17 de jul de 2013

O que Mateus (4,4) ensina a nós umbandistas?


Não só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que procede da boca de Deus


Mateus 4,4.



igualdade, racial, religiosa, credo, sexo, respeito, diferenças, umbandaEsquecemos, na maioria das vezes, que ensinamentos espirituais legítimos, independentes de sua origem e forma de apresentação, têm um caráter universal.


Assim não prestamos muita atenção naquilo que procede da sabedoria de outras religiões, principalmente daquelas que geralmente discriminam a Umbanda.


Em Mateus, como destacamos acima, encontramos uma exortação para algo que deveríamos incorporar em nosso dia a dia como umbandistas - a PALAVRA!


Para os cristãos uma das principais interpretações deste versículo é de que não vivemos apenas do alimento corporal, mas também do alimento espiritual. Em outras palavras, como li em um fórum protestante, "precisamos de Deus em nossas vidas e não apenas das coisas materiais". Mais ainda, "temos que ter fome da palavra de Deus (Bíblia) para que possamos todo dia termos uma maior intimidade com Deus" [sic].


Sei o que vocês devem estar pensando... Está parecendo conversa de católico carismático e abordagem de evangélico pentecostal isso nada tem haver com a Umbanda. Ledo engano! Na minha humilde opinião rejeitamos a PALAVRA na mesma proporção que necessitamos dela em nossas vidas.


Fazendo uma breve analogia, o "pão" no versículo de Mateus remete ao alimento natural, ao plano material, por correlação ao que é físico, concreto e objetivo. Por outro lado, a "Palavra" remete a leitura, os ensinamentos e os estudos que alimentam alma, como também ao plano espiritual e por consequência o que é sutil, abstrato e subjetivo.


No movimento umbandista, já há bastante tempo, o "fenômeno" é o que de mais físico, objetivo e concreto tem relevância no dia a dia do adepto. Como fenômeno estou aqui denominando de uma forma ampla, todo o fato, aspecto ou ocorrência espiritual passível de observação e experiência pelas pessoas no nosso universo religioso.


Quando eu coloco a questão física, objetiva e concreta do fenômeno é porque invariavelmente as pessoas, sejam adeptas ou consulentes esperam sempre da religião algum tipo de resultado. Em outras palavras e sem querer generalizar, apenas quando o fenômeno gera algo de concreto é que acontece a conexão entre as pessoas e a Umbanda. O substrato gerado por essa conexão é o que chamamos de crença e não fé, já que fé, no meu entendimento, é totalmente diferente de crença, tem outra origem e composição. Esclarecendo melhor, na minha visão, CRENÇA é acreditar em algo com o mínimo de lógica e racionalidade de forma a conseguir argumentar e fundamentar ao menos para si mesmo. FÉ é "transintuitiva", vai além da racionalidade, pois ela é internalizada na alma. É ter certeza sem precisar de provas, é reconhecer a verdade sem precisar acreditar que ela o é.


Baseado nessa diferença é que muitos acreditam, creem, uma crença religiosa eivada de racionalismo (aqui colocado como "atividade do espírito de caráter meramente especulativo"), de obediência rigorosa á ortodoxia de doutrinas e respaldado por um pseudo-cientificismo religioso. A fé passa ao largo ou é confundida com tudo isso.


Para o adepto o fenômeno principal e imediato é a mediunidade e dentre os seus vários tipos de manifestação a mais desejada, a mediunidade de incorporação. É preciso se ter uma ou várias entidades e incorporar significa ser um igual aos demais médiuns da gira, fazer parte, conquistar um papel importante no seio de sua casa espiritual. Eu sempre exemplifico que o sonho de consumo de um adepto na religião segue o seguinte padrão, não necessariamente nesta ordem e sem a obrigação de englobar todos os tópicos, lembrando que cada caso é um caso:




  1. Deseja frequentar um terreiro;

  2. Ao frequentar, quer fazer parte da corrente (vestir uma farda, ter uma guia no pescoço etc.);

  3. Ser MÉDIUM preferencialmente de incorporação;

  4. Ter um cargo hierárquico e/ou uma função de relevância;

  5. Aprender sobre fundamentos e magia;

  6. Ser consagrado sacerdote;

  7. Por fim, ser um Sacerdote ou Sacerdotisa reconhecido(a), com casa aberta, assistência lotada, além de muitos filhos espirituais.


Evidentemente, que não vemos nada de errado em se almejar essas conquistas. O errado está em transformar tudo isso no motivo para ser umbandista, ou pior ainda, enxergar apenas isso na religião.


Para o consulente o fenômeno é o resultado alcançado, o "milagre" em sua vida, as realizações dos pedidos, a cura etc. O problema é que quanto mais resultados se obtêm, mais resultados se deseja alcançar. Usando uma analogia pobre é a mesma relação de uma torcida com o time de futebol da sua preferência. Enquanto o time está invicto e ganhando campeonatos tudo corre a mil maravilhas. Basta uma derrota ou uma sequência delas para a revolta tomar conta da torcida, sendo o responsável pela má fase e o primeiro a ser punido o técnico do time. Com o consulente não é diferente. Basta não se alcançar um resultado positivo, que a relação se deteriora e o até então poderoso Pai/Mãe-de-Santo , já não é mais visto com os mesmos olhos de admiração, respeito e confiança. Um "quê" de desconfiança começa a pairar no ar e acaba levando este consulente a ir atrás de outros que possam vir a de fato resolver a sua fieira interminável de necessidades, pedidos e desejos.


Sob esse prisma de resultados a qualquer custo, a todo tempo e hora e um atrás do outro, filhos espirituais agem muitas vezes como os consulentes e consulentes como filhos espirituais. Ambos se justapõem aos cobrarem seus direitos, resultados e os "milagres" (de preferência os de caráter material) que o Pai/Mãe-de-Santo devem concretizar em suas vidas. Responsabilidades e deveres para quê? Consciência das consequências de seus pedidos e desejos, nem pensar. Enxergar a falta de necessidade de muito dos pedidos ou resultados que se desejam alcançar isto sim é querer que um milagre aconteça.


Se fizermos uma enquete para sabermos o motivo pelo qual as pessoas são adeptos ou consulentes da Umbanda quantos responderiam:


a) quero me transformar em uma pessoa melhor;
b) quero evoluir espiritualmente;
c) desejo encontrar o Sagrado;
d) a Umbanda é o meu 'religare' com Deus e o mundo espiritual;
e) desejo praticar o bem, o amor e a caridade.


Se fosse um teste de respostas objetivas teríamos que acrescentar mais uma:


f) nenhuma das respostas anteriores.


Esta última seria a resposta mais marcada se as pessoas tivessem coragem de olhar no espelho de suas consciências respondendo a verdade.


Sei... Vocês acham que estou pegando pesado, carregando na tinta. A bem da verdade, um dos principais motivos que mantenho esse blog ativo é realizar um exercício pessoal de reflexão sobre a Umbanda e uma análise crítica do movimento umbandista.


Mais uma vez repito, eu enxergo uma diferença clara entre a Umbanda, a religião, e o movimento umbandista (conjunto das pessoas que dela fazem parte). A Umbanda é uma gnose completa em si mesma. Um religare legítimo, milenar, profundo e completo. O movimento umbandista, no entanto, com raríssimas exceções, está muito distanciado da essência da religião e preso por demais a forma. Importante frisar que não me considero incluso nas 'raríssimas exceções', ao contrário ainda tenho que derramar muito suor na lida umbandista para chegar lá.


Ao realizar uma análise crítica, o meu objetivo é colaborar para o despertar de uma atitude dos meus pares no intuito de mudar muitas das realidades equivocadas que encontramos no dia-a-dia do nosso movimento religioso. Realidades essas que por sua capilaridade e enraizamento em nosso seio geram uma percepção errônea da Umbanda. Haja visto, o estereótipo com que somos taxados: macumbeiros, catimbozeiros (sem que as pessoas tenham a mínima ideia do significado destes termos), praticantes do baixo espiritismo, da magia negra entre tanta coisa que imputam a todos nós.


Geralmente, a nossa reação é de classificarmos essas percepções errôneas como discriminação e preconceito, ou o termo mais em voga na atualidade, intolerância religiosa. Com respeito a isso nos valemos rapidamente das leis em vigor (graças a Zambi elas existem), defendemos arraigadamente nossos direitos de livre expressão religiosa, mas no entanto continuamos calados, sem tomarmos uma atitude, no mínimo proativa, para fazermos uma divisão, bem definida do que somos e praticamos, daquilo que os outros se valem da nossa religião para angariar lucros financeiros, por exemplo. ‘Pais e Mães de poste’ são representantes diretos do que estou falando.


Muitos desejam resolver essas realidades equivocadas através da fórmula mágica da ‘codificação’ e da ‘solução final’, ou seja, o expurgo do seio da religião de tudo aquilo que um conjunto de ‘eleitos’ definissem que: NÃO É UMBANDA!


Realizado essa faxina doutrinária e ritualística teríamos uma ‘umbanda’ alvíssima, limpa e completamente desinfetada, podendo assim iniciar o seu processo de reconhecimento por parte da sociedade e reclamar o seu direito inequívoco de igual às grandes religiões da civilização.


Evidentemente, que teríamos que formatar um código doutrinário e ritualístico, alguns dogmas seriam de bom tom que passassem a existir, precisaríamos de todo um conjunto de leis e um manual rígido de conduta moral, um tribunal eclesiástico para aplicar essas leis seria necessário. Aos infratores uma punição exemplar, aos renitentes quem sabe se valer da velha e saneadora “caça às bruxas”, ou promover uma reedição umbandista da famigerada “inquisição”. Melhor ainda, que tal as escolas umbandistas serem taxadas de seitas heréticas e convocarmos uma ou várias ‘cruzadas’ para combater a heresia pagã?


Quem sabe decidirmos que todos os umbandistas nascem com o ‘pecado original’ da diversidade e que desta feita é necessário que ele siga a risca o catecismo desta nova ‘umbanda’ para ter então o direito de ir para o paraíso (Aruanda), caso contrário ao inferno (trevas). É claro se ele pagar corretamente as salvas de uma série de obrigações ao longo de sua vida umbandista, ele terá as indulgências necessárias para remir os seus pecados e diminuir os seus dias de trevas.


Brincadeiras à parte é preciso que se diga:


Antes de codificação precisamos é de CONSCIENTIZAÇÃO.


Menos forma mais ESSÊNCIA.


No lugar do que é e o que não é, IDENTIDADE.


Deixar de discussões sobre as nossas diferenças e buscar nos aproximar pelas SEMELHANÇAS.


Ao contrário de nos fascinarmos pelo fenômeno, nos encantarmos pela PALAVRA.


Huberto Rohden no livro “A Mensagem Viva do Cristo” comenta que:




Se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia. Esse homem pode, em teoria, aceitar que Deus existe e, apesar disso, não ter fé



Retornando a Mateus vimos que:




Não só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que procede da boca de Deus



Falta-nos conjugar o VERBO em nossas vidas. Falta o ensinamento e a prática da PALAVRA em muitas searas umbandistas.


PALAVRA que nos transformem em pessoas melhores, que nos religue conscientemente com o Sagrado.


PALAVRA exaustivamente expressa pela sabedoria do mundo espiritual umbandista (entidades espirituais) e que não consegue calar fundo em nossos espíritos tão preocupados e ocupados com a forma em detrimento da ESSÊNCIA.


Buscamos sim o conhecimento. Conhecimento este que satisfaça ao nosso intelecto. É só ver qual o tipo de estudos e ensinamentos são os mais procurado nos terreiros? Quais os tipos de cursos que interessam as pessoas? Mediunidade, Magia e Sacerdócio para ficarmos no exemplo. Estão errados os terreiros que promovem este tipo de aprendizado? Não. Como se estuda em economia é uma questão de oferta e demanda. Estarei então jogando a responsabilidade em cima das pessoas sobre o que lhes é ofertado? Sim estou, mas também chamo a co-responsabilidade de dirigentes umbandistas para que isso não se transforme na única causa válida.


Esses tipos de estudos, ensinamentos e cursos fomentam para muitos apenas a crença e não a fé. Proporciona o aumento do conhecimento e não a conquista da sabedoria. Produz o desenvolvimento intelectual e não a evolução espiritual.


Ao valorizar o fenômeno no lugar da palavra nos aproximamos do efeito e não da causa. Nos distanciamos da origem e do cerne da questão de nossas existências.


Precisamos da PALAVRA que nos conecte, que realize a nossa comunhão com Deus, que nos sintonize com o Sagrado expresso na natureza e no mundo espiritual.


PALAVRA que nos restitua a fé, que transmute o nosso corpo em um verdadeiro templo espiritual e faça a nossa alma transcender do conhecimento adquirido (crença), para a consciência plena do microcosmo imerso no macrocosmo, do ser individual para o cidadão planetário, do ser espiritual kármico para o ser uno com o cosmo.


A Umbanda proporciona o caminho para que todos nós possamos Saber, Fazer, Viver e Ser com toda a plenitude espiritual. Para isso:


Não só do fenômeno deveria viver o umbandista…


[important]Por: Pai Caio de Omulu
Fonte: Umbanda sem mistério[/important]