12 de fev de 2013

Bloco dos Músicos - Senhor Sete da Lira

carnavalOs preparativos para os festejos carnavalescos estavam intensos e os trabalhadores da Escola Unidos da Vai Que é Festa, grupo com sede na periferia de uma grande cidade brasileira, agitavam-se no barracão, correndo de um lado para outro, terminando a montagem dos carros alegóricos, conferindo as fantasias, ultimando os preparativos de acordo com o tema escolhido para o desfile na passarela do samba. Uma correria danada, coordenar todo o pessoal envolvido, definir quem faria o que, para que tudo saísse nos conformes como o planejado ao longo do ano. O tema escolhido apresentaria o enredo “Os Prazeres do Mundo” e uma ala de belas mulheres selecionadas criteriosamente, vestindo peças de roupas minúsculas, praticamente seminuas, com os corpos esculturais a mostra, gingando e sambando, num convite capcioso a festejar os prazeres e licenciosidades da vida, com certeza faria o maior sucesso. Levantaria o público e os jurados, causando furor, excitando os sentidos de tal forma que seria praticamente impossível não ser tocado pela onda de sensualidade que se espalharia pela avenida. As fantasias cuidadosamente escolhidas e o brilho das lantejoulas dariam o toque de mil e uma noites com sedas, cetins e plumas, muitas plumas. O ouro que seduz brilhando, ofuscando os sentidos na noite mágica dos festejos momescos em que a população deixa tudo de lado para curtir as delícias do carnaval. Colocando todos os recalques para fora numa tentativa de lavar a alma na folia. Praticando toda espécie de barbaridades e soltando os baixos instintos na multidão desconhecida e sem rosto. Quando o desvario toma conta de alguns seres que então aproveitam para praticar todo tipo de atrocidades. Sendo que algumas terminam de forma trágica e outras o resultado se faz sentir no espaço de nove meses, quando nascem os filhos indesejados do carnaval. Crianças que não foram geradas com amor e respeito e que provavelmente nem saberão quem é o pai. Muitas serão consideradas produção independente e as mães irão arcar com a responsabilidade de criar os rebentos sozinhas, com todo o ônus que acarreta tal tarefa pesando em suas costas. Outras serão atiradas nos orfanatos e outras talvez tenham a sorte de encontrar uma família para adoção. E aquelas que não chegarão a nascer, por práticas de aborto ilegal?


Janda pensava sobre o assunto e divagava observando o movimento de uma pequena sala localizada no mezanino do barracão, tendo ao seu lado um velho conhecido que a amparava e conduzia nos trabalhos em desdobramento astral e com o qual trocava ideias, sobre a agitação e o nervosismo que haviam se instalado naquelas pessoas, visto que o grande dia estava chegando. Faltava apenas um mês para o desfile. Atentos ao corre-corre perceberam quando um grupo totalmente diferente daqueles que ali trabalhavam se aproximou e misturou-se entre o pessoal da escola de samba. O responsável pelo grupo recém-chegado se aproximou, apresentando-se como um representante do Senhor Sete da Lira.


Janda arregalou os olhos, abriu a boca e de queixo caído, olhou para o amigo que a assistia numa interrogativa muda que lhe deu um ar estranho e bizarro que não passou despercebida pelos dois, arrancando deles sorrisos discretos, apesar do semblante sério e compenetrado. Logo ficou sabendo do motivo que os reunira naquele local estranho. Mesmo tendo se perguntado mentalmente, por que fora designada para tal encontro, recebeu de pronto a resposta que a deixara curiosa. Ainda mais que o grupo estava vestido a rigor, isto é, trajes de seda com casacas e cartolas, alguns de branco e outros de preto. Traziam consigo seus instrumentos musicais, violas, flautas, pistons, tamborins... Um tanto curioso e diferente de tudo que vira, porque alegres, cantando e tocando se misturavam com os integrantes da escola. O Senhor Sete explicou que tinham por missão acompanhar esta e outras escolas, infiltrando-se entre as alas e entre a bateria, porque pretendiam inspirar bons pensamentos naqueles seres, para que não fossem responsáveis por possíveis atos desastrados e pesarosos, que poderiam futuramente causar graves consequências entre eles e entre aqueles de cabeça fraca que se deixassem levar no embalo da insinuação do samba enredo com apelo irresistível ao desvario de toda ordem. E que no momento em que as escolas entrassem na avenida, eles estando junto, se deslocariam entre os seres desencarnados atraindo-os com a música alegre e contagiante, afastando-os então do povo, numa tentativa de impedir que influenciassem pessoas com ideias nefastas, desmanchando desta forma o ataque de falanges das trevas, contra a multidão de desavisados, nas noites de folia profana. Tais espíritos seriam encaminhados para locais próprios onde receberiam assistência e amparo, com estudo de suas fichas cármicas. Todos receberão ajuda e orientação, impedindo que aumentem ainda mais seus débitos com a justiça. Quem vai determinar o que acontecerá depois são os tribunais nos quais serão julgados de acordo com suas consciências, tudo organizado e dirigido por Pai Xangô e Senhor Ogum, sob as bênçãos de Oxalá. A nós cabe apenas organizar o trabalho na crosta e encaminhar os recalcitrantes, com base na ordem e no respeito. Agora se me dão licença, preciso resolver alguns detalhes da operação com meus comandados. Dito isto fez um leve e elegante gesto de despedida e foi de encontro aos companheiros que o aguardavam.


Janda virou-se para o amigo espiritual e este comunicou que era hora de voltar, pois estava amanhecendo. Acordou e abriu a janela do quarto que dava para o mar. O cheiro gostoso e reconfortante trazido pela brisa fresca da manhã, juntamente com os primeiros raios de sol, anunciavam o raiar de um belo dia. Em seus ouvidos ecoava uma música...




Seu Sete da Lira... Chegou lá de Aruanda... Seu Sete da Lira Baixou neste Congá...


QUÁ! QUÁ! QUÁ! QUÁ!



[important]Por: Lizete Iria - Fonte: Grupo de Umbanda Triangulo da Fraternidade[/important]