aos"orixás". "Exu, sendo considerado entidade, não deve entrar", dizem os ortodoxos que preconizam a pureza de algumas nações, pois ali não há lugar para egum, espírito de morto.

Existem os mais entendidos nos fundamentos da natureza oculta que compreendem exu como o movimento dinâmico de comunicação entre os planos de vida. Entendem que o axé (asé) impulsiona a prática litúrgica, que, por sua vez, realimenta-o, pondo todo o sistema em movimento. Exu, vibração indiferenciada, não manifestada na forma transitória de um corpo astral ou outro veículo do plano concreto, é o que põe em movimento a força do axé, por meio da qual se estabelece a relação de intercâmbio da dimensão física (concreta) com a rarefeita, a dimensão espiritual.

Em conformidade com essa conceituação, exu passa a ser indispensável, além de o elemento de ligação mais importante em toda a liturgia e a prática mágica umbandista. Sendo exu o transportador, o que leva e traz, abre e fecha, para os africanistas ligados às tradições antigas, como concebê-lo sem o sacrifício animal para a realimentação da força vital (o asé), diante do preceito de que o sangue é o perfeito e indispensável condensador energético com essa finalidade?

Quando nos referimos a africanista, não queremos dizer negro. Para ser africanista, no sentido de preconizar a retomada dos antigos ritos tribais, pode-se ter qualquer cor de pele.

Existem muito negros que têm verdadeira ojeriza a qualquer sacrifício, assim como há muitos brancos a postos com faca afiada.

Pedimos muita reflexão sobre as próximas afirmações. Reduzir toda a movimentação das forças cósmicas e seu ciclo retro vitalizador ao derramamento de sangue pelo corte sacrificial é uma visão estreita e fetichista da Divindade. É uma posição reducionista, que demonstra dependência psicológica. Na atualidade, verifica-se que essa "práxis" extrapolou os limites de fé dos antigos clãs tribais e objetiva a manutenção financeira de cultos religiosos e o prestígio de seus chefes, dado que o sangue está ligado equivocadamente à força, ao poder, à resolução de problemas e à abertura dos caminhos. Saber manipulá-lo, ter cabeça feita, ser iniciado no santo, tudo isso simboliza esse poder. Esse apelo mágico divino atrai, pelo natural imediatismo das pessoas. em resolver seus problemas.

Afirmamos que é plenamente possível movimentar todo o axé, harmonicamente integrado com a natureza de amor cósmico e natureza crística da umbanda, equilibrado com sua essência, que é fazer a caridade desinteressada e gratuita, sem ceifar vidas e derramar sangue. O próprio aparelho mediúnico é o maior e mais importante vitalizador do ciclo cósmico de movimentação do axé. Ele é o "fornecedor", a cada batida de seu coração, do sangue que circula em todo o seu corpo denso, repercutindo energeticamente nos corpos mais sutis e volatilizando-se no plano etérico. Dessa forma, os espíritos mentores que não produzem essas energias mais densas e telúricas valem-se de seus médiuns que fornecem a vitalidade necessária aos trabalhos caritativos aos necessitados. Há os espíritos que vampirizam esses fluidos. São dignos de amor, amparo e socorro os que fazem as falanges de umbanda.


Por: Ramatis/Norberto Peixoto - Do livro: “A Missão Da Umbanda” - Editora do Conhecimento.