22 de abr de 2013

Discriminação – parte I

prostituição, discriminação, prostituta, mulher, vidaTodos os outros protetores já haviam se desligado de seus médiuns, em razão do adiantado da hora. Além disso, não havia mais pessoas para serem atendidas. Fora uma noite igual a tantas outras, em que o salão se enchia de pessoas famintas, em busca do pão da fé e do conselho amigo dos pretos velhos. Vovó Benta, no entanto, continuava incorporada em seu aparelhinho, batendo o pé no chão e cantarolando. O cambono-chefe se dirigiu a ela, informando delicadamente que os atendimentos haviam se encerrado, autorizando-a a "subir".


- Salve, camboninho, nega véia sabe que o terreiro esvaziô, mas tô aqui esperando aquela zi fia que tá chegando na portera!


Olhando para a porta, o cambono avistou uma senhora chegando, e, mesmo sem falar nada à preta velha, seus pensamentos reprimiram o tipo de conduta que se refletia na figura daquela mulher. Quando estavam prestes a encerrar o trabalho, ela chegou escondendo o rosto atrás de um xale. "Ainda se fosse alguém decente, mas essa criatura! Prostitui-se nas outras noites e vem até aqui se fazer de santa!", pensava ele. Vovó Benta captou as ondas de pensamento do cambono e apenas sorriu, pensando sobre como a vida é uma caixinha de surpresas.


- Saravá, zi fia! Como suncê tem passado?


- Minha mãe, minhas noites têm sido um terror. Os pesadelos não me deixam dormir. Durante o dia tenho batido perna atrás de emprego, mas, a senhora sabe, minha fama faz todas as portas se fechem.


- Não desanime, filha. Se você decidiu realmente que quer mudar sua vida, precisará de persistência e fé. Não desista de procurar. Há um lar onde a dor está chegando; lá estão precisando de alguém de coração grande, com paciência e vontade de trabalhar. Nesse tal lugar, enquanto a filha ganha seu pão honestamente com seu trabalho, vai poder ressarcir os erros de um passado que desconhece e do qual fugiu, padecendo até hoje.


- Não quero desistir, mas são muitas as portas que se fecham para mim. Às vezes, penso que não vale a pena mudar de vida.


- A escolha é sua, por isso o Grande Pai deu-nos o livre-arbítrio. No entanto, esta preta velha vai dizer para a filha que, sem subir e descer a montanha, sem atravessar o lodaçal e sem passar pelas águas turbulentas do rio, ninguém chega até a porta da Casa do Pai, a única que não se fecha para nenhum dos filhos. Prova disso é o fel que o próprio Cristo Jesus precisou provar antes de se elevar aos Céus.


- Minha mãezinha, ontem mesmo vim a esta casa me oferecer para limpá-la durante o dia, como forma de começar a fazer caridade, porém me aconselharam a me restringir a vir às sessões de caridade, pois não ficaria bem uma "mulher da vida" limpar a casa dos sagrados orixás.


- Mais uma vez o livre-arbítrio, filha. Jesus recebeu Maria Madalena e permitiu que ungisse seus pés, porque viu seu coração; Ele não se limitou a julgar seus atos. Continue insistindo, filha, mostre que sua intenção é boa, peça uma chance de mostrar seu trabalho. Abençoando a mulher sofrida, de coração e forças já abatidos pelas noites de insônia dos tantos anos vividos em prostíbulos, Vovó Benta deu a ela um patuá e pediu que o usasse em sua bolsa, acreditando que estaria protegida e amparada por todos os orixás. Despediu-se, quando a corrente mediúnica, apressada, já cantava o ponto de encerramento.


A preta velha, limpando as energias de seu aparelho com um galho de arruda, chorou sentida pela falta de entendimento que alguns filhos ainda apresentam sobre o real significado da caridade. Depois de largá-lo, permaneceu ainda ali com os outros espíritos que haviam prestado serviço naquele templo e que agora, de mãos dadas, cantavam e dançavam ao redor dos médiuns, reequilibrando suas energias com a magia do som e do movimento.


Alheios a todo o benefício que recebiam dos bondosos pretos velhos, alguns médiuns bocejavam, outros recostavam-se na parede, sentindo-se cansados; outros ainda pensavam no programa de televisão que estavam perdendo, graças "àquela senhora" que sempre atrasava o encerramento dos trabalhos.


A semana corria, e os acontecimentos andavam conforme a prescrição de uma força maior que a dos homens. Num entardecer, uma mulher grávida, com fortes dores do parto, tentou chamar o marido, que estava no trabalho, quando a bolsa d'água estourou, iniciando forte sangramento.


Alarmada pelo barulho, a filha adolescente saiu do quarto e, vendo a mãe no chão, desmaiada, saiu para a rua gritando e pedindo socorro. Uma mulher passava por ali, cabisbaixa e desanimada, mas não hesitou em entrar correndo e atender a mulher, cuja criança já ensaiava nascer. Só teve tempo de lavar rapidamente as mãos e pedir à menina que providenciasse toalhas e água quente; fez o parto ali mesmo...


[important]Por: Vovó Benta - do livro: “A Missão Da Umbanda” - Editora do Conhecimento
Fonte: Ramatis - Missão de Luz
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