14 de out de 2013

Nem sempre são chifres que colocam na sua cabeça!

charlatão, mediunidade, dinheiro, cobrança, umbandaExiste um ditado popular que diz o seguinte: "Chifre é uma coisa que colocam na sua cabeça", essa frase tem um sentido dúbio, ou seja, por um lado deseja acalmar o possível corno, indicando que as suas desconfianças são infundadas, por outro lado, pretende lembrar que se alguém o é, foi porque a pessoa amada lhe traiu.


Piada a parte, em qualquer religião encontramos diversas coisas que são colocadas nas cabeças dos adeptos e que é aceito por eles sem ao menos se questionar a sua validade, se é certo ou errado etc.


No movimento umbandista, não é diferente, encontramos um grande número de chifres, travestidos de ensinamentos, orientações, doutrinas, ritos, liturgias etc., que são colocados nas nossas cabeças e nós aceitamos passivamente sem pensar ou refletir sobre o assunto.


Dogmas(1) de Fé, assim como no Catolicismo (ex.: a virgindade de N. Senhora), facilmente encontramos no movimento umbandista diversos assuntos que são tratados de forma dogmática(2) e passado para os filhos-de-santo como verdades inquestionáveis(3).


Muitas vezes esses dogmas ou assuntos inquestionáveis, são histórias oriundas(4) em um passado distante e perpetuadas pela tradição oral(5). Outras vezes são assuntos nascidos por conta de superstições(6) que de tanto serem repetidos acabam se transformando em verdades e aceitos por muitos filhos-de-fé.


Por outro lado, existem as coisas impostas através da autoridade de quem as transmitem, geralmente os dirigentes de terreiros (Pais/Mães de Santo), estejam ou não incorporadas com suas entidades espirituais.


Podemos, é claro, aceitar determinadas coisas por um certo tempo, até que tenhamos as condições de questioná-las, ou seja até reunirmos conhecimento e/ou experiência suficiente para realizarmos uma análise, uma crítica pessoal, avaliarmos e decidirmos se devemos ou não aceitar e adotar o que estão nos orientando, aconselhando, ensinando ou impondo.


A Fé cega aceita tudo sem pensar. A Fé racional é aquela que possibilita aceitarmos aquilo que nós conseguimos entender, pesar e definir a real importância para nossas vidas materiais e espirituais. Isso não significa dizer que devemos agir como Tomé, ver para crer, mas sim que analisemos tudo e somente aceitemos o que a nossa evolução espiritual, nesse momento permite adotarmos como verdades. Eu digo nesse momento, pois se falamos em evolução, estamos falando de algo que não é estático (parado), mas de um processo dinâmico, que se modifica, quando alteramos ou sofremos uma alteração na nossa realidade, quando aprendemos coisas novas, adquirimos novas experiências etc., logo temos uma opinião sobre algum assunto hoje, e podemos em seguida, diante de uma nova visão ou devido a determinadas circunstâncias alheias a nossa vontade, mudarmos totalmente de idéia a respeito.


A Umbanda deseja que todos os filhos-de-fé, se equilibrem no chão com os seus próprios pés, andem com suas pernas, pensem e raciocinem por si mesmos e sejam todos senhores de suas evoluções espirituais.


Pais/Mães-de-Santos, são apenas facilitadores para que alcançemos esta condição. Acontece que deixamos ser confundidos e permitimos que eles nos façam totalmente dependentes deles. Quando eles não são sérios, íntegros e conscientes dos seus papéis de facilitadores e das suas funções de dirigentes, se aproveitam da situação e perpetuam essa dependência indefinidamente, não nos libertando nunca.


Somos então aprisionados psíquica, emocional e psicologicamente. Aceitamos todas as "verdades" que nos impõem, deixamos de viver nossas vidas para incorporarmos a vida dos outros, respondemos as necessidades alheias antes das nossas e do nossos ente queridos, passamos espiritualmente e até materialmente a comer, a beber e a respirar das migalhas que nos ofertam, migalhas, pois nunca será uma porção suficiente que permita o nosso desenvolvimento para alcançarmos a nossa independência espiritual, que já tinhamos e que acreditamos não ter mais a não ser por via deles (Pais/Mães-de-Santo).


Muitos filhos-de-fé se tornam fanáticos, muitos se obsidiam, muitos se perdem, outros tantos se viciam e finalmente poucos conseguem manter a sua integridade para na decepção conseguirem se levantar novamente. Isso é o ponto máximo que chegamos quando realizamos o caminho de deixarem ser colocados chifres em nossas cabeças e nos abrimos para uma total depedência em nossas vidas.


Descobrimos tarde de mais, que nem sempre são chifres que colocam em nossas cabeças.


Começarei a postar no blog, uma sequência de artigos ou de pequenos textos intitulados "Tirem esse chifre que colocaram na sua cabeça" e que tratarão de temas que muitos aceitam como "verdades" e que na verdade é preciso olhar de outra forma para concluir se realmente é isso mesmo.


Listaremos algumas dessas preciosidades que muitos irmãos aceitam como verdades inquestionáveis:




  • Orixá é energia e/ou força da natureza.

  • As histórias dos Orixás são verdadeiras.

  • Médium bom é inconsciente.

  • Quando a entidade bebe incorporada, o efeito do álcool é levado por ela ao despertar o seu médium.

  • É possível se "cortar" ou "afastar" a mediunidade de alguém.

  • Orixá castiga e abandona (vira as costas) para os seus filhos.

  • Os Orixás brigam entre si ou tem desavenças uns com os outros.

  • Se você pode dar ouro ao seu Orixá, não dê prata ou cobre.

  • É possível se "prender" ou "amarrar" o anjo de guarda de alguém.

  • Todo caboclo foi índio, todo preto-velho foi escravo, toda pomba-gira foi prostituta ou teve vida similar etc.

  • Exú é um demônio e seu chefe é o Maioral.

  • Orixá come e bebe.

  • Quanto mais o médium estrebuchar para incorporar, melhor será a sua incorporação.


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Glossário:


(1) Dogmas - ponto fundamental de uma doutrina religiosa, apresentado como certo e indiscutível, cuja verdade se espera que as pessoas aceitem sem questionar.


(2) dogmática - exposição intelectual e sistemática dos dogmas e/ou doutrinas religiosas de modo a formar um conjunto coerente.


(3) inquestionáveis - que não se pode questionar, duvidar e criticar.


(4) oriundas - originadas, que teve origem de algum lugar.


(5) tradição oral - comunicação oral de fatos, lendas, ritos, usos, costumes etc. de geração para geração.


(6) superstições - crenças ou noções sem base na razão ou no conhecimento, que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas inofensivas, a depositar confiança em coisas absurdas, sem nenhuma relação racional entre os fatos e as supostas causas a eles associadas; crendice, misticismo.


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[important]Por: Pai Caio de Omulu
Fonte: Umbanda sem mistério[/important]